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sábado, 20 de junho de 2009

Sobre O Que Seria O Amor.

 

      Ela só o amou porque era preciso. Ele só a amou porque não sabia definir o que sentia por ela. Para ela não morrer de tédio e ele de depressão. Para ele ter o que esperar e ela algo para acreditar. Para os dois preverem o futuro como fazem os videntes bem pagos. Para ter um passado bonitinho para lembrar. Ela ter a quem escrever coisas melosas e ele um motivo para criar sonhos impossíveis. Para fazer a social. Para fingirem conhecer alguém mais que a si mesmo, e, assim,  se sentirem menos só. Para brincarem de dizer “eu te amo pra sempre”. E terem companhia quando iam ao dentista. Para desconfiar do óbvio. E dizer verdades indefinidas com a honestidade dos que têm fé. Para se reconhecer. Para ela sorrir e ele, junto dela, chorar de felicidade.

       Por causa da adrenalina, da serotonina, da dopamina, dos feromônios, do estrógeno e da testosterona. Por causa do sexo. Do gozo. E da vontade de morrerem suados, ao mesmo tempo, um ao lado do outro. Ela quase esquecendo que era apenas por um tempo finito, ele quase esquecendo que era triste. Para fazê-lo compreender o que ela mesma desaprendia. Para fazê-la enxergar que o “amor” é incomensurável e, que talvez, podia mesmo ser maior que o finito. Para preencher o ócio com pensamentos em alguém. Para virarem melhores amigos. E serem perigosamente e totalmente sinceros um com o outro. Para brigar por besteiras só para fazerem as pazes e aumentar o tesão. Pelo desejo, puro. Para ficarem bestificados e atônitos. Para citar escritores que nunca existiram.

    Pelos ciúmes, o medo, o desgaste, a raiva e a posse. Por causa do prazo de validade. Por ela estar se tornando meticulosamente enjoada e ele insuportavelmente repetitivo. Pelo rabo da vizinha tornar-se de súbito mais interessante que os versos dela. Porque há tanta gente mais cativante e surpreendente que ele esperando para ser descoberta. Por “eu te amo” significar tanto quanto um “até amanhã”. Para ela aprender a mentir e ele aprender a perceber quando estão mentindo. Para nunca, nunca mais cogitarem a ideia de se auto-enganar. Para aceitarem, outra vez, que a tendência do que começa é, invariavelmente, acabar. Porque acaba. Para reencontrarem a tristeza e amadurecerem mais umas décadas. Para se procurarem em quem lhes encontrar.

      Para ele dizer: “espero que tu sejas feliz” sem mágoas. Para ela dizer: “obrigada pela felicidade” e achar que isso daria um texto. Para confirmar a tese de que o amor corrompe amizades raras e valiosas. Para ficar sem se falar uma semana. Para descobrirem outros e se apaixonarem de novo e de novo. Ao mesmo tempo, outro tempo, n’outro tempo. Para rirem de tudo, quem sabe. Para ele tornar-se mais comedido. Para ela tornar-se mais ela. Em nome da poesia, do lirismo, do inexplicável, do insólito, da coragem, da beleza. Para ter sido. Para brincarem de dizer: “porra, mas eu te amei pra caralho”. E terem alguma certeza, enfim. Para descobrir que as verdades são momentâneas e as mentiras são apenas vontade de ser feliz. Ou  tudo isso vice-versa. Sei lá.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Das Doces Invenções.

“Lá vou eu de novo, como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão”

Chico.


C2, infinito.


Eu fiquei imóvel. Virei uma daquelas estátuas antigas que têm gravadas nos seus traços metálicos corroídos pelo tempo a complacência de nunca ter existido. Deve haver ao menos uma dessa na tua cidade e, se há, tu sabes disso. Mas é bem provável que tu nunca tenhas enxergado os olhos de chumbo, quase deformados, belos e estúpidos, revelando a apatia de um sentir acéfalo. Da próxima vez que tu passares em frente a uma dessas, tenta te lembrar de mim e dos olhos. Eu vou tentar fazer o mesmo.
Desconhecidos são agrupados de possibilidades infinitas ambulantes. Dentro do silêncio, na superficialidade de carnes bem distribuídas e traços bem agrupados, na solidão partilhada envolvendo-os numa trama misteriosa e intrigante, na incapacidade de ler ou traduzir a grande epopéia arrebatadora que se passa atrás do olhar perdido, na grande aventura que é admirar como um espião ultra-secreto; antes dos gestos, das atitudes e das descobertas decepcionantes que desconstroem uma pseudo-perfeição presumível graças à capacidade que temos de nos enganar de um jeito tão sórdido, tão covarde e tão babaca que nem percebemos onde nós nos jogamos. Eu já desaprendendo a me portar.
Alguém que a ti é atraente e, por algum motivo besta, rouba tua atenção: a paixão que pensavas nem existir, o estímulo vital, 180º, a luz do teu esquecido espelho interno, a justificativa da tua esperança de bosta, o remédio para o tédio e a cura da tua sonolência, a vertigem que tu tanto querias, o entorpecimento poético tão frágil e lógico quanto a dopamina e a serotonina explodindo teu organismo, explodindo até tua alma: passou, perdeste. Nós perdemos tudo isso, nós perdemos toda hora.
Acho que é mais cômodo seguir nossa rotina escrota. É mais confortável nos matar um pouquinho em meio aos dias repetidos. Talvez, só talvez, assim seja bem mais fácil esquecer que hoje é o mesmo que ontem e, provavelmente, será a mesma porcaria que amanhã e depois. A mediocridade é uma dádiva, e eu sou ruim demais pra merecer isso.
Aperto no peito, adrenalina, mão no bolso, dedos no cabelo, sol fritando a cara, aproximação, olhos no rosto, cabeça levemente à esquerda, olhos nas nádegas. Belo rosto, bela bunda... E os segundos que precedem algo importante são tão extraordinários: deliciosos e torturantes. Nós sentimos prazer ao andar na montanha-russa, mesmo nos cagando de medo. Tem um quê de masoquismo, nos maltratamos com a espera pelo que nem sabemos. Maldita adrenalina. A paixão é só mais desses segundos, ela antecede seu próprio fim: apenas acontece a vida entre o nascimento e a morte, e é só. O que eu queria, afinal?
E ela? Antecede o quê? São tantas hipóteses: medo, uma risada, um susto, desprezo, desapontamento, indiferença, minha desilusão, surpresa, reconhecimento, meu desespero, uma conversa dispensável, um papo constrangido, as horas, um estranhamento, uma descoberta inexplicável, um toque, uma queda, uma perda, um arrependimento, uma paixão platônica, um papel ridículo, uma entrega, a doidice nem tão justificável assim, um beijo, uma viagem ao quinto dos infernos, outras palavras, essa loucura.
Eu conservava os segundos por diversão e vaidade, apenas para fingir ter absoluto controle sobre o improvável. Meu divertimento era experimentar a magia das verdades impossíveis que eu empilhava num castelinho de cartas repetidas. Mas eram verdades, até que eu me provasse o contrário, eram verdades incontestáveis. Sentia também aquele friozinho na barriga ingênuo que temos quando nos entregamos voluntariamente às ilusões: tendo plena consciência de que são o que estão sendo, e as chances de deixarem de ser, tende a levá-las ao mesmo fim fatídico dos segundos que as despertaram em mim. Eu sempre acho engraçada minha burrice, essa infantilidade me fazendo ser paradoxal falando desse jeito de um desejo primitivo, simples e natural, escondendo-o atrás da covardia, me protegendo da sua perda. Eu sempre sorrio diante de toda minha contradição, eu querendo o impossível: que as minhas escolhas não se anulassem. Falando até de coração.
Eu subi no ônibus paralisando o tempo enquanto meus olhos a fotografavam da janela. Carreguei os segundos, as teorias, as suposições, ela e todo resto da baboseira desimportante toda, tendo certeza de que a veria e teria tudo outra vez. Certeza mesmo. As chances de acontecer são bem grandes, é muitíssimo provável.
Enquanto não decido o que fazer com a minha invenção, eu preservo-a um pouco mais dentro dela mesmo. Quem sabe, amanhã, depois, mês que vem ou nunca, eu a use e vejo como isso funciona: o que resta depois do fim de quase todas as coisas que imaginei. A causa morte será sempre eu. Protejo-a de mim, então.
Quando deitar a cabeça no travesseiro, estarei pensando em hipóteses para dormir. Daí será como na tarde em que eu perdi uma tempestade enquanto ela embalava meu sopor e eu sonhava: quando acordei, a rua estava secando, e eu continuava inundado. Agora eu me pergunto, com um sorriso idiota e uma angústia estranha: de que valerá me afogar na minha pocilga de certezas em decomposição? A resposta eu encontro em uns olhos que já nem têm dona, e eu só lembro vagamente como são: embriagados, perdidos e tristes.





Faz um ano desde o primeiro post. Juro que até comecei a escrever algo saudosista, objetivo e babaca, mas achei muito mais justo poupar vocês disso. A gente não tem tanta intimidade assim.
Melhor a nostalgia de reviver velhos erros doloridos que já renderam tantas palavras bonitinhas. É estranho porque eu adquiri tanta consciência de mim, que já nem me importo mais com minhas bobagens, porque sei agora que são só minhas bobagens.
Sem o vago eu não seria o que eu sou hoje. Pior: não saberia o que eu sou hoje. Escrevendo a gente se conhece e se entende, isso é fundamental pra não sermos estúpidos. Ok, estúpidos inconscientes. Espero, sinceramente, que isso valha pra quem lê.
Eu já não escrevo mais por nada disso.
Quero agradecer muito a vocês que dão atenção a mim, sem vocês não teria tanto sentido. Muito obrigado.
É estranho vocês não me conhecerem, e vocês não me conhecem... Acho que é uma das grandes razões por isso aqui existir.
Viva isso. Huhu. (efusividade é sempre algo ridículo e/ou irônico)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Eduardo e Alice.

*Escrito em dueto com Camila Regis, num presente ausente.



Eduardo senta apoiando a cabeça na mão esquerda, sua aparência inteira entrega as noites em claro e a falta de horas para dormir durante o dia: desleixo, cara amassada, olhos fundos, barba por fazer, os cabelos despenteados propositalmente, a camisa social preta um tanto amarrotada e o olhar blasé fixo num ponto uns metros além do casal da próxima mesa. Mexe o gelo do copo com a ponta do indicador direito e repara numa loira sentada três mesas à frente. Ela gargalha espalhafatosa e fala alto com a amiga sentada ao lado, algo relacionado a futebol: usa uma saia branca exibindo os joelhos rosados e uma blusa cor-de-rosa que salienta o volume dos seios, vez ou outra olha para Eduardo e sorri, sem mostrar os dentes, insinuando-se descaradamente com jeito de puta oferecendo serviço.
Quando Eduardo leva o copo à boca, percebe que a coca-cola já é mais água que refrigerante, então ele sorri e avalia o custo benefício: leva em consideração a vestimenta demasiadamente provocante, a postura efusiva, a atitude explícita que pouco lhe instigou, e o tema abordado na conversa para pré-julgar a moça e concluir que uma conversa com ela não deve valer o prazer de um copo de coca-cola com gelo, se isso, é claro, não lhe render mais que alguns beijos no início da madrugada. Tira o celular do bolso, 20:40. “Atrasada, como sempre”.

Alice tem a boca um pouco mais rosada que o normal, algo que poderia indicar um longo beijo dado previamente, mas não era isso: só o que constava ali era o hábito de fumar iniciado numa pré-adolescência rebelde, há algum tempo atrás. Andando em passos largos, meio de galope, sente vontade de satisfazer o vício naquele instante, porém, só tem dois braços, ambos ocupados: um com uma pasta gigante de papéis a serem lidos, o outro com o guarda chuva que a protege da garoa irritante pinicando o peito dos pés. Calça sapatos de gente importante, quase pretensioso demais, até mesmo para ela: bicos redondos e um salto alto que valoriza a postura.
Parada em frente à faixa de pedestre, paralela a um semáforo que indica a passagem favorável dos carros, ela sente um arrepio quando o vento sul sopra em suas pernas desnudas. Frio, está frio. Com a visão periférica percebe que está sendo observada: ao seu lado um homem, desses clichês, infla o peito tentando chamar atenção. Dos fones o som sai muito mais alto que o aceitável para manter a saúde auditiva de qualquer um, percebe-se, pelas batidas irritantes, que a música que entope os ouvidos dele é algum pagode: usa regata num tempo inapropriado, boné, um colar de coco e está suado. Provavelmente, tinha acabado de sair da academia, é esteticamente agradável, atraente. Dá um sorriso cafajeste à Alice, esperando resposta: ela pensa realmente em retribuir, contudo, ele usa regata e, para ela, ninguém que usa regata é confiável, além do mais, escuta pagode, é exibicionista, deve ter um ego enorme e um pinto pequeno: não compensa, ignora-o.
O semáforo, finalmente, se fecha e Alice pode atravessar até seu destino do outro lado, um bar. Abre a porta, um ar azulado, não o avista. Entretanto, uma loira de saia branca gesticulando para todos os lados chama sua atenção: para Alice, somente atrizes de filme pornô e enfermeiras usam saias brancas. “Piranha, com certeza”.


Eduardo vê Alice na entrada, mas não faz sinal algum para atentá-la: ele ri divertindo-se com a apreensão dela passando os olhos por todas as mesas, menos a dele, enquanto sua expressão vai transformando-se revelando algo parecido com ira profunda. Há dias eles não se vêem, atarefados demais com coisas desimportantes, e Eduardo aproveita o momento para admirá-la com calma antes que Alice comece a vomitar palavras em cima dele, o que, possivelmente, lhe renderá boas gargalhadas e, talvez, um futuro melhor do que aquele com a loira de saia branca.
Cabelos castanhos levemente ondulados caindo por cima do lenço azul que protege o pescoço, traços delicados, olhos escuros impacientes, boca carnuda, camisa de lã branca escondendo os braços pálidos e o sorriso de Eduardo ao ver expostos os joelhos de Alice, sempre um pouco inclinados para dentro. Eles já descobriram e redescobriram um o corpo do outros muitas vezes, contudo, Eduardo não cansa de olhar para ela, investigando cada centímetro seu. Para ele, ela tem uma beleza mais única e particular do que o encanto de qualquer outra mulher com quem já tenha estado. “Algo de lirismo pungente”: ele costumava dizer isso, num tom meio irônico, antes de finalmente dormirem, continuaria repetindo até convencê-la, não fossem tantos os “cala bocas” acompanhados de tapas ardidos.
Alice, enfim, enxerga Eduardo, rindo, sentado quatro mesas atrás daquela ocupada pelas duas amigas estridentes e, ao perceber que ele já tinha notado sua presença, balança a cabeça indicando negação e solta seu ar de reprovação enquanto caminha mordendo os lábios em direção a ele.



- Bem?

- Aham. E tu?

- Não... Mais ou menos.

- Por quê?

- Não sei. Só acordei triste. Deve ter alguma coisa a ver com a taxa de estrogênio no sangue, só pode.

- Come chocolate, quem sabe resolva.

- Não vendem chocolates em tonéis aqui perto. E eu, realmente, prefiro morangos... Aliás, nem sei como isso é classificado como fruta.

- Morangos dão em árvores, é por isso que são classificados como frutas. E eu não entendo nada de estrogênio: não tenho taxa disso no sangue... Não me chamaste aqui pra falar disso... Queres ser compreendida, o que aconteceu?

- Merda, uma merda aconteceu. Terminei com ele... Ao menos posso respirar e fumar em paz agora.

- Outro? Já é o terceiro nos últimos meses. Por que insistes em nomear teus relacionamentos?

- Dá um caráter mais humano pra coisa por mais animalesco que seja... Ai, de todos foi o pior, sem dúvida: implicava até com a minha insônia.

- Sim, realmente são da natureza humana o egoísmo e o sentimento de posse sobre tudo. E me poupa: tu és arrogante demais pra ter um cara metido na tua vida desse jeito.

- Humildade também não é o teu forte. Enfim, de certa maneira parecia necessário, não ele: ter uma relação. E não me venha com lição de moral, já sei que não tinha necessidade nenhuma.

- Deverias ser menos contraditória, terias menos problemas. Ah! E parar de fumar, deverias parar de fumar também.

- A colisão das minhas contradições pode ser catastrófica, ou pode dar ótimos resultados, prefiro correr o risco. E pra quê parar de fumar? Vou morrer de qualquer maneira, que seja de uma doença legal pelo menos: Nietzsche e Freud morreram de câncer, quero estar nesse grupo seleto.

- A colisão das tuas contradições, ultimamente, só tem feito tu me procurar pra chorar dramas de feridas que tu já cicatrizaste faz tempo: tua época de princesinha presa num castelo de cartas já foi, sabes disso. E Nietzsche e Freud morreram antes de descobrirem que fumar causa impotência sexual: eram mais inteligentes que tu, eles parariam de fumar, com certeza.

- Sou masoquista, as cicatrizes doem ainda mais agora. Sou estúpida, sem vocação para princesa. E foi uma colocação capciosa, Nietzsche morreu de câncer no cérebro, nada a ver com cigarros.

- Sabe, acho que tu és narcisista demais pra seres masoquista. Quando te sentires carente e precisares ouvir algo bonitinho só é ligar pra mim... Não precisa ficar criando compromissos com caras que ficam se projetando em ti e tirando tua liberdade. E o Nietzsche morreu de câncer no cérebro por ironia do destino: cientistas afirmam que foi castigo divino, por ter pensado demais. Já tu, tem pensado de menos.

- Não quero que percas teu tempo comigo e não preciso ouvir algo bonitinho de ti: teu silêncio se insinua, já é o bastante... Queria que fosse assim com eles, mas, o peso que fazem sobre minha vontade de ir e vir é grande demais: não consigo esperar o tempo até que a mudez se faça entender.

- Rá, pára de te fazer de vítima, não combina contigo. Tu sabes muito bem que estando contigo meu tempo é aproveitado das melhores maneiras possíveis. Também sabes que, não importa por quanto tempo durar, ninguém vai conseguir te compreender como eu... Nossos silêncios são os mesmos, esqueceu?

- Sabes que quando fico sensível viro atriz de novela mexicana, deixa eu fazer o meu drama. E é verdade mesmo: tu és quem melhor preenche o vazio, sem que fique pesado o bastante a ponto de eu não poder me mexer... Também sei que tenho o mesmo efeito sobre ti: é bem diferente do efeito que causa aquela loira piranha que não pára de olhar pra cá, por exemplo.

- Na verdade eu tava pensando em falar com ela, não parece ser do tipo que espera do lado do telefone o cara ligar no outro dia, quem sabe não arranjo alguma diversão? E tu precisas parar de tentar deduzir tanto sobre as pessoas assim: quem falou que ela é piranha? A moça só tem excesso de simpatia.

- Vai então, ela é bonita mesmo... Mas vais te arrepender: ela tem cara de gente que fica batendo papo depois do sexo, uma puta ficaria quieta pelo menos... Eu dormia depois: é mais fácil quando o silêncio falar por nós.

- Vou não, vai que ela vem falar de futebol que nem tava fazendo com a amiga dela? Eu sufoco com o travesseiro... E é impressão minha ou tu estás com ciúmes?

- Morrendo, vou ali à cozinha... Qual demora mais: o gás do fogão ou a faca de serrinha, pra me matar?

- Tenta os palitos de dente, é uma boa idéia.

- O bom é que ele incentiva... Isso sim que é ego: só pra teres uma morte em tua homenagem.

- Já falei que não podes morrer ainda.

- Por?

- Porque eu não estou com vontade.

- Amo tua capacidade de argumentação.

- ‘Brigado, sou um moço muito prendado.

- E eu uma moça suicida.

- Eu poderia aproveitar que estás emocionalmente fragilizada e, conseqüentemente, com a capacidade intelectual/racional bem afetada pra te dizer algo doce, te beijar e te levar pra ver os móveis do meu novo apartamento pela... Décima terceira vez?

- Adoro a tua sutileza, e sabes que eu vou sim, apesar de saber a cor do ralo do banheiro... As coisas boas são incomensuráveis, parei de contar depois da primeira vez, Sr. oportunista.

- Aproveitar essa oportunidade é a coisa mais complicada do mundo, não é?

- Tudo bem, isso não faz de ti menos nobre.

- Onde tu enfiaste teu orgulho, garota?

- Engoli seco.

- Saudades de ti... Apesar de ter me acostumado com a tua ausência nesses dias, tinha uma saudade meio... Não sei qual a palavra... Estranha, sei lá.

- Saudade? Que estranho.

- Por quê?

- Não sei se teria motivo.

- Acostumado contigo.

- Mesmo?

- Sabes que sim, não te faz de besta.

- Como que eu vou saber, senhor? Não sou filha de Iemanjá, mãe de santo, nada disso.

- Talvez filha adotiva do cinismo.

- Pelo menos papai é divertido... Mamãe é a burrice.

- Então tu não puxaste pra tua mãe.

- Nada garante.

- Ninguém tem garantia de nada mesmo.

- Apesar de burrice ser questão de parâmetro...

- Chega de divagações inúteis, Alice.

- Ao menos foi divertido.

- Comparado as coisas divertidas que já fizeste, aquilo foi inútil.

- O conceito de utilidade é supervalorizado.

- Queres discutir sobre o conceito de utilidade?

- Não. Eu quero um cigarro, logo.

- Só porque sabes que ficas muito sexy fumando e estás tentando me seduzir.

- Cigarros são um pretexto, sabes que não preciso deles pra te seduzir.

- Na verdade, às vezes, eu queria que tu fosses um pretexto pra mim: como aquela loira. Mas as coisas não funcionam assim contigo...

- O mesmo vale pra ti... Talvez porque na certeza de nossa inconstância é que a gente veja uma segurança: de esperar o inesperado, de se abraçar no indefinido. Somos amantes do que é vago.

- Quer conhecer minha estante de livros?

- Já li todos os livros dela, mas não me importo em reler.

Eduardo e Alice saem e acabam se esquecendo dos livros repetidos: passam o resto da noite e do dia seguinte enclausurados um no outro antes de um novo “até logo”.

sábado, 22 de novembro de 2008

Para Não Repetir Pela Primeira Vez.

Escreveu:

“Bom, eu estou te devendo um monte de respostas, eu quero te dizer exatamente a verdade, sem exageros ou cautelas, por isso eu vou ponderar bem cada palavra, pra tentar te fazer entender bem as coisas (só tentar). Por mais que eu não acredite (e agora mais do que nunca) na definição, o que eu falar aqui será decisivo e carregado de certezas, acho que estás precisando muito disso: pra ficar em paz, mesmo que precise passar por uma tempestade primeiro. Eu te juro, com o coração dolorido, que essa era a última coisa que eu queria, mas acho que vai doer. Não pensa que pra mim foi ou está sendo fácil admitir e aceitar minhas conclusões.
A gente se desentendeu naquele dia por culpa inteiramente minha: eu assumo a minha idiotice, estupidez e imaturidade e, por mais que já saibas de tudo isso, é importante eu reconhecer que me contradisse completamente e agi feito ator de novela vagabunda, fui embora puto porque a verdade às vezes dói e é difícil aceitá-la quando isso acontece. Eu estava muito, muito confuso, não esperava que tu pedisses uma posição minha naquela hora (apesar de eu compreender perfeitamente tua necessidade), sei que disseste que era pra eu pensar melhor: das vezes que te levantaste pra ir embora tu estavas me concedendo esse tempo (e era mesmo pra tu ter ido, eu não deveria ter impedido desde a primeira vez), mas naquele momento a única coisa que eu queria era estar contigo: ignorando o futuro ou passado, eu só queria estar ali. É mágico e encantador quando estou do teu lado e, na minha cabeça infantil e dramática, se eu te deixasse ir embora eu nunca mais iria te ver outra vez.
Fiquei criando desculpas inúteis e me contradizendo com frases sem sentido porque, por mais que as tuas perguntas fossem claras e diretas, eu não queria te dar as verdades ignoradas que vou te falar agora (pra evitar a perda) e tão pouco mentir pra ti. Eu acho desumano e imoral não ser absolutamente sincero e verdadeiro com quem se gosta: mesmo que isso evite problemas momentâneos, futuramente as verdades iriam aparecer, e um relacionamento pra durar (seja de qual tipo for) não pode ser menos que completo e inteiro: pra isso é necessário que ambos se doem verdadeiramente e não escondam coisa alguma (nada, completamente nada) um do outro. Então eu quero te pedir perdão: por mais que eu não tenha feito diretamente, e não tenha pronunciado as frases, eu, de certa forma, não fui verdadeiro contigo e menti com meu silêncio e minha falsa convicção. Felizmente eu não sou um bom mentiroso e me sinto melhor assim, já sabes disso.
Os dias depois da nossa discussão foram um misto de tristeza e revelação. Eu pensei muito, muito: pensei e constatei o que só poderia fazer sozinho, com a calma e a solidão, sem o peso do tempo e do agora fazendo pressão sobre a minha racionalidade. A palavra certa é aceitação: eu sempre soube o que quis, mas isso vai de encontra ao que eu gostaria de querer e, por um falso humanismo e empatia por uns ideais ultrapassados que já superei, eu escolhi ignorar. Sei que é difícil de compreender, mas se pudéssemos escolher o que querer, nós poderíamos ser felizes por mais tempo e com mais facilidade (ou sem tantas dificuldades, tanto faz). Não, não estou falando que gostaria de te querer, porque isso eu quero: o que eu queria era ter segurança e constância sobre o que eu sinto, como tu tens. Mas eu sou uma bomba ativada por um monte de mecanismos que explode pra todos os lados.
Eu simplesmente não funciono assim: não me sinto atraído e satisfeito com a estabilidade de algo extasiado e único que não me supre. Tudo é tão mais e há tanto espalhado por aí que eu não consigo abdicar disso em nome de um compromisso que me limitaria ao que não é capaz de me satisfazer, e não me tira a necessidade de sentir o resto. E não é culpa tua nem minha: é da minha natureza essa instabilidade, eu não posso te dar a segurança que eu não tenho.
Vou te dizer o que eu quero: quero liberdade pra sentir intensamente e ter o que eu quiser, quando eu quiser até o tempo que eu quiser. Sim, bem egocêntrico.
Acho que nem quando eu amar, quando eu descobrir o que é isso e aprender a identificar e nomear sem cometer erros tão bizarros e vulgares de novo, eu mudarei esse jeito vago de sentir. Matinha sobre o amor (idéia de amor, não Amor inominável) uma visão utópica e ilusória de encarnação do eterno, inabalável e perene, maior que todos os desejos, sentimentos e sensações combinados. Mas depois de sofrer com resquícios do que seria isso, o desgosto me trouxe a frieza, a lógica e, principalmente, o autoconhecimento pra entender sem dramatizações dispensáveis e burras: tudo que começa, mais dia menos dia, acaba ou muda sob ação do tempo transformando e modificando o que nos cerca e o que nos faz, e o amor não é sagrado: pelo contrário, apesar de surreal, é demasiadamente humano.
Amor precisa vir acompanhado de uma compreensão que eu não tenho contigo: algo tão grande que me permitiria uma liberdade imensa a ponto de eu parar de sentir necessidade e sobrar apenas a vontade. Sabe que me sobra necessidade.
Não quero ter limitações ou empecilhos que me separem das minhas vontades, já deixei de ser medíocre faz um tempo, e não me permito, nem consigo, me contentar com menos do que eu ambiciono. Amor é relativo como tudo que existe, e acho que nós dois temos concepções diferentes: se nascesse, tu não entenderias a minha possível necessidade de mais, de além, não entenderia que, talvez, não me bastasse. Começo a achar que tenho capacidade de amar de três ou quatros jeitos diferentes, quantas me forem apaixonantes. Diferencie amor de paixão se quiser, eu também quero ser livre pra misturar e viver tudo ao mesmo tempo.
Quero continuar contigo sim, mas pra mim não é o suficiente, e, se um dia for eu não sei até quando será. Cumpriria a promessa que fiz de parar de te exigir ou cobrar: essa era uma atitude ridícula e mesquinha que tirava a tua liberdade e espontaneidade, eu não posso tirar de ti o que eu quero pra mim. Mas não sou capaz de ser tão egoísta, imoral, desonesto e incompreensivo a ponto de pedir pra que continues a andar sobre uma corda bamba sem rede alguma embaixo sabendo que vais cair a qualquer hora, eu te respeito demais pra me sobrepor a ti. Nem eu faria isso no teu lugar: continuar com algo sabendo que há uma dor maior que essa anunciada não é coragem. A reciprocidade é elemento fundamental, e falo de reciprocidade em todos os sentidos: até na forma de encarar ou, ao menos, respeitar como o outro sente. Eu não te faria feliz, a segurança e fidelidade que buscas não encontrarias em mim, e eu não me sentiria bem com essa inutilidade.
Cada segundo, cada momento, cada beijo, cada palavra, cada riso, cada pensamento que me deste vai ficar gravado pra sempre (é: pra sempre) em mim, e nem se eu quisesse poderia te esquecer. Conheci uma alegria nova e incrível contigo, realizei uns sonhos antigos e ganhei outros novos: saí da realidade, encontrei uma paz desconhecida, descobri uma parte minha até então oculta, além de ter encontrado identificação, me impressionado com semelhanças, senti orgulho e admiração, transbordado e dado felicidade... Marcaste minha vida.
Disse que eras meu sonho, e és mesmo, só que eu não tenho um único sonho e não quero estragar mais nenhum teu. Perdão.”

E ambos padeceram, porém, foram mais felizes muitas outras vezes.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Cândida Reza.

Naquela noite, eu desfrutava da aprazível companhia de minha invencível solidão e da insônia que até hoje insiste em me perseguir querendo sabe deus o quê. No escuro eu ensopava de suor graças ao calor infernal, sentia um cheiro de éter velho e a brisa porca do ventilador atirava poeira contra as minhas narinas. A televisão estava sem sinal, eu me distraia com aquele zumbido irritante enquanto ela projetava faíscas pretas descontroladas no meu rosto. Deitado com o peito virado para o teto, mãos na nuca, olhos acompanhando as linhas paralelas feitas pelas madeiras do forro: pensava no dia repetido, no meu isolamento costumeiro, nas pessoas que perderam o gosto, em gente desconhecida, em hipocrisias, no sono, na história, até que finalmente cheguei a ela.

Daquela vez eu sorri quando me lembrei dela, sorri porque eu estava fazendo papel de idiota, pior: um idiota absolutamente consciente e que reprovava sua idiotice. Nessa madrugada tediosa quando eu recordava dela, só vinham à tona frases raras, um rosto angelical e uma voz de ninar. Era o resumo mais fantástico que eu já tinha feito de algo ou alguém.

Eu tinha palavras, traços e som: era o ator coadjuvante do meu próprio filme surrealista. Ela e eu no meio de uma plástica dissonante de letras, formas e barulho.

O óbvio era imprescindível para introduzir o que aconteceria posteriormente (esse é mais teu que meu):

Fechei os olhos por seis segundos para vaporizar a sujeira e o lixo do quarto numa fumaça pesada e palpável, era necessário criar uma atmosfera noir antes de encaixá-la, caso contrário, o resto não teria o menor sentido. Levantei as pálpebras e o quarto estava tomado por uma neblina sépia-desbotada, ela dançava valsa embalada pelos sopros do ventilador que volitava no breu produzindo mini-tufões enquanto eu admirava-o espantado. Ele zombava de mim com ciclones cínicos vindos de suas piruetas acrobáticas: o vento girando em sentido horário era o inverso do assombro que eu já havia previsto, mas tentava, em vão, atrasar. Susto é vento violento.

Quem gravava a cena, sem cortes, era uma micro-câmera posicionada nas costas de um mosquito bêbado que vagava pelo ambiente transpassando a luz vinda da televisão, ela nesse momento cuspia pontos pretos minúsculos para todos os lados que, depois, voavam como um enxame de vaga-lumes mortos. Como não consegui distinguir o mosquito no meio daquele carnaval sem cor, cada ponto preto era um olho meu: desconexo, incontrolável, perdido, confuso, dela.

Já não tinha intervalos suficientes para ter medo: estava atônico observando os olhinhos negros filmando, no mesmo segundo, múltiplos ângulos que convergiam no centro do quadro praticamente vazio.

A televisão havia se despido de quase todos os seus grãos, e agora era apenas uma tela branca silenciosa que produzia um brilho alvo, meio opaco e muito melancólico, que atravessava a névoa com dificuldade e dissipava-se, uniformemente, pelo resto do quarto transformando objetos em silhuetas semi-reconhecíveis.

Quando o último grão desprendeu-se da superfície de vidro da TV e juntou-se aos outros, foi surgindo vagarosamente na tela o rosto dela, é inútil tentar descrever sua beleza. A interferência que antes nos afastava e a prendia naquele mundinho paralelo, diminuto e incolor, finalmente havia desistido de nos atrapalhar e passou a contemplar ansiosa a cena: escreveu a história e sabia como terminaria. Os pontos esperavam para conhecer o pós-fim, daquela vez não existiria recomeço (ah, o sadismo... Conheces?).

Eu fiquei sentado com a costa apoiada na cabeceira da cama, braços cruzados, coração acalentado e com a visão fixa nas formas primorosas que construíam o rosto dela. Ela sorriu cintilante para mim de dentro da pintura e eu lhe respondi piscando o olho direito. Então eu já não precisava fazer coisa alguma.

Trinta minutos, ou talvez três horas, noites, tanto faz.

Foram poemas de amor, discursos existencialistas, muita euforia, palavrões, condenações, cansaço, lamentos de velhas paixões, saudades, nostalgias, conclusões a respeito da felicidade e da tristeza, declarações abafadas, desejos íntimos, constrangimentos, ideais de perfeição, verdades indiscutíveis, alegrias, ânsias e uns olhares molhados pela cumplicidade. Eu variei entre risos, perplexidade, admiração, prantos e ausência. Ela vomitava-se sobre a minha solidão e eu permanecia mudo. Era inútil falar qualquer coisa: ela conhecia, entendia, refletia e compartilhava cada uma das minhas palavras escritas, pronunciadas, perdidas ou abafadas, junto de todas as suas combinações possíveis ou improváveis... Ou talvez não, mas ela tem uma criatividade gigante e encantadora, acho que não teria dificuldade para me completar.

Enfim, após esvaziar-se inteiramente e me encher dela até chegar ao ponto de dilatar os meus mais remotos limites, depois de depositar-se em mim, a minha vida fundiu-se a dela numa existência só: fluído químico homogêneo que reagia no meio daquela circunstância metafísica inexplicável.

Além das fronteiras de mim, depois das fantasias, no avesso da poesia, perto do fim dos significados e das palavras não existia nada, fora o vácuo, mortificando-a naquele universo paralelo que a separava de mim por kilômetros longínquos dentro de tempos intermináveis. A única coisa que nos ligava eram suas palavras multicoloridas pela minha compreensão.

Quando ela finalmente calou-se, permaneceu com a feição fechada por uns segundos, estava séria e tinha os olhos tristes. Deitou seu lindo queixo na mão esquerda e confessou, num tom exausto e com a voz embargada, que a única coisa queria naquele momento era mandar o mundo e tudo que há dentro do mundo ir à merda. Então eu não me agüentei e, por fim, reagi com a intensidade que ela merecia: gargalhei. Eu ri um riso inocente, mais arrebatamento que brincadeira, mais desabafo que riso, mais lágrimas do que dentes, mais ternura que descontração, mais um “eu te amo” impronunciável.

Furei a bruma e aproximei-me da televisão num salto desajeitado, com a cara encharcada e entupido daquela felicidade imensa, acompanhei os traços singelos acariciando a tela com o indicador. “Que vá todos e tudo à merda”, falei-lhe radiante. Mas ela permaneceu estática com a mão apoiando a cabeça, o olhar desencontrado, produzindo aquela atmosfera infeliz e com os pensamentos... Não sei onde estavam... Realmente não sei... Claro, claro que sou tentado a acreditar que eles eram meus, mas... Como poderia definir algo no silêncio remoto? Silêncio sem formato, infinito, reservado, envolvente, meu silêncio roubado e desconhecido.

Repeti minha única fala três, seis, nove, vinte e sete, cinqüenta e quatro vezes. Repeti quando ainda tinha esperança, repeti quando não quis acreditar, repeti quando já sabia, repeti gritando, repeti chorando, repeti furioso, repeti conformado e repeti sem voz, depois eu apenas rezei em silêncio, sem repetir, pedindo com todas as forças para que ela soubesse da minha inútil presença distante.

A televisão desligou-se, a mágica do ambiente pereceu instantaneamente. O ventilador caiu no chão, a neblina desfez-se, e o enxame de vaga-lumes mortos bailou imponente antes de sumir. A interferência, enfim, havia ganhado e provado ser imbatível perante a mim, mostrou-me que imaginação não concretiza o impossível nem distorce o inevitável. O quarto foi engolido pela penumbra mórbida, e o meu filme morreu com o mosquito bêbado que não pôde com a sua solidão. Eu permaneci de joelhos, orando.

Num momento dúbio de lucidez, eu cheguei à conclusão de que escrever, fora milhares de outras sensações, qualidades e definições possíveis, é encarnar um deus que não existe: foi para esse deus que eu roguei e vendi minha alma naquela noite.

Pós-Fim.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Para a Menina.

Ah, menina, uma hora dessas quem sabe lês isso. Provavelmente irá gargalhar espalhafatosa com toda tua imponência, visível mesmo sem a tua presença. Vais rir por minutos sem mostrar os dentes; ainda não sei como são teus dentes e, nem de longe, sou do tipo que é dado a imaginar coisas impossíveis e que, muito provavelmente, nunca existirão. Farás apenas uma meia-lua gigante com teus lindos lábios rosados.

Sentirás vontade de me bater também: aquelas tapinhas sem força feitas de carinho, porque o que vou dizer talvez te deixe um pouco sem graça, um tanto quanto constrangida. Espero, sinceramente, que um dia eu esteja do teu lado para que tu me espanques até eu não conseguir sentir mais nada. Não, não descobriste agora que sou sadomasô. É que para mim seria uma honra inenarrável ter contato com tuas brancas, cálidas, pueris, singelas e delicadas mãos mesmo que isso me custasse à invalidez de algum membro.

Sei que a ironia já começou a escorrer, mas não posso evitar, ela vem direto da fonte: minha contradição combinada à consciência de que estou sendo ridículo. Vontade de escrever sinto constantemente, às vezes não sei sobre o que falar nem como direcionar isso sem parecer idiota, mas eu juro por tudo que é mais profano, que não fiz essa colocação para justificar coisa nenhuma: não estou escrevendo a ti por falta de opção melhor, ou de criatividade, ou boa-vontade, ou escassez de histórias, ou ausência de sentimentos , ou qualquer outra coisa relacionada às anteriores.

Escrevo a ti por um motivo infinitamente mais nobre e importante: és bonitinha, e coisas bonitinhas me inspiram. Possuis também minhas doces palavras porque tu roubaste meus pensamentos, menina - depois de uma dessa e uns três litros de álcool até eu casaria comigo. Não posso te explicar como isto funciona, teria que recorrer a cálculos físicos complicadíssimos e a filosofias de banheiro complexas demais para ti.

Não, não acho que sejas incapaz, muito pelo contrário: no meu julgamento dispensável e totalmente baseado em preconceitos bestas e impressões superficiais, eu percebi que tens lá os teus lapsos de lucidez intercalados entre uma expressão estúpida e a adesão de uma modinha idiota.

Aliás, deverias procurar um jeito melhor de expor tua imaculada personalidade. O que fazes além de ser nitidamente exagerado é um tanto quanto forçado. És diferente, não é necessário se igualar aos outros para ser o que já és. Não precisas provar coisa nenhuma a ninguém, menina. Parecer rebelde e descolada são atitudes típicas de pré-adolescentes imaturas que sofrem, sem perceber, crises de identidade enquanto idolatram a bandinha da vez e tentam encher o perfil do Orkut, quando não estão a entupir-se com umas besteirinhas recém-descobertas.

Vou te contar um segredo: uma grande parte do mundo é só um conjunto de incoerências temperado com pingos de hipocrisia & egocentrismo; as pessoas estão ocupadas demais satisfazendo sua ânsia por diversão barata e tentando promover elas mesma; distraídas com os próprios narizes não tem como olhar para o teu, por mais lindinho e empinado que ele seja.

Tua beleza é realmente radiante. Mais que isso: ela é inspiradora, e graças a ela escrevo palavras tão ternas e carinhosas a ti. Não mais me valerei de metáforas para te descrever, serei claro como tua casta pele: teus traços europeus misturados a tua aura mágica de ‘‘estou bêbada, sempre’’ te deixam incrivelmente bela. A aura de ‘‘estou bêbada, sempre’’ é tua maior graça, menina.

Tenho gosto exótico, eu sei. Mas sem ele eu não teria amor próprio.

Admiro-te atentamente tentando respirar tua beleza e quase sempre tenho a impressão de que estás num estado etílico ligeiramente elevado. Acho até que senti o cheiro forte do uísque vindo de ti e da tua garrafa enquanto tentava respirar a beleza numa foto tua.

Ah, escreves bem... Escreves mesmo. Vai ver é isso que te deixa bonitinha a ponto de me comover e escrever coisas tão açucaradas. A capacidade de expressão verbal é uma das coisas que mais aprecio em alguém: revela um conteúdo nosso que é oculto, de certa forma, é meio complicado chegar nele quando estamos no meio de todos. Revela uma consciência reprimida; gostei da tua consciência reprimida, menina. Ela não parece bêbada, tem um charme maior ainda: é ligeiramente perturbada. Não me entende mal, não falo pejorativamente, gosto da anormalidade: acho que aumentam teu sex-appeal esses leves desvios psiconeuróticos.

Acho-te encantadora, menina: inteligente, linda, sexy, agitada e bêbada.

Espero, de verdade, que uma hora dessas leias o que eu escrevi com tanto afeto; eu acho difícil, mas enfim. Não importa muito saber que é teu, só queria que captasses toda poesia transbordada de ti e moldada por mim.

Falaram-me uma vez que a tia Esperança é a última que morre e a primeira que ressuscita. E eu tenho muita fé de que algum conhecido em comum cruze nossos destinos e te mostre as tuas palavras; e é só, apenas e unicamente por isto, que compartilho com o mundo o que era para ser somente teu.

Ficou maior do que eu pensei que ficaria. Talvez eu continue mais tarde. Preciso te dizer de novo: Possuis também minhas doces palavras porque tu roubaste meus pensamentos. Eu pensei melhor em ti; percebi que nosso casamento não é coisa tão remota, o mais difícil é tu leres a frase.



Beijo na boca, Menina.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Quando você passa eu choro.




Odeio. Odeio com resignação, raiva, anseio, luta, força e coragem a alucinação de ver sua imagem indescritivelmente bela materializada fora dos meus tormentos; e a brisa suave quase imperceptível que me atinge como um vendaval formado pelo balanço do seu corpo delgado; e o raio descrito pelo seu olhar remoto, produto dos olhos castanhos claros que um dia eu toquei; e a melodia desafinada, canto da sua voz polida; e o barulho que me ensurdece ecoando do interior impiedoso do seu peito; e eu odeio cada pedaço de chão pisado por você; e a sua sombra fugaz refletida nos outros, projeção banal das curvas por onde andei; odeio o seu sorriso espontâneo e a sua alegria besta; e o ar que respiras; e a ausência de nós; e o tempo que morreu; e a vida que não ressuscitou; e a desgraça arrebatadora - você, que corroí e enfraquece; e a felicidade apanhada; odeio as palavras carregadas naquelas nossas velhas traduções infiéis tentado em vão revelar o que não sabíamos- e não sabemos... A gente escrevia nas folhas perfumadas daqueles papeizinhos fragilizados pela umidade das lágrimas chuviscadas - lembra como a gente chorava sem perceber?... ; e eu odeio o cheiro doce das acerolas; e as lembranças felizes sucumbidas pela crueldade do tempo que não salva nem o muito nem o pouco, você ou eu.
Eu te odeio infinitamente como parte maior que és de mim.


Com a outra parte - aquele resto pequeno e custoso - eu te amo, muito. Por você eu chorarei até não perceber de novo, meu amor.