segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Meias verdades.

Uma pedra lhe enfeita o lado de dentro do peito. Lá onde não bate luz, onde ninguém vê, uma pequena rocha incrustada por trás das costelas faz seu tronco pesar. E quando chegam sofrimentos, mágoas, ressentimentos, descaminhos, ofensas, remorsos, saudades, a pedra rola. Por dentro, carnes são rasgadas, vértebras deslocadas, artérias puídas. Ele ainda não se acostumou à dor, ao mover da pedra, à gravidade da queda. Ainda chora, soluça e treme. Alheios a ele, firmes, os minerais não se desprendem, não se intimidam, não se rompem. Só há a pedra, bruta, laminada, inconsequente, sobressaindo no peito vago, machucado. E, no fim, há vísceras que não restituem, há pedaços que sobram, veias que permanecem sobressalentes, pontas soltas.  E, pouco a pouco, a pedra é amolada, o corpo diminui e a falta sobra. 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Rescaldos.

     Quando ela dorme, o presente se distorce, o tempo se comprime. Aí acaso se distrai e a felicidade, serena, repousa tranquila perto dela. Quando ela dorme a noite se acende, o escuro grita e o medo emudece. E uma dúzia de anjos tocam blues, bossas, valsas e cirandas para velar o sono dela. Porque quando ela dorme a verdade e o mistério se confundem e se atraem. Ela é nereida navegando distraída, é ninfa ignorando o que é, mais poesia lírica que esta narrativa dramática, mais bela e imprecisa que a exatidão cega das minhas palavras. Quando ela dorme eu esqueço e sonho com ela.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013


       Há a falta e, com a falta, o excesso. Me sobram excessos, feridas abertas, carnes rasgadas. O drama não se justifica, não é autoexplicativo, não é embasado por nada trágico. Mesmo assim, queria me prostrar no chão que pisas, beijar teus pés, pra, mais uma vez, pedir perdão e confessar que tô com saudade. Porque meu chão é movediço, arenoso, frágil. Me equilibro pra não cair, não tropeçar em minhas próprias pernas, não desapontar mais ninguém. Vacilo agora por incompetência e angustia. Não vou esquecer que, um dia, eu enrolei minhas pernas nas tuas pra dormir tranquilo. Eu quis acreditar em mim, mas eu sou fraco, mesquinho e autodestrutivo. Não sou nobre ou digno. A culpa me persegue por ter oferecido tão pouco em troca de tanto. Aqui, só há teu rosto na tela fria e a vontade de construir uma máquina do tempo com pedaços de alumínio reciclado e um relógio de criança. Mas viagens ao passado são ilusões e eu não posso mais me perder no presente. Não há como fugir da dor. Não há nada a fazer e, de certa forma, não ligo porque ainda não descobri, exatamente, o que deveria fazer. Eu só sinto muito, muita coisa. Aprendo aos poucos, devagar, a andar e a crescer.