Lanchonete de supermercado 24h, madrugada, gente saída de festas temáticas, atendentes com cara de sono. Os corredores estão vazios, mas as mesas estão cheias de gente fantasiada. Conversa com os amigos sobre o porquê de tanto masoquismo sentimental e cogitam uma solução prática em clubes de BDSM. As horas avançam divertidamente tranquilas. Todos e todas as coisas parecem mais legais quando a noite já vai longe.
Quando ela chega, ele ri. Não ri dela, nem pra ela: ri de si. Acha engraçado se sentir tão abalado por uma simples garota. Sem querer desmerecê-la. Quero dizer que como todos nós, ele sabe que ela é feita de carne, osso e defeitos. Apesar de linda, só a carência dele justificaria a dormência no peito. Ele tem consciência ainda e não faz nada. Ela parece não ligar pra muita coisa.
É preciso mais Coca-Cola. Ela está no caixa comprando algo. O inconsciente o faz ignorar que não vendem refrigerante em garrafa na lanchonete. Vai até lá e fica atrás. O coração acelera e ele se diverte mais ainda. “Barbara, a gente te espera lá na frente”, fala uma amiga. O perfil dela brilha na luz triste e artificial. Ele gela e, outra vez, não faz nada. Ela vai embora. Volta à sua mesa e, como ele esperava, os amigos dizem que já sabiam que ele não foi lá por causa de Coca.
Ele ainda viu Barbara quando foi ao lugar certo comprar refrigerante e mais tarde quando ia embora com os amigos. Em ambos os casos, de novo, não fez nada. Diz que está apaixonado por Barbara. Ninguém leva a sério. Nem ele mesmo, felizmente. Fala que vai encontra-la na internet. Ninguém leva a sério de novo, mas dessa vez ele está falando a verdade. E ri porque é absurdo e ridículo, mas também um desafio recompensador e idiota.
Barbara é uma obsessão boba. Chega em casa quase de manhã e vai direto ao computador procura-la. Busca sua ilusão utilizando métodos minuciosos tendo como ponto de partida pré-conceitos guiados por babaquice. Dezenas de Barbaras, depois foca nas que têm mais probabilidade de ser a garota do supermercado 24h. É difícil, um pouco excitante e muito deprimente.
Não demora muito e a encontra. Sim, sem dúvida é a menina loira de traços delicados e ar de donzela do campo. Gargalha sozinho num misto de satisfação e espanto diante da pequena proeza assustadora. Sente que precisa fazer algo, suas mãos suam sob o teclado. Não preciso nem dizer que é uma sensação confusa e irracional e que, pelo contrário, tudo aquilo era extremamente desnecessário. Mais uma vez, ele não faz nada. Escreve.
“Barbara parece que não é. Barbara é uma ideia. Não me atrevo a tentar descrever sua beleza. Poderia usar um léxico infinito de palavras lindas, exageradas, doces, e todas seriam insuficientes e vãs. O ambiente que ela ocupa fica à parte do resto. Pra onde Barbara carrega sua existência, a realidade se desfigura. O espaço se distorce, o universo se contrai, a luz fica tão lenta quanto minha respiração compassada. Barbara rouba o foco do mundo.
Morreria nos braços pálidos de Barbara. Viveria feliz pra sempre e morreria mil vezes olhando o rosto de Barbara. Sentindo seu cheiro de almíscar vindo de bosques inabitados, terras distantes, lugares frios. Ela cheira igual árvore molhada pela chuva. Olho Barbara e sinto vontade de me postar sobre suas raízes delicadas, dizer que ali é meu lugar, e fazê-la sorrir. Eu a faria rir do vento, do medo, da dor, do nada. No seu sorriso, vejo um sentido que justifica tudo.
Por que Barbara? Porque é ela. Carrego uma certeza infantil, frágil, ressentida, mas que é maior que as várias possibilidades que a encaminhariam às velhas desilusões. Não há lógica que sobreviva à esperança que irradia de Barbara. Humildemente, reconheço minha fraqueza ao ceder assim, tão fácil e sem resistência. Mas sou imprudente e ela é tão tentadora quanto a promessa de alegrias irreprimíveis, de filmes estranhos embaixo do coberto, de sinceros poemas piegas, de se molhar na chuva, se sujar de sorvete, correr de mãos dadas, de anos e anos e anos e anos.
Por que não, Barbara? Não sou muito bonito, eu sei, mas eu me arrumo direitinho por ti, juro. Eu sei fazer poemas bobos, escrever homenagens, falar coisas engraçadas, indicar bons filmes, compreender problemas, respeitar espaços, conversar sobre teorias conspiratórias, rir de desgraças, colocar os pés atrás da cabeça e cozinhar Cup Noodles. Sou educado, honesto, gentil e limpinho. Não que eu já esteja pensando em filhos, isso seria muita idiotice, mas, a título de curiosidade, meus genes são bem razoáveis.
Não, sério. Eu não acredito em “amor à primeira vista”. Deixei de acreditar desde os 11 anos, quando sofria e vi que me doer por algo que não existe é absurdo. Não aprendi muito bem a lição, mas deixei de me entregar a bobagens superficiais sem fazer algum esforço pra que não sejam tão superficiais assim. Agora, quase dez anos depois, me pego pensando numa menina que vi num supermercado, às três da matina, enquanto falava merda com meus amigos e sentia vontade de ir ao banheiro.
Ouvi teu nome, Barbara. E que bom que ouvi, se não, não teria mote pra despejar o lirismo tosco despertado pela menina cuja identidade só descobri à custa de uma investigação mais idiota do que minuciosa e que, provavelmente, tá me achando um babaca/psicopata/coitado/escroto/carente agora. Não tenho como te convencer do contrário. Eu queria ter (serviriam até pra mim), mas me faltam boas explicações pra te dar. Só posso dizer o que eu já disse, espero que valha alguma coisa.
Onde eu quero chegar? Eu não sei. Só sei que me obriguei obstinadamente, mesmo diante da minha imensa resistência, a fazer essa tentativa de sei-lá-o-quê. A vida é estranha demais, e eu tenho receio de deixar passar as boas coisas que ela oferece por leseira. Evidente que tenho muito medo do que tu vai pensar, mas eu mesmo não sei o que pensar disso tudo. Ao menos eu consigo rir disso. Se tu rir também (égua, mas ri pelo menos de uma forma “não pejorativa”, por favor), já vou achar que valeu o esforço, o mico, as palavras, a stalkeação, a noite, etc.”
Envia afoito, sem pensar demais nas consequências, sem se preocupar com o que pode acontecer, sem saber o que esperar. Vai dormir tranquilo e acorda orgulhoso da própria loucura. Mas não acontece nada por muito tempo. E continua não acontecendo. Mas nem importa mais. A metáfora é de extremo mau gosto, mas seria como se Barbara fosse um doce estranho que ele comeu com os olhos, sentiu enjoo e aproveitou pra evacuar merdas que guardava no estômago antes de dar descarga. Jura que não há qualquer ressentimento, só muita cretinice.
3 comentários:
Eu levo a sério (L)
É estranho ideia não tem mais acento, não é?
Nossa, muito triste o alcoolismo. HAHA
Eu acho que você poderia escrever sobre isso. Mas é só uma IDÉIA. Com acento. Porque ainda não é 2012.
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