Numa cidade quente e úmida, como a minha cidade quente e úmida, andar a pé debaixo do sol escaldante de uma da tarde não é o programa mais divertido do mundo. Mas quando se vive (ou tenta viver) apenas com dois salários mínimos brasileiros (e, eventualmente, uns trocados) é expressamente recomendável que se economize. Caso contrário, é inviável comprar outras coisas além daquelas que suprem as necessidades básicas de todo ser humano. Um dinheiro a mais em troca de algo sem preço: isso inclui seis reais diários das passagens de ônibus em troca de duzentos mililitros do meu suor. Aliás, na minha cidade, andar de ônibus no calor infernal de uma hora da tarde também não é o programa mais divertido do mundo. De qualquer forma, acho um absurdo pagar um real e cinqüenta centavos para ganhar o direito de passar quatro minutos dentro de um latão com rodas. Ninguém deveria dar um real e cinqüenta centavos para se locomover num latão com rodas: as pessoas já gastam demais tentando viver, como eu.
Enfim, minha rotina de maratonista já tem uns meses, deveria estar acostumado. Andar seis paradas (uns dois kilômetros, mais ou menos) quatro vezes todos os dias. São cento e quarenta e quatro paradas por semana, quinhentos e setenta e seis paradas por mês, foram sete meses: isso dá umas quatro mil e trinta e duas paradas, uns mil trezentos e quarenta e quatro kilômetros já percorridos por este ilustre beduíno urbano que vos fala. Eu, realmente, deveria estar acostumado.
A rabugice, dessa vez, é justificável: hoje as condições climáticas parecem elevadas à enésima potência. O sol, bem acima de mim, arde lançando seus raios que transpassam meus cabelos claros e não rebatem de volta, radiação aprisionada assando minha cabeça-estufa. A umidade altíssima, anúncio da chuva pontual de logo mais, faz a sensação térmica entrar na casa dos quarenta graus (isso numa boa sombra). O ar revolveu parar de circular completamente: nenhuma em entre as milhares de folhas em nenhum dos milhares de galhos dá qualquer sinal de movimento. Eu tenho a leve impressão de que fileira infindável de mangueiras também está transpirando, todas ávidas pelo alívio que trará a tempestade de inverno (ou melhor: verão com chuva), ainda presa nas nuvens cinza do horizonte além dos edifícios enormes espalhados ao longo das ruas centrais. A quentura do ambiente permanece imóvel formando uma barreira, de espessura gigante e invisível, que espera sádica ser penetrada no meu próximo passo.
Merda. Estou tonto e encharcado de suor. Se não beber algo eu desmaio antes de passar a quinta parada, isso se eu conseguir chegar do outro lado da praça. Desmaiar não é uma boa idéia: iria ser constrangedor fritar no concreto até que alguém de bom coração venha me socorrer, muito provavelmente, por pura piedade.
Coca-cola deveria ser mais barata. Meu estômago já paga um preço bem alto sendo corroído. Ao menos quando eu desenvolver uma bela gastrite farei valer a pena o absurdo que pago num plano de saúde, quase inutilizado. É o preço que se paga para continuar existindo com um pouco menos de paranóia, já que os serviços gratuitos oferecidos pela saúde pública, como todos sabemos, não são lá dos mais confiáveis.
Felizmente, as praças daqui estão abarrotadas de oásis em forma de barraquinhas de ferro. Vendedores que espertamente se aproveitam do clima equatorial para oferecer conforto aos passantes sedentos por cocos gelados, refrigerantes, sucos industrializados, picolés, sacolés ou mesma a santa água mineral um pouco desprezada por mim pela falta de sabor, talvez. Por não usar meu paladar, e, apesar da sensação de frescor, ignorar meus sentidos.
- Ih, moça, melhor a senhora não beber mais não, hein...
Disse o senhor baixinho coçando o boné.
Perfiladas ao lado do banquinho de plástico, cinco latas de cerveja. Havia esquecido as, sempre muito rentáveis, cervejas. Aliás, eu, com certeza, nem iria reparar não fosse a consumidora.
Vejo o perfil. Ela senta-se desleixada, meio encolhida, ignorando a postura. Blaser cinza combinando com a saia que desce até os joelhos e deixa à mostra panturrilhas que, de tão brancas, rebatem luz. A franja negra e lisa, meio infantil, cai por cima da testa melada de suor escondendo as sobrancelhas. A bochecha, muito rosada, justifica a preocupação do comerciante. O nariz, fino e empinado, aponta para o rótulo da latinha fulminado pelos olhos negros e perdidos. A mão mais branca e delicada que já vi leva cerveja à boca de lábios finos e grandes, ela esboça um sorriso incompreensível. Tem um lindo corpo e está bêbada.
- Tô bem, tô bem.
Estou tonto, muito tonto.
- Uma coca-cola, amigo, por favor.
- Olha, moça, a senhora não vai nem se agüentar de pés quando se levantar. Tô lhe avisando.
- Amigo, uma coca-cola em lata, por favor.
- Essa moça tá mal, viu.
- Eu também tô mal, amigo. Pode me dar a coca-cola, por favor? Quanto é?
Olho para baixo atraído pelo som doce de um sorriso azedo. Ela sorri o maior e mais lindo sorriso do mundo. Tem a coragem e o atrevimento dos alcoolizados e me encara descaradamente tentando fitar meus olhos desconcertados. Estou tonto, muito tonto.
- Atende o rapaz, senhor.
- Não... Tá tudo bem.
- Acabaste de dizer que estás mal.
Porcaria de sorriso. Maldito pescoço. Bosta de lábios. Porra de queixo. Merda de olhos.
- Só tô um pouco tonto. O calor tá demais.
- Sério? Eu também tô um pouco tonta. O calor tá demais hoje... É verdade.
Dessa vez até o vendedor, que se divertia com a minha falta de jeito, rio alto com o cinismo trágico. Desistiu de tentar convencê-la a parar de beber e afastou-se um pouco. Não me deu a bendita coca-cola, porém, quem sabe, o gesto tenha sido de boa vontade: para me deixar mais confortável com moça de porre.
- Terça-feira, uma e meia da tarde. O que faz uma mulher bem vestida tomar um porre com cerveja num camelô?
- Ah, eu sou alcoólatra mesmo, sabe como é.
Preciso ainda de um tempo (não sei quanto) para me acostumar à beleza dela. Não é tarefa fácil olhá-la e pensar ao mesmo tempo.
- Não deveria procurar ajuda? Alcoolismo é doença.
- Quem te falou que eu quero ajuda?
- Aí tu morres.
- Agora me conta uma nova.
- Meu nome é Eduardo.
- Izabel, Eduardo. Prazer.
- Tu és pior que o calor, Izabel.
- Ih, rapaz. Pelo jeito tu estás mais bêbado que eu.
Nos enlaces involuntários em que Izabel, sem querer, me joga, eu perco a razão e o meu fluxo de idéias cessa e se transforma numa poça indefinível de pensamentos: eles agora me parecem remotos demais para serem meus. O calor se desfaz durante o intervalo em que meus olhos encontram as íris faiscantes rodeadas de vermelho. A tonteira e o cansaço são agora pano de fundo para os delírios instantâneos, projetados em mim pelo espaço de silêncio difuso deixado pelas palavras de Izabel. Já não sei mais se é presença ou uma simples alucinação.
Eu me transporto para a cevada e faço parte das gotas que te molham os lábios e lavam tua boca amarga. Sou o vazio sem graça do teu olhar inútil. Sou o teu impulso involuntário e constrangedor. Sou tua confusão consciente e enaltecida. Sou teu cheiro podre de cerveja. Sou teu ponto de desequilíbrio. Sou teu desprezo áspero. Sou teu desespero secreto. Sou tua parte escondida. Sou tua fuga da realidade... Tu és a embriaguez que eu havia perdido. Só fui dar conta da falta quando te encontrei.
*Deixa eu agradecer primeiro. Muito, muito obrigado mesmo a quem comentou os dois pedaços anteriores. A opinião a respeito disso é muito importante. Eu tô tentando fazer algo que não é muito habitual pra mim. Escrever assim não é tão simples. Críticas (aliás, preciso de mais delas [sim, tá certo]) e elogios são indispensáveis agora. Eu preciso mesmo: pra continuar seguro. Agora esclareço:É óbvio e visível que não sou nenhum escritor profissional. Não escrevo por obrigação nem sob pressão. Escrevo quando quero e preciso. Não planejei nada, não consigo planejar o que escrever, mesmo tratando de um romance. De todo jeito, esse "livro", talvez, será (se um dia for) mais "experimental" do que eu havia pensado. Não esperem eu postar regularmente essa história. Eu faria disso um trabalho, seria uma porcaria. Não sou só o Eduardo, e mesmo ele tem vidas paralelas. Até.