
Odeio. Odeio com resignação, raiva, anseio, luta, força e coragem a alucinação de ver sua imagem indescritivelmente bela materializada fora dos meus tormentos; e a brisa suave quase imperceptível que me atinge como um vendaval formado pelo balanço do seu corpo delgado; e o raio descrito pelo seu olhar remoto, produto dos olhos castanhos claros que um dia eu toquei; e a melodia desafinada, canto da sua voz polida; e o barulho que me ensurdece ecoando do interior impiedoso do seu peito; e eu odeio cada pedaço de chão pisado por você; e a sua sombra fugaz refletida nos outros, projeção banal das curvas por onde andei; odeio o seu sorriso espontâneo e a sua alegria besta; e o ar que respiras; e a ausência de nós; e o tempo que morreu; e a vida que não ressuscitou; e a desgraça arrebatadora - você, que corroí e enfraquece; e a felicidade apanhada; odeio as palavras carregadas naquelas nossas velhas traduções infiéis tentado em vão revelar o que não sabíamos- e não sabemos... A gente escrevia nas folhas perfumadas daqueles papeizinhos fragilizados pela umidade das lágrimas chuviscadas - lembra como a gente chorava sem perceber?... ; e eu odeio o cheiro doce das acerolas; e as lembranças felizes sucumbidas pela crueldade do tempo que não salva nem o muito nem o pouco, você ou eu.
Eu te odeio infinitamente como parte maior que és de mim.
Eu te odeio infinitamente como parte maior que és de mim.
Com a outra parte - aquele resto pequeno e custoso - eu te amo, muito. Por você eu chorarei até não perceber de novo, meu amor.