sábado, 30 de maio de 2015

Das Coisas Ternas e Indizíveis.

É complicadíssimo falar de amor. O amor é irmão do brega, da afetação e da pieguice. Queria ser lírico pra ser romântico sem parecer babaca. Queria falar "eu te amo" em sânscrito para a expressão soar menos banal. Queria ser Tom/Vinícius/Chico para amar cantando e cantando ser amado. Mas só sei ordenar palavras repetidas em versinhos sem rima de pé-quebrado. O amor não cabe em poemas clichês, presentes sinceros, beijos ardentes, nem em corações de brinquedo ou espíritos apaixonados. Ele é maior que eu e tu. Ele apenas se insinua entre abraços apertados e afagos ternos. Ele está confuso nos gestos, nos atos, nos pronomes e nas palavras vãs. É preciso, todos os dias, reverenciar o amor. Eu ofereço uma poesia prolixa que se perdeu no meio do caminho, minha carne e a admiração abestada às tuas fotos. O amor é cônjuge dessas coisas banais, como a leve saliva que te deixo beijando a testa e o modo carinhoso com que tu cortas minhas unhas.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Conto de Fadas.

De lado, com a cabeça mergulhada no vão que separa a cama da parede, desfiz o mundo. Era uma noite quente de verão, dessas em que os carapanãs atacam sem pena e ventiladores parecem objetos inúteis. Cheirando o ar frio que subia do chão, eu me coloquei a tecer enredos mentais enquanto o suor brotava indiferente nos meus poros. Estava sonolento e cansado, o calor era nauseabundo. Decidido a criar uma solução prática pra minha insônia, porém, dei a imaginar desvarios. Com a força relutante do pensamento, quebrei certezas, desvirtuei lógicas, intui improbabilidades, degenerei a razão e fiz um pacto com o absurdo. Passeei por campos empestados de unicórnios onde nereidas se banhavam em riachos e elfos tocavam arpa sob as árvores. Hobbits corriam atrás de hipogrifos selvagens e fadas se ofereciam sem pudor a ogros e bardos, ninguém as julgava. Gnomos e duendes disputavam torneios de pesca e minotauros faziam as vezes de juízes. Princesas pós-modernas tocavam em bandas rock e os mais belos príncipes encantados lavavam pratos e cozinhavam javalis. Havia uma alegria pulsante na floresta que inventei e tudo era sereno e honesto. Na ânsia de compensar frustrações, criei uma realidade efêmera onde a magia era Lei e a ordem era, precisamente, mandá-la pra puta que o pariu. Os seres do meu reino encantado viveram contentes e satisfeitos até, enfim, eu pegar no sono, matar a todos e reservá-los um memorial meia boca que não faz jus a sua grandeza. Mesmo no desvario, a vida real sempre dá um jeito de nos jogar cara que ela impera, que a verdade do que é concreto, mesmo dúbia, ainda prevalece.