sábado, 23 de junho de 2012

Saguinha.

 

      Corria um vento frio pela pradaria recendida à podridão que brotava dos homens que viviam ali. Como soldados nas trincheiras, camponeses em seus casebres de barro batido lutavam contra a sorte para renascerem no dia seguinte. Comiam da própria carne e bebiam o suco amargo do riacho fétido que corria por entre o lixo.  O cansaço e a revolta germinaram e amadureceram coléricos, tal qual uma sarça ardendo no deserto. Um sapo coaxou no lodo quando Ezequiel, do alto de seus doze anos, guiou uma orda de humanos encarniçados em direção à Cidade.

      O povo chorou quando se deparou com os irmão da margem aposta e abraços foram ofertados. Casas foram queimadas, as ruas foram manchadas de sangue, crianças padeceram e, a partir dali, a liberdade foi confiscada e línguas passaram a se contorcer no chão. Atlas, não suportando mais o peso dos braços, deixou rolar o mundo sobre os pés. Os renegados mandaram todos se foderem e, dizimada a Cidade, agradeçeram a Deus pela graça alcançada pouco antes de se entregarem à esbórnia por semanas a fio de, segundo Ezequiel, merecida putada.

sábado, 9 de junho de 2012

Minimalismo.

Um castiçal empunhado feito espada enquanto o alabastro derrete sobre os dedos. As velas se sustem mais por inércia do que por oxigênio. Altas tretas.

sábado, 2 de junho de 2012

Comunicado

Fui ouvir o Bolero de Ravel sendo tocado por um saxofonista bêbado numa tarde fria em Praga. A Ponte Carlos estava deserta e um pombo cagou na minha mão. Depois, escureceu e as pessoas saíram para passear sentindo o vento frio do sul, seguindo pela margem esquerda do Vltava. Era dezembro, haviam luzes de Natal e o cheiro de batatas cozidas impestava o ar. Ainda que ninguém acreditasse em Natal, tudo ficou bem.

sábado, 26 de maio de 2012

Epílogo.

      Velhas carpideiras choram de nostalgia no porão da casa. Os sentimentos padecem nus antes de terem tamanho pra vestir roupas, jazem sob a cruz diária no meio do cansaço. Te vejo por entre a frestra de uma porta multimensional, dormindo quieta no meio do vale Marineris, com uma solidão tão grande que mal cabe no deserto. Me contento, ou melhor, me conformo, em admirar a areia acariciando tua cara, já que os dedos não alçam. Minha liberdade tá condicionada à uma espera que, provavelmente, é só a antecipação de outra maior. Mal te escuto, só ouço o vento soprar quieto. Rezo pra que eu não esteja cansado demais pra ouvir qualquer coisa. Procuro ainda um espaço, respaldado de razão, pra te encaixar no meio dos meus problemas.