quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Amputação.

Quando roubaram meu smartphone,
era só ficar longe do notebook,
que eu tinha taquicardia e tristeza aguda,
tal o Tom Hanks,
em Naufrago,
depois que o Wilson se perdeu.

Felizmente, dá pra parcelar em até 12 vezes, sem juros,
Wilsons na Yamada.


Acho que eu escrevo aqui agora mais por nostalgia e carinho do que por qualquer outra coisa mais relevante que justificasse, de fato, eu ainda escrever por aqui. Sei que a constância de leitores num blog depende, diretamente, da frequência com que ele é atualizado com coisas novas e o público deste aqui nunca passou nem perto de ser grande. Assim, dado o total desleixo e irregularidade com que posto no Vago, tenho consciência de que, se ainda vem alguém por essas bandas, é por acidente, não por constância ou esperança de encontrar novidades. No entanto, não tenho como desmerecer ou ignorar a importância deste espaço pra mim e acho, de verdade, que esta novidade merece estar primeiro aqui, não em outro lugar. 

Seguinte: juntei coisas que eu já havia escrito, desenterrei umas bobagens, escrevi outras inéditas, e, enfim, agora eu tenho poesias suficientes reunidas em algo que pode ser considerado um livro. O nome é "Aqui por acaso" e é cheio de despretensão, experimentalismo, gracinhas e outras coisas vagabundas. O poema aí de cima faz parte dele. Tô satisfeito com o resultado porque parei de me neurar querendo fazer algo super-fodástico-capaz-de-produzir-insights-revolucionários. São só ensaios, protótipos e micro-narrativas que não pretendem a seriedade. Combinei de mandar o original pra uma editora em janeiro. Vamo ver no que dá. Mantenho vocês (se é que vocês existem e não tô falando sozinho) informados. 

Ah! De vez eu nunca eu volto a postar aqui, prometo. 

Abraços.



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Chato.

Eles estavam deitados, pós-gozo, olhando as linhas paralelas do forro do teto, meio entediados, meio com sono. Ela tinha a cabeça apoiada sobre o peito do cara e sua mão direita repousava sobre o mamilo esquerdo dele. Ele acariciava algumas mexas do cabelo da garota e brincava de fazer pequenos cachos os enrolando com o indicador. Estavam sérios. O ventilador se virava, de um lado a outro, bambo, sem dar conta de movimentar o ar o suficiente para romper a camada densa que se instalara no cômodo. O som das palhetas rodando era o único que contrabalanceava o peso do silêncio. Não havia barulho de trânsito fora, nem ruído doméstico dentro. Aconteceu o seguinte:

Ele: _ Melhor a gente não se ver mais.
Ela: _ Concordo.
Ele: _ Não tô a fim de me apaixonar por ti.
Ela: _ Oi!?
Ele: _ Eu disse que não tô a fim de me apaixonar por ti.
Ela: _ Que papinho de adolescente pau no cu é esse?
Ele: _ É sério.
Ela: _ Não tem como levar a sério isso. Desculpa.
Ele: _ Tu não acredita que eu possa me apaixonar por ti?
Ela: _ Acreditar, acredito. Mas a gente se apaixona, se desapaixona, é feliz, se fode, eticétera.
Ele: _ Então tu acha que eu devo me apaixonar por ti?
Ela: _ Só se tu quiser te foder.
Ele: _ Por quê?
Ela: _ Porque eu não tô a fim de me apaixonar por ti.
Ele: _ Que papinho de adolescente pau no cu é esse?
Ela: _ Tu não tá entendendo. Eu não vou me apaixonar por ti, nem tô a fim de forçar a barra pra isso acontecer, se é que isso é possível...
Ele: _ Como tu sabe que não vai te apaixonar por mim?
Ela: _ Querido, confie em mim. Não vai rolar, não rolou.
Ele: _ Foi porque eu disse que tenho medo de me apaixonar por ti?
Ela: _ Também... Mas, principalmente, porque te achei chato.
Ele: _ Chato!? Como assim!?
Ela: _ Não tô dizendo que tu é chato. Disse que eu te achei chato. É só meu ponto de vista, tu não precisa dar tanta importância pra ele.
Ele: _ Agora eu quero saber porque tu me acha chato!
Ela: _ Tá vendo? Por isso tu é chato. Quer que eu te explique tudo.
Ele: _ Tu não acha que tu tá sendo um pouquinho escrota? Tenho o direito de saber por que tu me acha chato!
Ela: _ Tô sendo escrota, sim, mas é pra evitar que tu te apaixone por mim e tal. Tô te prestando um favor, nem precisa agradecer. E tu não tem direito a nada, antes que eu me esqueça. Eu falo se eu quiser, o que eu quiser e não quero falar... Agora acho que tu precisa ir embora.
Ele: _ Não, por favor... Deixa eu ficar só mais um pouco...
Ela: _ Cara, eu não gostei de ti! Tu é masoquista ou alguma coisa assim? Não curto essas paradas, não. Por favor, melhor tu ir.
Ele: (...)
Ela: _ Tchau. Obrigada pela foda.

Aquele havia sido o segundo encontro deles. A iniciativa de trepar, obviamente, havia partido dela, que sugeriu assistirem um filme em sua casa com terceiras, quartas e quintas intenções. Nunca mais se viram depois daquela noite. Ela não atendeu as ligações dele e o bloqueou no WhatsApp. Ele passou quatro meses stalkeando o perfil dela no Facebook, mesmo depois de também ter levado block lá. Criou uma conta fake apenas para continuar acompanhando as postagens e ficar admirando as fotos da moça. Os amigos dele precisaram aguentar semanas de lamentações e desabafos dramáticos seguidos de porres babacas dignos de pena. Ele estava convencido de que havia perdida a mãe de seus filhos e que nunca encontraria alguém à altura.


Ele só superou a crise quando, atendendo aos apelos de um conhecido em comum, a moça foi procurá-lo, cheia de dó. Ela sabia o que fazer. Disse a ele que só o tratou mal porque, realmente, também estava com medo de se apaixonar. Confessou que não queria se sentir tão vulnerável. Pediu perdão pelo ocorrido. Era tudo mentira, mas o cara acreditou. Então, como ela previa, ele se encheu de orgulho e disse que já era tarde demais, que não valia mais a pena arriscar. Ela fingiu que lamentou, insistiu um pouco, mas o moço estava irredutível. Não se falaram mais. Ele parou de stalkeá-la, se interessou por outras mulheres. Depois, se vangloriou do que fez para os amigos que, por pacto, jamais lhe revelaram a verdade. Entre os amigos dela, ele virou uma piada pronta. E tudo acabou bem.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Pra o caso de alguém me procurar aqui.

Oi, tem alguém aí?
Eu sempre digo que vou manter uma certa regularidade nas postagens do blog e sempre me contradigo. Vou parar de fazer promessas que não cumpro, já passei dessa fase.
Então, agora eu tô escrevendo na Obvious, um site colaborativo muito legal que tá me dando uma visibilidade que eu nunca conseguiria ter com o Vago. Não tô querendo desmerecer o potencial do meu blogzinho, só tô sendo realista. A Obvious, só no Facebook, tem mais de 800 mil seguidores. Nunca conseguiria atingir um público tão grande através do blogspot.
Preciso falar pra mais gente. Tenho que dar um jeito de ganhar dinheiro com as coisas que eu escrevo, urgentemente. Sério, isso é imperativo. Percebi que não vou ter satisfação profissional de outra forma. Pra isso, claro, preciso me tornar um escritor minimamente conhecido. Meu sonho é poder viver só das bobagens que eu produzo e conseguir remexer cada vez mais pessoas com as palavras. Acho que isso é meio ambicioso, ainda mais num país como o Brasil, mas não vejo possibilidades práticas de ser feliz de outra forma, sinceramente. A única coisa possivelmente rentável que eu gosto de fazer é escrever. Eu sinto que eu sei fazer isso e que tenho coisas importantes pra falar. Mas, enfim.
Meu último post na Obvious foi esse aqui, ó: http://obviousmag.org/mapas_do_acaso/2015/o-que-eu-aprendi-com-a-loucura.html
Falo dos meus surtos psicóticos e de como eles me ajudaram a crescer. É meio que um "aperitivo" pra o meu livro (não, ainda não sei quando será publicado [quem me perguntou? Não sei]). Não sei se ainda tem gente acessando diretamente a página do Vago, mas, se tiver, é isso aí. De novo, se quiserem me adicionar no Facebook, fiquem à vontade: https://www.facebook.com/tiagojuliom
É isso. Espero que gostem.
Não vou abandonar o blog, de jeito nenhum, e, logo logo, posto algo inédito por aqui.
Até lá, até logo.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

O Gerador de Improbabilidade Infinita

    Começa com uma página em branco e um cursor piscando. É mais ou menos assim. Quase sempre. Aos poucos, adicionamos letras, sílabas e palavras pra preencher espaços depois de espaços. Inventamos sons imaginários. Temos a necessidade básica de deturpar o silêncio e nos impor sobre o vazio. O nada incomoda. Devemos preenchê-lo com nós. Eu me viciei, particularmente, em fabricar máquinas verbais microscópicas capazes de viajar com sinapses e intuir pensamentos.  Eu trafego pelos vãos da memória recente e substituo informação por sensação. Não é um trabalho fácil e exige certa técnica. Alguns excessos ficam pra trás, pedaços de mim que são reciclados e viram adubo orgânico. Não me importo de me perder um pouco por uma causa nobre. A linguagem foi violentada por sentidos óbvios. Está traumatizada. É preciso curá-la. É necessário dar forma à incompreensão e divagar, principalmente, sobre coisa alguma.

     O niilismo é subvalorizado e não há critérios pra justificar tamanho descaso. O mundo está cheio de certezas vãs que pré-fabricam pontos de vista e despersonalizam ideias originais. Só a dúvida é redenção. Só através das improbabilidades alcançaremos percepções relevantes. O medo cega. O medo é nocivo e deve ser expurgado. É o mesmo medo que sentimos diante da página em branco. É o medo do que nós não sabemos: o mais primitivo e perigoso já nos imposto pela natureza. Brincando com as palavras, descobri que não saber não é necessariamente ruim. Abraçando o mistério, adquirimos uma liberdade irreprimível que não cabe sob as amarras de verdades incontestáveis. Este é o verdadeiro poder das palavras: confrontar crenças inabaláveis e oferecer visões novas capazes de alterar a relação com a existência. Só as palavras salvam. Repito como mantra pra não esquecer a responsabilidade e a dádiva que carrego. Eu sou um fazedor de mundos.


 “Só uso a palavra para compor meus silêncios.”
Manoel de Barros