Sentimos a poesia nos instantes. No milésimo de segundo entre a percepção e a reação. Naquele intervalo em que os neurônios estão transmitindo informações e, às vezes, morrem, apagam: a poesia se faz no lapso entre as sinapses, quando a gente sai e não se importa, e nem sabe. Fechamos os olhos pra tentar guardar em vão o aperto no peito. E de repente cessa.
E era necessário tão pouco. Um cheiro de molhado, uns acordes tristes, uma voz rouca, um olhar recém-encontrado. Qualquer dessas sutilezas, aparentemente banais, guardava o poder de nos mostrar pra que vale isso aqui: o porquê de escrever, respirar, crer, ainda que anestesiados e cegos, a gente acreditava na luz. Por causa da poesia escondida nessas sensações letárgicas, se desfazendo pra crescer dentro da gente. A gente flutuava e dava vontade de sorrir. Havia morfina nas coisas.
A poesia eram os impulsos primitivos e as vontades verdadeiras. Os ímpetos de mostrar que estamos vivos e não desperdiçamos isso. Porque tínhamos sensibilidade e paciência pra deixar esses pedacinhos de realidade invadirem os sentidos: o torpor inebriante que sentíamos era a manifestação da nossa natureza primordial. Daqueles tempos remotos em que não havia linguagem pra explicar tudo e nós aceitávamos viver sem saber que estávamos vivos. E já naquele tempo tinham os desejos de se fundir à noite, e de dançar com a parte de dentro do corpo, e de beijar sem se importar com o que sai da outra boca. Havia a mesma euforia e, às vezes, riamos sozinhos. E não era importante saber por que foi bom.
Talvez fosse só a consciência de estarmos aqui e, apesar daqui continuar como estava, ainda resistíamos. Quem sabe, a alegria súbita viesse da mesma energia que faz as estrelas explodirem e os átomos se juntarem e impede que a gente se afogue. A poesia era o simples prazer de existir.
Distraído, o poema me pega enquanto sinto saudades profundas de tempos e vidas que não são meus. Eu ouço a chuva fria gritar sem esperança de acordar os que dormem. Olho o escuro pela janela que me encara de volta. As palavras escorrem, despretensiosamente, vivas. Desço as pálpebras e tenho a impressão de que a vida me beija só pra depois ir embora e me deixar na ânsia de comê-la.