quarta-feira, 5 de junho de 2013

Do que se espera.

A suspensão do tempo na cova
Verdade entranhada na tua carne,
eras escorrendo na tua costa
A Parságada parte do teu ventre,
rescaldos de vida soprados no teu cangote
A zoada do trânsito perturbando vizinhos,
no teu galope selvagem, cego, a esmo 
seguimos ignorando imprudências
Músculos vacilando inconscientes,
tuas íris dilatando-se sobre o espaço,
realidade estraçalhada no ranger de dentes...

Meu coração relapso é teu.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Desperdício de espaço.


A boca dela amolada em vermelho
o sujeito penso na imprecisão do verbo
Pensa possibilidades obscenas
descaindo versos cegos
Em um pêndulo-poema

domingo, 28 de abril de 2013

Contato.


Sentia as gotas de suor empapar a camisa, cada vez mais colada ao corpo, enquanto a náusea crescia no estômago. Pensou em abrir o punho, largar as barras e tombar ali, desistindo do mundo. Repensou porque atrasaria a chegada de todos que, como ele e, mais que isso, independente dele, queriam apenas sair daquela panela.

Ela havia se debruçado, curvando a coluna mais do que o necessário, esticando as pernas pra fora do assento. Abraçou a mochila e fechou os olhos. Suas sapatilhas tocavam o sapato dele de leve. Ele notou a proximidade e se permitiu virar o pé direito três graus à esquerda, aumentando a área de contato.

A pele branca dela brilhava no sol que incidia sobre sua testa umedecida. As sardas e sinais se tornavam ainda mais delicados na palidez reluzente do rosto. Ele desviou os olhos pra baixo e fitou pálpebras trêmulas, cerradas, tentando evitar o excesso de luz. O enjoo crescia. O piercing brilhando na extremidade da orelha direita. As gotas de suor escorrendo sinuosas na tez angelical. O cordão dourado adornando o pescoço elegante.

O calor infernal abafando o peito. O chacoalhar nauseante em curvas fechadas a sessenta por hora. A paisagem uniforme desfilando veloz pela janela. O seio pulsando na respiração quase ofegante. Caberia na boca? Ela riria se ele contasse uma piada de mau gosto? 

O mormaço girando a cabeça, a ânsia na barriga, ela ali embaixo, o calor, a censura, as contrações nos músculos abdominais, o líquido gástrico subindo o esôfago, o diafragma descontrolado, o vômito sujando os cabelos negros. O torpor. O medo.

Todos olharam assustados. Ela abriu os olhos instantaneamente sentindo um nojo e uma repulsa indescritíveis pra alguém que nunca levou uma vomitada na cara descrever. Sua pele alva estava suja pra sempre. Limpou-se desesperadamente com a blusa enquanto ele olhava estático. O cobrador pediu pra parar. Atônico, ele levou a mão à boca e desceu o mais depressa que pôde.

Na saída, ainda vomitou novamente na roda do ônibus. Ainda viu o rosto dela, assombrada, sendo limpo por uma senhora piedosa. Ainda pensou em subir lá e pedir perdão. Ainda pensou em se jogar embaixo do carro. Ainda pensou em perguntar sobre seus sonhos e medos.  Mas ela foi embora no sinal verde. Ele no taxi. E mesmo tão íntimos, nunca se conheceram.

domingo, 31 de março de 2013

Argh.


       Tropeços em cacos de memória que fodem com a sola do meu pé. Faz três anos, provavelmente mais. Parece que foi ontem que os verbos de ligação conseguiam exprimir tudo. Eu, mesmo sem saber como ou o quê, dizia com a propriedade irresponsável dos que se permitem o drama. É fácil relativizar angustias juvenis com metáforas exageradas. É cômodo inventar sentimentos, teorizar sensações, intensificar bobagens. Sei que, no fundo, fui eu, sim, quem escreveu toda essa porcaria. Mas é difícil me enxergar no meio de frases de efeito estúpidas e histórias mal contadas. Tem tanto perdido dentro dessas lembranças toscas que me dá pena. Só de pensar que essas palavras minaram  gente relevante eu sinto náusea. Queria ter sido quem eu sou pra dizer coisas diferentes, mesmo sabendo que, irremediavelmente, eu cagaria tudo da mesma forma. Só me pergunto se nem pra adubo serviu atolar, voluntariamente, tanta merda no meu peito.