sábado, 2 de agosto de 2014

Lembrar.

 Construiu uma máquina do tempo e agendou uma viagem pra o futuro. Relativizou seus sentimentos e se perdeu entre a covardia e o egoísmo. Juntou lembranças e fotos desbotadas em uma mala e se pôs a caminhar a esmo. Buscava, longe, uma alternativa pra o seu descontentamento crônico. Ergueu um castelo de areia à beira mar e passou a adorar uma sereia. Sonhava com possibilidades remotas e enredos impossíveis. Achava que o martírio era perdão e que as coincidências eram todas ingratas. Escreveu um livro de memórias inventadas cheio de digressões fora de nexo. Desfez amizades por egocentrismo e megalomania. Suplicava esmolas pra não morrer de fome. Era prisioneiro de si, seu próprio refém, seu algoz e sua vítima. Descobriu que haviam lhe posto raízes profundas e antigas. Viu-se num poço de culpas vãs. Eram remorsos inúteis que guardou por incapacidade de interpretar o passado. Sorriu, porque só restava sorrir, porque era absurdo. Lembrar é perene. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Rodeios.


     Engoliu um grito e, fecundado com o silêncio, pariu um segredo. Me confessou que, entre tudo acaba, no meio do desgaste, do tédio, da rotina e do cansaço, há coisas teimosas e graves. Falou que eu precisava tomar cuidado, especialmente, com as coisas teimosas e graves. Me explicou que a esperança é frustração ignorada e que o sonho é uma praga que nos devora indefesos. Paciente, me instruiu a cultivar com leveza a concretude do que não se realiza. Me deu em mãos cartas em branco e palavras soltas numa folha sem métrica. Me inspirou até onde pode e morreu, sem realizar nada, tendo vivido pela metade, até virar lembrança de ninguém.

domingo, 22 de junho de 2014

Música de foda.

Teu músculo latejando contra o meu músculo. Os poros se tocando em desespero. As papilas roçando úmidas. A gravidade do tato em frestas obscenas. As esquinas das frestas suando. As carnes se enroscando como se fosse finalidade única das carnes se enroscarem. São dançarinos expulsos do ballet Bolshoi por causa da cocaína. Teu cuspe lavando o meu cuspe. Chupo tua saliva pra me purificar por tudo aquilo que não pequei. Lambo a tua língua sem modos ou pudor, como um velho nojento chuparia um peito de 15 anos. Tens sabor de Halls preto com água gelada. As pernas desaprendendo a serem pernas. A consciência do pau avolumando a cueca. Eu tenho a pretensão de desfazer tua memória e me eleger o único gosto que podes provar. Tua respiração quase cessa e eu quase me esqueço de tudo. Tua maior putaria é emudecer o mundo. Só sobra tu, meu viciozinho de merda que, mais fodido que resignado, eu não consigo largar. Tu és a nostalgia que eu sinto de brincar, quebrando e desmontando. Machuca, mas a minha sacanagem é inocente. 

segunda-feira, 24 de março de 2014