Naquela noite, eu desfrutava da aprazível companhia de minha invencível solidão e da insônia que até hoje insiste em me perseguir querendo sabe deus o quê. No escuro eu ensopava de suor graças ao calor infernal, sentia um cheiro de éter velho e a brisa porca do ventilador atirava poeira contra as minhas narinas. A televisão estava sem sinal, eu me distraia com aquele zumbido irritante enquanto ela projetava faíscas pretas descontroladas no meu rosto. Deitado com o peito virado para o teto, mãos na nuca, olhos acompanhando as linhas paralelas feitas pelas madeiras do forro: pensava no dia repetido, no meu isolamento costumeiro, nas pessoas que perderam o gosto, em gente desconhecida, em hipocrisias, no sono, na história, até que finalmente cheguei a ela.
Daquela vez eu sorri quando me lembrei dela, sorri porque eu estava fazendo papel de idiota, pior: um idiota absolutamente consciente e que reprovava sua idiotice. Nessa madrugada tediosa quando eu recordava dela, só vinham à tona frases raras, um rosto angelical e uma voz de ninar. Era o resumo mais fantástico que eu já tinha feito de algo ou alguém.
Eu tinha palavras, traços e som: era o ator coadjuvante do meu próprio filme surrealista. Ela e eu no meio de uma plástica dissonante de letras, formas e barulho.
O óbvio era imprescindível para introduzir o que aconteceria posteriormente (esse é mais teu que meu):
Fechei os olhos por seis segundos para vaporizar a sujeira e o lixo do quarto numa fumaça pesada e palpável, era necessário criar uma atmosfera noir antes de encaixá-la, caso contrário, o resto não teria o menor sentido. Levantei as pálpebras e o quarto estava tomado por uma neblina sépia-desbotada, ela dançava valsa embalada pelos sopros do ventilador que volitava no breu produzindo mini-tufões enquanto eu admirava-o espantado. Ele zombava de mim com ciclones cínicos vindos de suas piruetas acrobáticas: o vento girando em sentido horário era o inverso do assombro que eu já havia previsto, mas tentava, em vão, atrasar. Susto é vento violento.
Quem gravava a cena, sem cortes, era uma micro-câmera posicionada nas costas de um mosquito bêbado que vagava pelo ambiente transpassando a luz vinda da televisão, ela nesse momento cuspia pontos pretos minúsculos para todos os lados que, depois, voavam como um enxame de vaga-lumes mortos. Como não consegui distinguir o mosquito no meio daquele carnaval sem cor, cada ponto preto era um olho meu: desconexo, incontrolável, perdido, confuso, dela.
Já não tinha intervalos suficientes para ter medo: estava atônico observando os olhinhos negros filmando, no mesmo segundo, múltiplos ângulos que convergiam no centro do quadro praticamente vazio.
A televisão havia se despido de quase todos os seus grãos, e agora era apenas uma tela branca silenciosa que produzia um brilho alvo, meio opaco e muito melancólico, que atravessava a névoa com dificuldade e dissipava-se, uniformemente, pelo resto do quarto transformando objetos em silhuetas semi-reconhecíveis.
Quando o último grão desprendeu-se da superfície de vidro da TV e juntou-se aos outros, foi surgindo vagarosamente na tela o rosto dela, é inútil tentar descrever sua beleza. A interferência que antes nos afastava e a prendia naquele mundinho paralelo, diminuto e incolor, finalmente havia desistido de nos atrapalhar e passou a contemplar ansiosa a cena: escreveu a história e sabia como terminaria. Os pontos esperavam para conhecer o pós-fim, daquela vez não existiria recomeço (ah, o sadismo... Conheces?).
Eu fiquei sentado com a costa apoiada na cabeceira da cama, braços cruzados, coração acalentado e com a visão fixa nas formas primorosas que construíam o rosto dela. Ela sorriu cintilante para mim de dentro da pintura e eu lhe respondi piscando o olho direito. Então eu já não precisava fazer coisa alguma.
Trinta minutos, ou talvez três horas, noites, tanto faz.
Foram poemas de amor, discursos existencialistas, muita euforia, palavrões, condenações, cansaço, lamentos de velhas paixões, saudades, nostalgias, conclusões a respeito da felicidade e da tristeza, declarações abafadas, desejos íntimos, constrangimentos, ideais de perfeição, verdades indiscutíveis, alegrias, ânsias e uns olhares molhados pela cumplicidade. Eu variei entre risos, perplexidade, admiração, prantos e ausência. Ela vomitava-se sobre a minha solidão e eu permanecia mudo. Era inútil falar qualquer coisa: ela conhecia, entendia, refletia e compartilhava cada uma das minhas palavras escritas, pronunciadas, perdidas ou abafadas, junto de todas as suas combinações possíveis ou improváveis... Ou talvez não, mas ela tem uma criatividade gigante e encantadora, acho que não teria dificuldade para me completar.
Enfim, após esvaziar-se inteiramente e me encher dela até chegar ao ponto de dilatar os meus mais remotos limites, depois de depositar-se em mim, a minha vida fundiu-se a dela numa existência só: fluído químico homogêneo que reagia no meio daquela circunstância metafísica inexplicável.
Além das fronteiras de mim, depois das fantasias, no avesso da poesia, perto do fim dos significados e das palavras não existia nada, fora o vácuo, mortificando-a naquele universo paralelo que a separava de mim por kilômetros longínquos dentro de tempos intermináveis. A única coisa que nos ligava eram suas palavras multicoloridas pela minha compreensão.
Quando ela finalmente calou-se, permaneceu com a feição fechada por uns segundos, estava séria e tinha os olhos tristes. Deitou seu lindo queixo na mão esquerda e confessou, num tom exausto e com a voz embargada, que a única coisa queria naquele momento era mandar o mundo e tudo que há dentro do mundo ir à merda. Então eu não me agüentei e, por fim, reagi com a intensidade que ela merecia: gargalhei. Eu ri um riso inocente, mais arrebatamento que brincadeira, mais desabafo que riso, mais lágrimas do que dentes, mais ternura que descontração, mais um “eu te amo” impronunciável.
Furei a bruma e aproximei-me da televisão num salto desajeitado, com a cara encharcada e entupido daquela felicidade imensa, acompanhei os traços singelos acariciando a tela com o indicador. “Que vá todos e tudo à merda”, falei-lhe radiante. Mas ela permaneceu estática com a mão apoiando a cabeça, o olhar desencontrado, produzindo aquela atmosfera infeliz e com os pensamentos... Não sei onde estavam... Realmente não sei... Claro, claro que sou tentado a acreditar que eles eram meus, mas... Como poderia definir algo no silêncio remoto? Silêncio sem formato, infinito, reservado, envolvente, meu silêncio roubado e desconhecido.
Repeti minha única fala três, seis, nove, vinte e sete, cinqüenta e quatro vezes. Repeti quando ainda tinha esperança, repeti quando não quis acreditar, repeti quando já sabia, repeti gritando, repeti chorando, repeti furioso, repeti conformado e repeti sem voz, depois eu apenas rezei em silêncio, sem repetir, pedindo com todas as forças para que ela soubesse da minha inútil presença distante.
A televisão desligou-se, a mágica do ambiente pereceu instantaneamente. O ventilador caiu no chão, a neblina desfez-se, e o enxame de vaga-lumes mortos bailou imponente antes de sumir. A interferência, enfim, havia ganhado e provado ser imbatível perante a mim, mostrou-me que imaginação não concretiza o impossível nem distorce o inevitável. O quarto foi engolido pela penumbra mórbida, e o meu filme morreu com o mosquito bêbado que não pôde com a sua solidão. Eu permaneci de joelhos, orando.
Num momento dúbio de lucidez, eu cheguei à conclusão de que escrever, fora milhares de outras sensações, qualidades e definições possíveis, é encarnar um deus que não existe: foi para esse deus que eu roguei e vendi minha alma naquela noite.
Pós-Fim.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
domingo, 24 de agosto de 2008
Caleidoscópio surreal girando na velocidade do som feito pelo Portishead.
De longe, com a respiração controlada, os olhos inertes, a boca seca, os pensamentos soltos e uma frieza desumana, eu analisava-a fixamente. Oito metros, quinze passos em linha reta.
Nota memória: Não sei o que estou fazendo.
Agora eu sou um caleidoscópio surreal girando na velocidade do som feito pelo Portishead.
Criticar. Estava pensando nisso esses dias: iria encaixar alguém, analisar, realçar defeitos, falar do que não gosto, iniciar um debate moral idiota ou uma discussão de valores totalmente dispensáveis.
Olhava-a e pensava nela simplesmente porque não havia outra coisa a fazer. Porque eu estava só com as minhas palavras, e elas voam sem rumo dentro de mim se chocando uma contra as outras até caírem no abismo do meu esquecimento. Há partes de mim que nem eu alcanço.
Porque eu não sei mais o que fazer, por isso junto as letras nessas frases soltas, é difícil entender pois não era a minha intenção inicial fazer isso.
Eu perdi a linha, não tenho referencial. Eu só tenho um ponto: a liberdade.
O que não me agrada é a idéia de permanecer afastado de mim. Se eu me jogo assim, sem medo, é porque eu sou covarde demais pra permanecer à beira do abismo.
Lá não importa onde é: o lugar conta menos, o espaço é só um detalhe técnico. O que é importante é o que eu escrevi lá, e o que eu escrevo não é matéria para ocupar espaço. Vou sempre estar onde estou, e onde eu estiver minhas palavras estarão comigo: porque eu sou palavras, significantes, verbos e nomes. Já disse isso: duas ou cinco vezes, e eu vou repetir até eu me convencer completamente.
Porque o que eu escrevo é energia: pura, limpa, suja, forte, sutil, imperceptível, destruidora.
Porque eu não amo.
Pode ser qualquer uma, e em nome de todas, eu espero.
Ela perguntaria:
- Por que estás fazendo isso?
Eu lhe diria:
- Nada. Tu és só um molde.
- Estás esculpindo o quê?
- Isso.
- Precisa do meu rosto para iniciar um pseudo-diálogo que nada mais é do que um monólogo para tu satisfazer tua necessidade básica?
- Não, teu rosto é só uma desculpa: um argumento para eu te mascarar de mim.
- No fundo, querias que eu fosse tu.
- És viciada como eu, faria o mesmo na minha situação.
- Qual tua situação?
- Essa.
Preciso de alguém que escreva comigo, por mim. Eu estou cheio demais de mim, tão cheio que não consigo sequer definir uma forma.
- Quer que eu diga o quê?
- Melhor a minha mudez e o teu rosto. Dane-se a poesia das palavras, não dá pra compartilhar o que transpira de ti.
Como um muro branco: posso te pintar, ignorar, pichar, pular ou derrubar.
Sou um vagabundo miserável.
Eu não te temo, tu me destróis e eu me sinto radiante em cacos: multiplicado sobra mais espaço pra ti.
Quinze metros, oito passos em linha reta.
Continuas sendo a minha ilusão mais doce, meu melhor engano: mesmo depois de te desfazer, do mesmo jeito que eu te inventei, continuas como parte de mim. Sabes disso, no fundo sabes.
Eu te quero acima de tudo, e tudo não faz falta se estiveres comigo. Eu quero que o tudo se dane e o pouco também. Que reste apenas nós.
Porque, um dia, eu coloco um ponto em seguida nessa história absurda que eu comecei. A partir desse dia eu te terei e vou te sentir com toda essa droga desconhecida que eu tenho dentro de mim.
Eu vou te amar com toda essa intensidade mesmo tendo também a certeza absoluta de que terei uma depressão proporcional nos dias seguintes.
É invevitável: o tempo é um rolo compressor impiedoso que esmaga (e renova) os corações inquietos daqueles que pensam mais do que podem.
Deus deve ser tempo.
O que eu mais queria é saber como reages pra eu finalmente sentir, com convicção e força, que estou vivendo.
Não sinto mais nada além de indiferença por ti. Tu és só um pretexto insignificante, que fique claro.
Tu estás feliz, eu estou apático. Não que isso me incomode, mas é que não mereces essas merdas: ninguém que esteja bem merece a angústia do outro.
Não é só pra ti, é pra todos.
Foda-se. Eu me sinto muito melhor agora. Às vezes eu preciso abrir um buraco em mim pra me deixar vazar.
Não sou egoísta, por isso peço perdão a quem lê. Peço compreensão também, eu acho que esse é só o primeiro de uma série de retalhos.
O eco dessas palavras não me deixa dormir.
Eu ando muito, sem nexo nenhum.
Nota memória: Não sei o que estou fazendo.
Agora eu sou um caleidoscópio surreal girando na velocidade do som feito pelo Portishead.
Criticar. Estava pensando nisso esses dias: iria encaixar alguém, analisar, realçar defeitos, falar do que não gosto, iniciar um debate moral idiota ou uma discussão de valores totalmente dispensáveis.
Olhava-a e pensava nela simplesmente porque não havia outra coisa a fazer. Porque eu estava só com as minhas palavras, e elas voam sem rumo dentro de mim se chocando uma contra as outras até caírem no abismo do meu esquecimento. Há partes de mim que nem eu alcanço.
Porque eu não sei mais o que fazer, por isso junto as letras nessas frases soltas, é difícil entender pois não era a minha intenção inicial fazer isso.
Eu perdi a linha, não tenho referencial. Eu só tenho um ponto: a liberdade.
O que não me agrada é a idéia de permanecer afastado de mim. Se eu me jogo assim, sem medo, é porque eu sou covarde demais pra permanecer à beira do abismo.
Lá não importa onde é: o lugar conta menos, o espaço é só um detalhe técnico. O que é importante é o que eu escrevi lá, e o que eu escrevo não é matéria para ocupar espaço. Vou sempre estar onde estou, e onde eu estiver minhas palavras estarão comigo: porque eu sou palavras, significantes, verbos e nomes. Já disse isso: duas ou cinco vezes, e eu vou repetir até eu me convencer completamente.
Porque o que eu escrevo é energia: pura, limpa, suja, forte, sutil, imperceptível, destruidora.
Porque eu não amo.
Pode ser qualquer uma, e em nome de todas, eu espero.
Ela perguntaria:
- Por que estás fazendo isso?
Eu lhe diria:
- Nada. Tu és só um molde.
- Estás esculpindo o quê?
- Isso.
- Precisa do meu rosto para iniciar um pseudo-diálogo que nada mais é do que um monólogo para tu satisfazer tua necessidade básica?
- Não, teu rosto é só uma desculpa: um argumento para eu te mascarar de mim.
- No fundo, querias que eu fosse tu.
- És viciada como eu, faria o mesmo na minha situação.
- Qual tua situação?
- Essa.
Preciso de alguém que escreva comigo, por mim. Eu estou cheio demais de mim, tão cheio que não consigo sequer definir uma forma.
- Quer que eu diga o quê?
- Melhor a minha mudez e o teu rosto. Dane-se a poesia das palavras, não dá pra compartilhar o que transpira de ti.
Como um muro branco: posso te pintar, ignorar, pichar, pular ou derrubar.
Sou um vagabundo miserável.
Eu não te temo, tu me destróis e eu me sinto radiante em cacos: multiplicado sobra mais espaço pra ti.
Quinze metros, oito passos em linha reta.
Continuas sendo a minha ilusão mais doce, meu melhor engano: mesmo depois de te desfazer, do mesmo jeito que eu te inventei, continuas como parte de mim. Sabes disso, no fundo sabes.
Eu te quero acima de tudo, e tudo não faz falta se estiveres comigo. Eu quero que o tudo se dane e o pouco também. Que reste apenas nós.
Porque, um dia, eu coloco um ponto em seguida nessa história absurda que eu comecei. A partir desse dia eu te terei e vou te sentir com toda essa droga desconhecida que eu tenho dentro de mim.
Eu vou te amar com toda essa intensidade mesmo tendo também a certeza absoluta de que terei uma depressão proporcional nos dias seguintes.
É invevitável: o tempo é um rolo compressor impiedoso que esmaga (e renova) os corações inquietos daqueles que pensam mais do que podem.
Deus deve ser tempo.
O que eu mais queria é saber como reages pra eu finalmente sentir, com convicção e força, que estou vivendo.
Não sinto mais nada além de indiferença por ti. Tu és só um pretexto insignificante, que fique claro.
Tu estás feliz, eu estou apático. Não que isso me incomode, mas é que não mereces essas merdas: ninguém que esteja bem merece a angústia do outro.
Não é só pra ti, é pra todos.
Foda-se. Eu me sinto muito melhor agora. Às vezes eu preciso abrir um buraco em mim pra me deixar vazar.
Não sou egoísta, por isso peço perdão a quem lê. Peço compreensão também, eu acho que esse é só o primeiro de uma série de retalhos.
O eco dessas palavras não me deixa dormir.
Eu ando muito, sem nexo nenhum.
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Eterna Ânsia.
Dedico a ti: metáforas grosseiras; linhas tortas; delírios ilimitados; mentiras lindas; horas vãs; segredos íntimos; coreografias exaustivamente ensaiadas; torturas ternas; bobagens divertidas; dramas líricos; cenas de ação; diálogos metalingüísticos; ócios enlouquecedores; sorrisos falsos; verbos de ligação; esperas intermináveis; fraquezas explícitas; enganos anestésicos; rimas de merda; dias sem início ou fim; lágrimas raras; contradições justificáveis; mensagens subliminares; desesperos secretos; as cicatrizes imortais; alegrias medíocres; perfumes doces; batidas fortes; a parte maior do todo; o resquício de vida; os desejos reprimidos; as cores mais vivas; a melancolia amiga; os votos falsos; as escolhas aleatórias; a saudade do que nunca existiu; as ironias idiotas; o cheiro de chuva das madrugadas; os tons de cinza; a franqueza desnecessária; o medo do desconhecido; os erros imperdoáveis; a esperança burra; a mudez opcional; o barulho interno; as atitudes infantis; as condenações preconceituosas; os pensamentos que não são teus; as abstrações surreais; o conhecimento mais miserável; os exageros mais escrotos; a estrada de palavras embaralhadas - mais caminhos que fins.
A ti que é alimento, que me faz sobreviver, me machuca, me desilude, me fere, e que me lembra; a ti, que apesar de teres ganhado algumas belas formas, não tem nome; a ti que não tem lugar no espaço-tempo; a ti que é o que mais quero, apesar de desconhecer-te; a ti que me ignora; a ti que eu clamo: dedico a ti, da pessoa mais covarde de coração mais estúpido, a mais sincera poesia.
A ti que é alimento, que me faz sobreviver, me machuca, me desilude, me fere, e que me lembra; a ti, que apesar de teres ganhado algumas belas formas, não tem nome; a ti que não tem lugar no espaço-tempo; a ti que é o que mais quero, apesar de desconhecer-te; a ti que me ignora; a ti que eu clamo: dedico a ti, da pessoa mais covarde de coração mais estúpido, a mais sincera poesia.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Para a Menina.
Ah, menina, uma hora dessas quem sabe lês isso. Provavelmente irá gargalhar espalhafatosa com toda tua imponência, visível mesmo sem a tua presença. Vais rir por minutos sem mostrar os dentes; ainda não sei como são teus dentes e, nem de longe, sou do tipo que é dado a imaginar coisas impossíveis e que, muito provavelmente, nunca existirão. Farás apenas uma meia-lua gigante com teus lindos lábios rosados.
Sentirás vontade de me bater também: aquelas tapinhas sem força feitas de carinho, porque o que vou dizer talvez te deixe um pouco sem graça, um tanto quanto constrangida. Espero, sinceramente, que um dia eu esteja do teu lado para que tu me espanques até eu não conseguir sentir mais nada. Não, não descobriste agora que sou sadomasô. É que para mim seria uma honra inenarrável ter contato com tuas brancas, cálidas, pueris, singelas e delicadas mãos mesmo que isso me custasse à invalidez de algum membro.
Sei que a ironia já começou a escorrer, mas não posso evitar, ela vem direto da fonte: minha contradição combinada à consciência de que estou sendo ridículo. Vontade de escrever sinto constantemente, às vezes não sei sobre o que falar nem como direcionar isso sem parecer idiota, mas eu juro por tudo que é mais profano, que não fiz essa colocação para justificar coisa nenhuma: não estou escrevendo a ti por falta de opção melhor, ou de criatividade, ou boa-vontade, ou escassez de histórias, ou ausência de sentimentos , ou qualquer outra coisa relacionada às anteriores.
Escrevo a ti por um motivo infinitamente mais nobre e importante: és bonitinha, e coisas bonitinhas me inspiram. Possuis também minhas doces palavras porque tu roubaste meus pensamentos, menina - depois de uma dessa e uns três litros de álcool até eu casaria comigo. Não posso te explicar como isto funciona, teria que recorrer a cálculos físicos complicadíssimos e a filosofias de banheiro complexas demais para ti.
Não, não acho que sejas incapaz, muito pelo contrário: no meu julgamento dispensável e totalmente baseado em preconceitos bestas e impressões superficiais, eu percebi que tens lá os teus lapsos de lucidez intercalados entre uma expressão estúpida e a adesão de uma modinha idiota.
Aliás, deverias procurar um jeito melhor de expor tua imaculada personalidade. O que fazes além de ser nitidamente exagerado é um tanto quanto forçado. És diferente, não é necessário se igualar aos outros para ser o que já és. Não precisas provar coisa nenhuma a ninguém, menina. Parecer rebelde e descolada são atitudes típicas de pré-adolescentes imaturas que sofrem, sem perceber, crises de identidade enquanto idolatram a bandinha da vez e tentam encher o perfil do Orkut, quando não estão a entupir-se com umas besteirinhas recém-descobertas.
Vou te contar um segredo: uma grande parte do mundo é só um conjunto de incoerências temperado com pingos de hipocrisia & egocentrismo; as pessoas estão ocupadas demais satisfazendo sua ânsia por diversão barata e tentando promover elas mesma; distraídas com os próprios narizes não tem como olhar para o teu, por mais lindinho e empinado que ele seja.
Tua beleza é realmente radiante. Mais que isso: ela é inspiradora, e graças a ela escrevo palavras tão ternas e carinhosas a ti. Não mais me valerei de metáforas para te descrever, serei claro como tua casta pele: teus traços europeus misturados a tua aura mágica de ‘‘estou bêbada, sempre’’ te deixam incrivelmente bela. A aura de ‘‘estou bêbada, sempre’’ é tua maior graça, menina.
Tenho gosto exótico, eu sei. Mas sem ele eu não teria amor próprio.
Admiro-te atentamente tentando respirar tua beleza e quase sempre tenho a impressão de que estás num estado etílico ligeiramente elevado. Acho até que senti o cheiro forte do uísque vindo de ti e da tua garrafa enquanto tentava respirar a beleza numa foto tua.
Ah, escreves bem... Escreves mesmo. Vai ver é isso que te deixa bonitinha a ponto de me comover e escrever coisas tão açucaradas. A capacidade de expressão verbal é uma das coisas que mais aprecio em alguém: revela um conteúdo nosso que é oculto, de certa forma, é meio complicado chegar nele quando estamos no meio de todos. Revela uma consciência reprimida; gostei da tua consciência reprimida, menina. Ela não parece bêbada, tem um charme maior ainda: é ligeiramente perturbada. Não me entende mal, não falo pejorativamente, gosto da anormalidade: acho que aumentam teu sex-appeal esses leves desvios psiconeuróticos.
Acho-te encantadora, menina: inteligente, linda, sexy, agitada e bêbada.
Espero, de verdade, que uma hora dessas leias o que eu escrevi com tanto afeto; eu acho difícil, mas enfim. Não importa muito saber que é teu, só queria que captasses toda poesia transbordada de ti e moldada por mim.
Falaram-me uma vez que a tia Esperança é a última que morre e a primeira que ressuscita. E eu tenho muita fé de que algum conhecido em comum cruze nossos destinos e te mostre as tuas palavras; e é só, apenas e unicamente por isto, que compartilho com o mundo o que era para ser somente teu.
Ficou maior do que eu pensei que ficaria. Talvez eu continue mais tarde. Preciso te dizer de novo: Possuis também minhas doces palavras porque tu roubaste meus pensamentos. Eu pensei melhor em ti; percebi que nosso casamento não é coisa tão remota, o mais difícil é tu leres a frase.
Beijo na boca, Menina.
Sentirás vontade de me bater também: aquelas tapinhas sem força feitas de carinho, porque o que vou dizer talvez te deixe um pouco sem graça, um tanto quanto constrangida. Espero, sinceramente, que um dia eu esteja do teu lado para que tu me espanques até eu não conseguir sentir mais nada. Não, não descobriste agora que sou sadomasô. É que para mim seria uma honra inenarrável ter contato com tuas brancas, cálidas, pueris, singelas e delicadas mãos mesmo que isso me custasse à invalidez de algum membro.
Sei que a ironia já começou a escorrer, mas não posso evitar, ela vem direto da fonte: minha contradição combinada à consciência de que estou sendo ridículo. Vontade de escrever sinto constantemente, às vezes não sei sobre o que falar nem como direcionar isso sem parecer idiota, mas eu juro por tudo que é mais profano, que não fiz essa colocação para justificar coisa nenhuma: não estou escrevendo a ti por falta de opção melhor, ou de criatividade, ou boa-vontade, ou escassez de histórias, ou ausência de sentimentos , ou qualquer outra coisa relacionada às anteriores.
Escrevo a ti por um motivo infinitamente mais nobre e importante: és bonitinha, e coisas bonitinhas me inspiram. Possuis também minhas doces palavras porque tu roubaste meus pensamentos, menina - depois de uma dessa e uns três litros de álcool até eu casaria comigo. Não posso te explicar como isto funciona, teria que recorrer a cálculos físicos complicadíssimos e a filosofias de banheiro complexas demais para ti.
Não, não acho que sejas incapaz, muito pelo contrário: no meu julgamento dispensável e totalmente baseado em preconceitos bestas e impressões superficiais, eu percebi que tens lá os teus lapsos de lucidez intercalados entre uma expressão estúpida e a adesão de uma modinha idiota.
Aliás, deverias procurar um jeito melhor de expor tua imaculada personalidade. O que fazes além de ser nitidamente exagerado é um tanto quanto forçado. És diferente, não é necessário se igualar aos outros para ser o que já és. Não precisas provar coisa nenhuma a ninguém, menina. Parecer rebelde e descolada são atitudes típicas de pré-adolescentes imaturas que sofrem, sem perceber, crises de identidade enquanto idolatram a bandinha da vez e tentam encher o perfil do Orkut, quando não estão a entupir-se com umas besteirinhas recém-descobertas.
Vou te contar um segredo: uma grande parte do mundo é só um conjunto de incoerências temperado com pingos de hipocrisia & egocentrismo; as pessoas estão ocupadas demais satisfazendo sua ânsia por diversão barata e tentando promover elas mesma; distraídas com os próprios narizes não tem como olhar para o teu, por mais lindinho e empinado que ele seja.
Tua beleza é realmente radiante. Mais que isso: ela é inspiradora, e graças a ela escrevo palavras tão ternas e carinhosas a ti. Não mais me valerei de metáforas para te descrever, serei claro como tua casta pele: teus traços europeus misturados a tua aura mágica de ‘‘estou bêbada, sempre’’ te deixam incrivelmente bela. A aura de ‘‘estou bêbada, sempre’’ é tua maior graça, menina.
Tenho gosto exótico, eu sei. Mas sem ele eu não teria amor próprio.
Admiro-te atentamente tentando respirar tua beleza e quase sempre tenho a impressão de que estás num estado etílico ligeiramente elevado. Acho até que senti o cheiro forte do uísque vindo de ti e da tua garrafa enquanto tentava respirar a beleza numa foto tua.
Ah, escreves bem... Escreves mesmo. Vai ver é isso que te deixa bonitinha a ponto de me comover e escrever coisas tão açucaradas. A capacidade de expressão verbal é uma das coisas que mais aprecio em alguém: revela um conteúdo nosso que é oculto, de certa forma, é meio complicado chegar nele quando estamos no meio de todos. Revela uma consciência reprimida; gostei da tua consciência reprimida, menina. Ela não parece bêbada, tem um charme maior ainda: é ligeiramente perturbada. Não me entende mal, não falo pejorativamente, gosto da anormalidade: acho que aumentam teu sex-appeal esses leves desvios psiconeuróticos.
Acho-te encantadora, menina: inteligente, linda, sexy, agitada e bêbada.
Espero, de verdade, que uma hora dessas leias o que eu escrevi com tanto afeto; eu acho difícil, mas enfim. Não importa muito saber que é teu, só queria que captasses toda poesia transbordada de ti e moldada por mim.
Falaram-me uma vez que a tia Esperança é a última que morre e a primeira que ressuscita. E eu tenho muita fé de que algum conhecido em comum cruze nossos destinos e te mostre as tuas palavras; e é só, apenas e unicamente por isto, que compartilho com o mundo o que era para ser somente teu.
Ficou maior do que eu pensei que ficaria. Talvez eu continue mais tarde. Preciso te dizer de novo: Possuis também minhas doces palavras porque tu roubaste meus pensamentos. Eu pensei melhor em ti; percebi que nosso casamento não é coisa tão remota, o mais difícil é tu leres a frase.
Beijo na boca, Menina.
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