sábado, 1 de novembro de 2014

Não há lugar no mundo melhor.

     
"Se andarmos longe o suficiente, nós iremos chegar a algum lugar em algum momento" 
Dorothy, O Mágico de Oz.

      Certo de que a estrada, invariavelmente, lhe levaria a canto algum, pôs-se a correr. O idiota corria como se sua sobrevivência dependesse de estar em movimento. Mais do que estar em movimento, estar acelerado, com suor lavando as têmporas, batimentos descontrolados e dormência nas pernas. Se alguém pudesse vê-lo, correndo em direção a nada, talvez tentasse pará-lo, ou aconselhá-lo, um homem carregando uma espingarda, com alguma sorte, pudesse abatê-lo. Mas não havia mais ninguém naquela estrada de pedras amarelas que, ao invés de levá-lo a um mágico, era signo de absoluto desencanto e anulava qualquer possibilidade de fantasia. No entanto, indiferente à solidão e alheio à própria inutilidade, ele corria impassível. Não faço a menor ideia do que ele pensava. Não vejo justificativas pra desembestar numa carreira em direção à porra nenhuma. Procurei muito e, a cada suposição, surgia um novo questionamento e, enfim, desisti de tentar montar o que pra mim parecia, por falta de metáfora mais apropriada, uma quebra-cabeça sem peças. Na época, eu queria estar lá, queria pegá-lo pelo braço e dizer pra ele parar com aquela merda porque poderia morrer de exaustão, desidratação, infarto, aneurisma, tropeção ou o caralho que fosse. Queria, na verdade, uma desculpa pra entender porquê. Eu só queria saber o que leva alguém a correr, conscientemente, por uma estrada que leva a canto algum. Mas eu não estava lá. E ele correu durante muito, muito tempo, com um leve sorriso no rosto. Levou consigo algo que, só sei disso, era muito sério. Nunca vou saber exatamente o que era e, por isso, odeio aquele filho-da-puta com todas as minhas forças. Espero, sinceramente, que ele tenha morrido, pra evitar riscos, pra nunca mais foder com a cabeça de ninguém.

sábado, 2 de agosto de 2014

Lembrar.

 Construiu uma máquina do tempo e agendou uma viagem pra o futuro. Relativizou seus sentimentos e se perdeu entre a covardia e o egoísmo. Juntou lembranças e fotos desbotadas em uma mala e se pôs a caminhar a esmo. Buscava, longe, uma alternativa pra o seu descontentamento crônico. Ergueu um castelo de areia à beira mar e passou a adorar uma sereia. Sonhava com possibilidades remotas e enredos impossíveis. Achava que o martírio era perdão e que as coincidências eram todas ingratas. Escreveu um livro de memórias inventadas cheio de digressões fora de nexo. Desfez amizades por egocentrismo e megalomania. Suplicava esmolas pra não morrer de fome. Era prisioneiro de si, seu próprio refém, seu algoz e sua vítima. Descobriu que haviam lhe posto raízes profundas e antigas. Viu-se num poço de culpas vãs. Eram remorsos inúteis que guardou por incapacidade de interpretar o passado. Sorriu, porque só restava sorrir, porque era absurdo. Lembrar é perene. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Rodeios.


     Engoliu um grito e, fecundado com o silêncio, pariu um segredo. Me confessou que, entre tudo acaba, no meio do desgaste, do tédio, da rotina e do cansaço, há coisas teimosas e graves. Falou que eu precisava tomar cuidado, especialmente, com as coisas teimosas e graves. Me explicou que a esperança é frustração ignorada e que o sonho é uma praga que nos devora indefesos. Paciente, me instruiu a cultivar com leveza a concretude do que não se realiza. Me deu em mãos cartas em branco e palavras soltas numa folha sem métrica. Me inspirou até onde pode e morreu, sem realizar nada, tendo vivido pela metade, até virar lembrança de ninguém.