segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

    E mesmo sabendo que era improvável, que era difícil, havia sempre a possibilidade do esperado não vir. Porque coisas simples e toscas como risos histéricos desvirtuavam teorias elaboradas, certezas hipócritas, medos desnecessários. E dava vontade de fazer nascerem sorrisos só porque era bom matá-los com beijos. Tentava interpretar uns olhares cínicos, propositalmente engraçados, e não conseguia pensar, anestesiado pela sensação boa do riso, do olhar exclusivo, próprio. As vontades vinham nos instantes. Mas aí elas não passavam com eles. E as dúvidas viraram pavores. E os medos viraram uma tristeza escrota. Daí o simples complicou-se. E não é impossível perder o que se gostaria de ter.

Deixa assim não dito, então. Vamos nos perder nos escondendo em nossas inseguranças. É mais sensato.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sentimos a poesia nos instantes. No milésimo de segundo entre a percepção e a reação. Naquele intervalo em que os neurônios estão transmitindo informações e, às vezes, morrem, apagam: a poesia se faz no lapso entre as sinapses, quando a gente sai e não se importa, e nem sabe. Fechamos os olhos pra tentar guardar em vão o aperto no peito. E de repente cessa.

E era necessário tão pouco. Um cheiro de molhado, uns acordes tristes, uma voz rouca, um olhar recém-encontrado. Qualquer dessas sutilezas, aparentemente banais, guardava o poder de nos mostrar pra que vale isso aqui: o porquê de escrever, respirar, crer, ainda que anestesiados e cegos, a gente acreditava na luz. Por causa da poesia escondida nessas sensações letárgicas, se desfazendo pra crescer dentro da gente. A gente flutuava e dava vontade de sorrir. Havia morfina nas coisas.

A poesia eram os impulsos primitivos e as vontades verdadeiras. Os ímpetos de mostrar que estamos vivos e não desperdiçamos isso. Porque tínhamos sensibilidade e paciência pra deixar esses pedacinhos de realidade invadirem os sentidos: o torpor inebriante que sentíamos era a manifestação da nossa natureza primordial. Daqueles tempos remotos em que não havia linguagem pra explicar tudo e nós aceitávamos viver sem saber que estávamos vivos. E já naquele tempo tinham os desejos de se fundir à noite, e de dançar com a parte de dentro do corpo, e de beijar sem se importar com o que sai da outra boca. Havia a mesma euforia e, às vezes, riamos sozinhos. E não era importante saber por que foi bom.

Talvez fosse só a consciência de estarmos aqui e, apesar daqui continuar como estava, ainda resistíamos. Quem sabe, a alegria súbita viesse da mesma energia que faz as estrelas explodirem e os átomos se juntarem e impede que a gente se afogue. A poesia era o simples prazer de existir.

Distraído, o poema me pega enquanto sinto saudades profundas de tempos e vidas que não são meus. Eu ouço a chuva fria gritar sem esperança de acordar os que dormem. Olho o escuro pela  janela que me encara de volta. As palavras escorrem, despretensiosamente, vivas. Desço as pálpebras e tenho a impressão de que a vida me beija só pra depois ir embora e me deixar na ânsia de comê-la.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Agradinho merecido.

     Digo que ela é dramática, inconstante, complicada, louca, doida varrida... Digo por que eu sou sincero e porque eu posso ser. Daí eu procuro uma série de justificativas pra sustentar meus adjetivos bestas e tentar convencê-la do que ela já sabe. Na verdade, na verdade, eu poderia resumir tantas qualidades n’outra coisa muito mais lógica: coragem. Pois é. Ela, diferente de mim, não tem medo de assumir e sentir o que sente, mesmo que isso só dure até daqui a pouco. Mesmo que nem tenha bons motivos pra sentir. Ok, mesmo que ignorando os motivos. Ela se entrega corajosa, se doendo ou sorrindo. Ela sabe dos riscos, é esperta, mas foda-se. Antes qualquer coisa que a apatia. Talvez seja a inocência ou a vida reprimida ou a ânsia pelo futuro ou imprudência ou só vontade de sentir mesmo. Afinal, não tem nada melhor pra fazer. E é bonito e me dá esperança e nostalgia. O passado parece possível porque ela morre e ressuscita toda hora. O futuro é só até daqui a pouquinho. E quando o tempo mudar as coisas pra valer, eu espero (nem que seja em vão!) que ela continue a mesma dramática, inconstante, complicada, louca, doida varrida...

         Ah! Ela faz questão de ver o sol nascer. Isso é bonitinho. Ela é engraçada.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Trinta Minutos.

     

      Foi-se tempo. Foram apenas olhos, e depois nariz, boca, cabelo, aí tinha o pescoço. E depois mãos pálidas e letras miúdas, e umas pulseiras. Mas tinha o pescoço. E o reflexo no vidro, e um perfil. E mistério e palavras indecifráveis e confusão. E a vista nos vultos, e a sombra de tudo que é real. As luzes iluminando nada demais e a velocidade e um vidro embaçado. E o pescoço. Daí a vontade sincera e o esforço desnecessário. O branco e os dedos e a profundeza e o que eu não sei. Porque eu não sei. O sono, e o livro, e a velocidade, liberdade, e um talvez. Uma hipótese. Mas as pessoas. Suas certezas, seus apertos, suas prisões, sua cegueira. E ela lá. Atrás do resto. Algo de fé. Sempre trágico. Uns instantes quebrados, a vontade de quebrar todos os outros. Reza, desejo, palavras, pescoço, e vai-se o tempo. E a velocidade, e as pessoas. Levam embora o que nunca trouxeram e deixam só o que poderia ter sido. Nos fazendo de putinhas adestradas. Ela lá. E a beleza é tão drástica. Porque ela tava lá. Paixão é simples como a velocidade. Não passa de velocidade. A velocidade é que nos faz passar de todo o resto. Chego rápido demais.