Engoliu um grito e, fecundado com o silêncio, pariu um segredo. Me confessou que, entre tudo acaba, no meio do desgaste, do tédio, da rotina e do cansaço, há coisas teimosas e graves. Falou que eu precisava tomar cuidado, especialmente, com as coisas teimosas e graves. Me explicou que a esperança é frustração ignorada e que o sonho é uma praga que nos devora indefesos. Paciente, me instruiu a cultivar com leveza a concretude do que não se realiza. Me deu em mãos cartas em branco e palavras soltas numa folha sem métrica. Me inspirou até onde pode e morreu, sem realizar nada, tendo vivido pela metade, até virar lembrança de ninguém.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
domingo, 22 de junho de 2014
Música de foda.
Teu músculo latejando contra o
meu músculo. Os poros se tocando em desespero. As papilas roçando úmidas. A
gravidade do tato em frestas obscenas. As esquinas das frestas suando. As
carnes se enroscando como se fosse finalidade única das carnes se enroscarem.
São dançarinos expulsos do ballet Bolshoi por causa da cocaína. Teu cuspe
lavando o meu cuspe. Chupo tua saliva pra me purificar por tudo aquilo que não
pequei. Lambo a tua língua sem modos ou pudor, como um velho nojento chuparia um
peito de 15 anos. Tens sabor de Halls preto com água gelada. As pernas
desaprendendo a serem pernas. A consciência do pau avolumando a cueca. Eu tenho
a pretensão de desfazer tua memória e me eleger o único gosto que podes provar.
Tua respiração quase cessa e eu quase me esqueço de tudo. Tua maior putaria é emudecer
o mundo. Só sobra tu, meu viciozinho de merda que, mais fodido que resignado,
eu não consigo largar. Tu és a nostalgia que eu sinto de brincar, quebrando e
desmontando. Machuca, mas a minha sacanagem é inocente.
segunda-feira, 24 de março de 2014
domingo, 16 de março de 2014
Na sarjeta.
Eu te encontrei, ontem de madrugada, na vala, pedindo socorro. Teu vômito lavava teus pés e manchava teu vestido branco. Tinhas a cabeça entre as pernas e as abraçava afagando tuas canelas finas. Estavas atordoada e sonolenta. Teu corpo pendia pra direita. Um terço do teu rosto se sobressaia entre os joelhos, iluminado pela luz amarela do poste. Eu fiquei, de longe, te olhando. Pensei na possibilidade de teres cheirado cocaína, talvez estivesses tendo uma overdose. Havia uma puta que nos observava da outra esquina, distante. Tinha um grafite estranho no muro às tuas costas. A rua estreita estava seca de carros e de pessoas. Havia apenas tu e tua decadência frágil. Algumas pedras portuguesas da calçada estavam soltas. Havia uma pedra solta perto da tua coxa esquerda. Senti uma necessidade estranha de colocá-la no lugar. Eu pensei em te carregar no colo, mas fiquei sem jeito. Eu gostaria de ter te estendido a mão, mas faltou coragem. Tu permanecias imóvel, exceto pelas tuas costas se mexendo com o inflar dos teus pulmões. E, de repente, não sei direito como aconteceu, meu nariz começou a coçar. Meus olhos umedeceram e, te vendo no chão, lágrimas escorreram pela minha bochecha. Eu acreditava ter superado o tempo dos sentimentalismos baratos. Chorei de incompreensão. Não era compaixão ou pena. Eu chorei porque gostei muito de ti. Acho que foi a luz, o vômito ou tua semiconsciência. Gostei de ti de forma ingênua, superficial, idiota e intensa. Eu queria saber da onde tu vinhas e ouvir teus problemas. Eu queria limpar tua sujeira e resolver tua vida. Eu ia te perguntar o que tinhas ingerido e qual era o teu maior segredo. Eu ia te convidar pra assistir Masculino Feminino e te faria companhia no tédio de um domingo desses. Eu não entendi porque estavas só, exposta a assalto, sequestro, assassinato, estupro. Foi quando me aproximei do teu all star e toquei teu ombro direito. Levantaste a cabeça pra mim e teus olhos verdes estavam serenos. Fiquei te olhando por uns dez segundos, antes de te refugiares de novo no vão entre teus joelhos. O acaso, o acidente, a imprecisão do encontro, o cheiro da madrugada, todas essas coisas reviraram meu estômago. Eu escreveria um poema escroto se tivesse pulso. Eu beijaria tua boca babada e suja se não me doesse o peito. Senti aquela rua soturna rodar embaixo dos meus pés. Eu quis correr, mas senti que iria cair. Fui embora, devagar, com a certeza de que perdi algo. Foda-se. O pessimismo na dúvida é o conforto dos covardes. Eu espero que tenhas sobrevivido. Tu, sem se mexer, gritas em silêncio, afagas e açoitas, ameaças e seduz, tu morres e tu matas.
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