quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Eduardo e Alice.

*Escrito em dueto com Camila Regis, num presente ausente.



Eduardo senta apoiando a cabeça na mão esquerda, sua aparência inteira entrega as noites em claro e a falta de horas para dormir durante o dia: desleixo, cara amassada, olhos fundos, barba por fazer, os cabelos despenteados propositalmente, a camisa social preta um tanto amarrotada e o olhar blasé fixo num ponto uns metros além do casal da próxima mesa. Mexe o gelo do copo com a ponta do indicador direito e repara numa loira sentada três mesas à frente. Ela gargalha espalhafatosa e fala alto com a amiga sentada ao lado, algo relacionado a futebol: usa uma saia branca exibindo os joelhos rosados e uma blusa cor-de-rosa que salienta o volume dos seios, vez ou outra olha para Eduardo e sorri, sem mostrar os dentes, insinuando-se descaradamente com jeito de puta oferecendo serviço.
Quando Eduardo leva o copo à boca, percebe que a coca-cola já é mais água que refrigerante, então ele sorri e avalia o custo benefício: leva em consideração a vestimenta demasiadamente provocante, a postura efusiva, a atitude explícita que pouco lhe instigou, e o tema abordado na conversa para pré-julgar a moça e concluir que uma conversa com ela não deve valer o prazer de um copo de coca-cola com gelo, se isso, é claro, não lhe render mais que alguns beijos no início da madrugada. Tira o celular do bolso, 20:40. “Atrasada, como sempre”.

Alice tem a boca um pouco mais rosada que o normal, algo que poderia indicar um longo beijo dado previamente, mas não era isso: só o que constava ali era o hábito de fumar iniciado numa pré-adolescência rebelde, há algum tempo atrás. Andando em passos largos, meio de galope, sente vontade de satisfazer o vício naquele instante, porém, só tem dois braços, ambos ocupados: um com uma pasta gigante de papéis a serem lidos, o outro com o guarda chuva que a protege da garoa irritante pinicando o peito dos pés. Calça sapatos de gente importante, quase pretensioso demais, até mesmo para ela: bicos redondos e um salto alto que valoriza a postura.
Parada em frente à faixa de pedestre, paralela a um semáforo que indica a passagem favorável dos carros, ela sente um arrepio quando o vento sul sopra em suas pernas desnudas. Frio, está frio. Com a visão periférica percebe que está sendo observada: ao seu lado um homem, desses clichês, infla o peito tentando chamar atenção. Dos fones o som sai muito mais alto que o aceitável para manter a saúde auditiva de qualquer um, percebe-se, pelas batidas irritantes, que a música que entope os ouvidos dele é algum pagode: usa regata num tempo inapropriado, boné, um colar de coco e está suado. Provavelmente, tinha acabado de sair da academia, é esteticamente agradável, atraente. Dá um sorriso cafajeste à Alice, esperando resposta: ela pensa realmente em retribuir, contudo, ele usa regata e, para ela, ninguém que usa regata é confiável, além do mais, escuta pagode, é exibicionista, deve ter um ego enorme e um pinto pequeno: não compensa, ignora-o.
O semáforo, finalmente, se fecha e Alice pode atravessar até seu destino do outro lado, um bar. Abre a porta, um ar azulado, não o avista. Entretanto, uma loira de saia branca gesticulando para todos os lados chama sua atenção: para Alice, somente atrizes de filme pornô e enfermeiras usam saias brancas. “Piranha, com certeza”.


Eduardo vê Alice na entrada, mas não faz sinal algum para atentá-la: ele ri divertindo-se com a apreensão dela passando os olhos por todas as mesas, menos a dele, enquanto sua expressão vai transformando-se revelando algo parecido com ira profunda. Há dias eles não se vêem, atarefados demais com coisas desimportantes, e Eduardo aproveita o momento para admirá-la com calma antes que Alice comece a vomitar palavras em cima dele, o que, possivelmente, lhe renderá boas gargalhadas e, talvez, um futuro melhor do que aquele com a loira de saia branca.
Cabelos castanhos levemente ondulados caindo por cima do lenço azul que protege o pescoço, traços delicados, olhos escuros impacientes, boca carnuda, camisa de lã branca escondendo os braços pálidos e o sorriso de Eduardo ao ver expostos os joelhos de Alice, sempre um pouco inclinados para dentro. Eles já descobriram e redescobriram um o corpo do outros muitas vezes, contudo, Eduardo não cansa de olhar para ela, investigando cada centímetro seu. Para ele, ela tem uma beleza mais única e particular do que o encanto de qualquer outra mulher com quem já tenha estado. “Algo de lirismo pungente”: ele costumava dizer isso, num tom meio irônico, antes de finalmente dormirem, continuaria repetindo até convencê-la, não fossem tantos os “cala bocas” acompanhados de tapas ardidos.
Alice, enfim, enxerga Eduardo, rindo, sentado quatro mesas atrás daquela ocupada pelas duas amigas estridentes e, ao perceber que ele já tinha notado sua presença, balança a cabeça indicando negação e solta seu ar de reprovação enquanto caminha mordendo os lábios em direção a ele.



- Bem?

- Aham. E tu?

- Não... Mais ou menos.

- Por quê?

- Não sei. Só acordei triste. Deve ter alguma coisa a ver com a taxa de estrogênio no sangue, só pode.

- Come chocolate, quem sabe resolva.

- Não vendem chocolates em tonéis aqui perto. E eu, realmente, prefiro morangos... Aliás, nem sei como isso é classificado como fruta.

- Morangos dão em árvores, é por isso que são classificados como frutas. E eu não entendo nada de estrogênio: não tenho taxa disso no sangue... Não me chamaste aqui pra falar disso... Queres ser compreendida, o que aconteceu?

- Merda, uma merda aconteceu. Terminei com ele... Ao menos posso respirar e fumar em paz agora.

- Outro? Já é o terceiro nos últimos meses. Por que insistes em nomear teus relacionamentos?

- Dá um caráter mais humano pra coisa por mais animalesco que seja... Ai, de todos foi o pior, sem dúvida: implicava até com a minha insônia.

- Sim, realmente são da natureza humana o egoísmo e o sentimento de posse sobre tudo. E me poupa: tu és arrogante demais pra ter um cara metido na tua vida desse jeito.

- Humildade também não é o teu forte. Enfim, de certa maneira parecia necessário, não ele: ter uma relação. E não me venha com lição de moral, já sei que não tinha necessidade nenhuma.

- Deverias ser menos contraditória, terias menos problemas. Ah! E parar de fumar, deverias parar de fumar também.

- A colisão das minhas contradições pode ser catastrófica, ou pode dar ótimos resultados, prefiro correr o risco. E pra quê parar de fumar? Vou morrer de qualquer maneira, que seja de uma doença legal pelo menos: Nietzsche e Freud morreram de câncer, quero estar nesse grupo seleto.

- A colisão das tuas contradições, ultimamente, só tem feito tu me procurar pra chorar dramas de feridas que tu já cicatrizaste faz tempo: tua época de princesinha presa num castelo de cartas já foi, sabes disso. E Nietzsche e Freud morreram antes de descobrirem que fumar causa impotência sexual: eram mais inteligentes que tu, eles parariam de fumar, com certeza.

- Sou masoquista, as cicatrizes doem ainda mais agora. Sou estúpida, sem vocação para princesa. E foi uma colocação capciosa, Nietzsche morreu de câncer no cérebro, nada a ver com cigarros.

- Sabe, acho que tu és narcisista demais pra seres masoquista. Quando te sentires carente e precisares ouvir algo bonitinho só é ligar pra mim... Não precisa ficar criando compromissos com caras que ficam se projetando em ti e tirando tua liberdade. E o Nietzsche morreu de câncer no cérebro por ironia do destino: cientistas afirmam que foi castigo divino, por ter pensado demais. Já tu, tem pensado de menos.

- Não quero que percas teu tempo comigo e não preciso ouvir algo bonitinho de ti: teu silêncio se insinua, já é o bastante... Queria que fosse assim com eles, mas, o peso que fazem sobre minha vontade de ir e vir é grande demais: não consigo esperar o tempo até que a mudez se faça entender.

- Rá, pára de te fazer de vítima, não combina contigo. Tu sabes muito bem que estando contigo meu tempo é aproveitado das melhores maneiras possíveis. Também sabes que, não importa por quanto tempo durar, ninguém vai conseguir te compreender como eu... Nossos silêncios são os mesmos, esqueceu?

- Sabes que quando fico sensível viro atriz de novela mexicana, deixa eu fazer o meu drama. E é verdade mesmo: tu és quem melhor preenche o vazio, sem que fique pesado o bastante a ponto de eu não poder me mexer... Também sei que tenho o mesmo efeito sobre ti: é bem diferente do efeito que causa aquela loira piranha que não pára de olhar pra cá, por exemplo.

- Na verdade eu tava pensando em falar com ela, não parece ser do tipo que espera do lado do telefone o cara ligar no outro dia, quem sabe não arranjo alguma diversão? E tu precisas parar de tentar deduzir tanto sobre as pessoas assim: quem falou que ela é piranha? A moça só tem excesso de simpatia.

- Vai então, ela é bonita mesmo... Mas vais te arrepender: ela tem cara de gente que fica batendo papo depois do sexo, uma puta ficaria quieta pelo menos... Eu dormia depois: é mais fácil quando o silêncio falar por nós.

- Vou não, vai que ela vem falar de futebol que nem tava fazendo com a amiga dela? Eu sufoco com o travesseiro... E é impressão minha ou tu estás com ciúmes?

- Morrendo, vou ali à cozinha... Qual demora mais: o gás do fogão ou a faca de serrinha, pra me matar?

- Tenta os palitos de dente, é uma boa idéia.

- O bom é que ele incentiva... Isso sim que é ego: só pra teres uma morte em tua homenagem.

- Já falei que não podes morrer ainda.

- Por?

- Porque eu não estou com vontade.

- Amo tua capacidade de argumentação.

- ‘Brigado, sou um moço muito prendado.

- E eu uma moça suicida.

- Eu poderia aproveitar que estás emocionalmente fragilizada e, conseqüentemente, com a capacidade intelectual/racional bem afetada pra te dizer algo doce, te beijar e te levar pra ver os móveis do meu novo apartamento pela... Décima terceira vez?

- Adoro a tua sutileza, e sabes que eu vou sim, apesar de saber a cor do ralo do banheiro... As coisas boas são incomensuráveis, parei de contar depois da primeira vez, Sr. oportunista.

- Aproveitar essa oportunidade é a coisa mais complicada do mundo, não é?

- Tudo bem, isso não faz de ti menos nobre.

- Onde tu enfiaste teu orgulho, garota?

- Engoli seco.

- Saudades de ti... Apesar de ter me acostumado com a tua ausência nesses dias, tinha uma saudade meio... Não sei qual a palavra... Estranha, sei lá.

- Saudade? Que estranho.

- Por quê?

- Não sei se teria motivo.

- Acostumado contigo.

- Mesmo?

- Sabes que sim, não te faz de besta.

- Como que eu vou saber, senhor? Não sou filha de Iemanjá, mãe de santo, nada disso.

- Talvez filha adotiva do cinismo.

- Pelo menos papai é divertido... Mamãe é a burrice.

- Então tu não puxaste pra tua mãe.

- Nada garante.

- Ninguém tem garantia de nada mesmo.

- Apesar de burrice ser questão de parâmetro...

- Chega de divagações inúteis, Alice.

- Ao menos foi divertido.

- Comparado as coisas divertidas que já fizeste, aquilo foi inútil.

- O conceito de utilidade é supervalorizado.

- Queres discutir sobre o conceito de utilidade?

- Não. Eu quero um cigarro, logo.

- Só porque sabes que ficas muito sexy fumando e estás tentando me seduzir.

- Cigarros são um pretexto, sabes que não preciso deles pra te seduzir.

- Na verdade, às vezes, eu queria que tu fosses um pretexto pra mim: como aquela loira. Mas as coisas não funcionam assim contigo...

- O mesmo vale pra ti... Talvez porque na certeza de nossa inconstância é que a gente veja uma segurança: de esperar o inesperado, de se abraçar no indefinido. Somos amantes do que é vago.

- Quer conhecer minha estante de livros?

- Já li todos os livros dela, mas não me importo em reler.

Eduardo e Alice saem e acabam se esquecendo dos livros repetidos: passam o resto da noite e do dia seguinte enclausurados um no outro antes de um novo “até logo”.

sábado, 22 de novembro de 2008

Para Não Repetir Pela Primeira Vez.

Escreveu:

“Bom, eu estou te devendo um monte de respostas, eu quero te dizer exatamente a verdade, sem exageros ou cautelas, por isso eu vou ponderar bem cada palavra, pra tentar te fazer entender bem as coisas (só tentar). Por mais que eu não acredite (e agora mais do que nunca) na definição, o que eu falar aqui será decisivo e carregado de certezas, acho que estás precisando muito disso: pra ficar em paz, mesmo que precise passar por uma tempestade primeiro. Eu te juro, com o coração dolorido, que essa era a última coisa que eu queria, mas acho que vai doer. Não pensa que pra mim foi ou está sendo fácil admitir e aceitar minhas conclusões.
A gente se desentendeu naquele dia por culpa inteiramente minha: eu assumo a minha idiotice, estupidez e imaturidade e, por mais que já saibas de tudo isso, é importante eu reconhecer que me contradisse completamente e agi feito ator de novela vagabunda, fui embora puto porque a verdade às vezes dói e é difícil aceitá-la quando isso acontece. Eu estava muito, muito confuso, não esperava que tu pedisses uma posição minha naquela hora (apesar de eu compreender perfeitamente tua necessidade), sei que disseste que era pra eu pensar melhor: das vezes que te levantaste pra ir embora tu estavas me concedendo esse tempo (e era mesmo pra tu ter ido, eu não deveria ter impedido desde a primeira vez), mas naquele momento a única coisa que eu queria era estar contigo: ignorando o futuro ou passado, eu só queria estar ali. É mágico e encantador quando estou do teu lado e, na minha cabeça infantil e dramática, se eu te deixasse ir embora eu nunca mais iria te ver outra vez.
Fiquei criando desculpas inúteis e me contradizendo com frases sem sentido porque, por mais que as tuas perguntas fossem claras e diretas, eu não queria te dar as verdades ignoradas que vou te falar agora (pra evitar a perda) e tão pouco mentir pra ti. Eu acho desumano e imoral não ser absolutamente sincero e verdadeiro com quem se gosta: mesmo que isso evite problemas momentâneos, futuramente as verdades iriam aparecer, e um relacionamento pra durar (seja de qual tipo for) não pode ser menos que completo e inteiro: pra isso é necessário que ambos se doem verdadeiramente e não escondam coisa alguma (nada, completamente nada) um do outro. Então eu quero te pedir perdão: por mais que eu não tenha feito diretamente, e não tenha pronunciado as frases, eu, de certa forma, não fui verdadeiro contigo e menti com meu silêncio e minha falsa convicção. Felizmente eu não sou um bom mentiroso e me sinto melhor assim, já sabes disso.
Os dias depois da nossa discussão foram um misto de tristeza e revelação. Eu pensei muito, muito: pensei e constatei o que só poderia fazer sozinho, com a calma e a solidão, sem o peso do tempo e do agora fazendo pressão sobre a minha racionalidade. A palavra certa é aceitação: eu sempre soube o que quis, mas isso vai de encontra ao que eu gostaria de querer e, por um falso humanismo e empatia por uns ideais ultrapassados que já superei, eu escolhi ignorar. Sei que é difícil de compreender, mas se pudéssemos escolher o que querer, nós poderíamos ser felizes por mais tempo e com mais facilidade (ou sem tantas dificuldades, tanto faz). Não, não estou falando que gostaria de te querer, porque isso eu quero: o que eu queria era ter segurança e constância sobre o que eu sinto, como tu tens. Mas eu sou uma bomba ativada por um monte de mecanismos que explode pra todos os lados.
Eu simplesmente não funciono assim: não me sinto atraído e satisfeito com a estabilidade de algo extasiado e único que não me supre. Tudo é tão mais e há tanto espalhado por aí que eu não consigo abdicar disso em nome de um compromisso que me limitaria ao que não é capaz de me satisfazer, e não me tira a necessidade de sentir o resto. E não é culpa tua nem minha: é da minha natureza essa instabilidade, eu não posso te dar a segurança que eu não tenho.
Vou te dizer o que eu quero: quero liberdade pra sentir intensamente e ter o que eu quiser, quando eu quiser até o tempo que eu quiser. Sim, bem egocêntrico.
Acho que nem quando eu amar, quando eu descobrir o que é isso e aprender a identificar e nomear sem cometer erros tão bizarros e vulgares de novo, eu mudarei esse jeito vago de sentir. Matinha sobre o amor (idéia de amor, não Amor inominável) uma visão utópica e ilusória de encarnação do eterno, inabalável e perene, maior que todos os desejos, sentimentos e sensações combinados. Mas depois de sofrer com resquícios do que seria isso, o desgosto me trouxe a frieza, a lógica e, principalmente, o autoconhecimento pra entender sem dramatizações dispensáveis e burras: tudo que começa, mais dia menos dia, acaba ou muda sob ação do tempo transformando e modificando o que nos cerca e o que nos faz, e o amor não é sagrado: pelo contrário, apesar de surreal, é demasiadamente humano.
Amor precisa vir acompanhado de uma compreensão que eu não tenho contigo: algo tão grande que me permitiria uma liberdade imensa a ponto de eu parar de sentir necessidade e sobrar apenas a vontade. Sabe que me sobra necessidade.
Não quero ter limitações ou empecilhos que me separem das minhas vontades, já deixei de ser medíocre faz um tempo, e não me permito, nem consigo, me contentar com menos do que eu ambiciono. Amor é relativo como tudo que existe, e acho que nós dois temos concepções diferentes: se nascesse, tu não entenderias a minha possível necessidade de mais, de além, não entenderia que, talvez, não me bastasse. Começo a achar que tenho capacidade de amar de três ou quatros jeitos diferentes, quantas me forem apaixonantes. Diferencie amor de paixão se quiser, eu também quero ser livre pra misturar e viver tudo ao mesmo tempo.
Quero continuar contigo sim, mas pra mim não é o suficiente, e, se um dia for eu não sei até quando será. Cumpriria a promessa que fiz de parar de te exigir ou cobrar: essa era uma atitude ridícula e mesquinha que tirava a tua liberdade e espontaneidade, eu não posso tirar de ti o que eu quero pra mim. Mas não sou capaz de ser tão egoísta, imoral, desonesto e incompreensivo a ponto de pedir pra que continues a andar sobre uma corda bamba sem rede alguma embaixo sabendo que vais cair a qualquer hora, eu te respeito demais pra me sobrepor a ti. Nem eu faria isso no teu lugar: continuar com algo sabendo que há uma dor maior que essa anunciada não é coragem. A reciprocidade é elemento fundamental, e falo de reciprocidade em todos os sentidos: até na forma de encarar ou, ao menos, respeitar como o outro sente. Eu não te faria feliz, a segurança e fidelidade que buscas não encontrarias em mim, e eu não me sentiria bem com essa inutilidade.
Cada segundo, cada momento, cada beijo, cada palavra, cada riso, cada pensamento que me deste vai ficar gravado pra sempre (é: pra sempre) em mim, e nem se eu quisesse poderia te esquecer. Conheci uma alegria nova e incrível contigo, realizei uns sonhos antigos e ganhei outros novos: saí da realidade, encontrei uma paz desconhecida, descobri uma parte minha até então oculta, além de ter encontrado identificação, me impressionado com semelhanças, senti orgulho e admiração, transbordado e dado felicidade... Marcaste minha vida.
Disse que eras meu sonho, e és mesmo, só que eu não tenho um único sonho e não quero estragar mais nenhum teu. Perdão.”

E ambos padeceram, porém, foram mais felizes muitas outras vezes.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Pierrot.




*Baseado em fatos mais ou menos reais.



Sentado aqui, sem de fato saber se estou ou sou, enquanto formo desenhos surreais em nuvens cinza, bebo do sangue translúcido que escorre acariciando meu rosto e ardendo meus olhos até me beijar e trazer o gosto de passado desbotado, eu desço as pálpebras buscando consolo no último lugar que deveria olhar: dentro de mim.

Então o vento me traz o cheiro de molhado, de asfalto a 40º sendo morto, e abro os olhos para ver árvores desfolhadas com troncos num tom de ocre envelhecido e acabado, folhas amarelas voando lentamente em bandos sem qualquer rumo, a grama brilhando num verde incandescente contrastando com a luz esbranquiçada do sol que rasga ferindo meus desenhos e, sob cada poça de concreto, vidro ou qualquer outro dejeto humano liquefeito com a água, dançam embriagadas e contentes pessoas com roupas coloridas e faces pintadas de pierrot. Gargalho.

Vieram-me as teorias, e com elas a responsável, direta ou indiretamente, por quase todos os medos que sentimos: a incerteza. Sinto medo, enfim. Medo de ferir o mundo, de machucá-lo com meu egocentrismo que fatalmente irá implicar nele meu gosto, como se eu pudesse de fato alterar o sabor das coisas. As constatações são a pior a parte: não posso ser tão irresponsável e pobre de espírito a ponto de transferir a maior de minhas dores apenas para não senti-la. Gargalharei.

Sentado ali, com a cabeça dentro das mãos, via uma projeção do que eu mais queria, e sabia que não poderia ser menos que minha vontade: porque o meu querer é abastecido pelo que eu sinto, e a vontade de sentir é tamanha que me sobreponho ao que acredito. Pensava nas folhas tontas caindo e na grama se apagando melancólica quando me chegou alguém risonho ensaiando uns passos de bailarina bêbada. Alguém, que com os olhos colheu as lágrimas do céu preto e branco, me disse com uma voz viva e invadida por uma felicidade estranha: “as realidades que construímos e cada momento que vivemos se despedaçam inevitavelmente porque...”. E não terminou, e gargalhou. Chorei, chorei com lágrimas de ninguém.

Os meus desenhos se desmancharam num céu azul tão vazio e uniforme quanto as mentiras que ele protege.




"Ninguém vive a paixão impunemente."
Clara Averbuck.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Descobrindo.

Meus pensamentos se refazendo repetidos: repasso vinte vezes o que vivi dois minutos atrás. Tudo se funde e se confunde: eu sinto por dois minutos o tempo parar e paro com o tempo, e subitamente os sentidos perdem as funções e o peito lateja aquecido. Cessa a música, as vozes, a temperatura, as dores, as luzes, os medos e as hipóteses e me sobra à lembrança de uns sonhos antigos... É que nem sei mais se sonho ou se vivo.

Então não caibo no meu silêncio, e na minha inexistência e nem mesmo em minha incompreensão enorme e absoluta diante daquilo que é além de mim mesmo. Eu me concentro para me organizar, tentando calmamente juntar vontades às sílabas ao mesmo tempo em que minha cabeça bagunçada por contradições e quereres esquisitos se desprende devagarzinho: eu não controlo, eu não penso. Sorrio por não saber o que fazer comigo, por ver graça no meu desajeito: é engraçado o estranhamento de nós mesmos.

Desisto enfim, e me rendo à dúvida desconhecida e injustificável, quando eu tento, feito idiota, buscar uma certeza incógnita, pois nem sei do que é: perdida em algum canto dentro do tempo, longe demais de onde eu estou agora.

Admiro-a, inexpressivo, com os olhos estáticos sem querer de fato olhá-la, ouço-a com toda atenção que ainda me resta sem esperar ouvir uma palavra do que ela diz, e me invade a boca um turbilhão de versos e frases de efeito: cheias de exagero e algumas mentiras involuntárias que desisto de inventar por não ver mais utilidade nisso.

Aí eu a beijo, e de repente eu descubro que não sei mais fazer absolutamente nada que não for beijá-la.






Cordialmente, com meus pensamentos distorcidos, à S.

sábado, 8 de novembro de 2008

Sobre O Que Eu Não Sei.

A partir daqui tudo que eu disser ou gritar será uma tentativa frustrada de descrever, jorrar ou repassar o que não é cabível, tão pouco representável, num espaço limitado como este. Não tentem entender e também não levem as palavras tão a sério quando eu estiver falando de algo que nem eu sei ao certo o que é. O que sairá será resquício de um silêncio inexpressável e irreconhecível, e eu ainda não sei escrever com o silêncio. Talvez aprenda agora.

Sempre achei a idéia de nomear as coisas uma forma de limitá-las a quatro ou seis letras, é simplesmente inútil resumir tanto em formas tão pequenas e insensíveis. Eu procuro contornar essa restrição desconstruindo tudo e analisando enquanto moldo pedaço por pedaço como se cada um fosse mais importante que o produto final. Quem sabe isso justifique a intensidade com que escrevo: partículas super-carregadas amplificando mil vezes o que elas realmente formam.

Dessa vez eu desconheço sobre o que falarei. Não sei, não sei mesmo. Posso falar de uns quatro sentimentos diferentes, nove sensações mágicas e um milhão de pensamentos e divagações cheias de alegria e euforia, mas isso é minúsculo perto da tradução do conjunto misturado. De repente a necessidade de escrever me parece tão idiota justamente porque sei que é em vão. Eu, que aprendi a lidar com as palavras para olhar para dentro e entender o mundo fora, agora descobri a minha impotência diante desse mosaico novo...

Argh. É assim: Materialização mais que perfeita de cada linha que já escrevi. A realidade conseguiu ultrapassar os limites da ilusão e superá-la, e isso é mais que um milagre: paz, desejo, fuga da realidade, explosões internas, sonho lúcido, filme noir, surrealismo, expressionismo, literário, alegria, uma liberdade absurda... Tão grande que não cabe, tão grande que ainda não me acostumei a ela, tão grande que lateja e eu ainda me sinto entorpecido e cada letra sai antes de eu pensar na próxima, tão grande que tudo se desfaz, tão grande que é feliz.

Peço desculpas pela inabilidade, ainda me encontro perplexo e o que eu quero mesmo dizer não dá para ser dito assim. Na verdade eu nem queria estar escrevendo nada disso, queria estar no passado.

Do futuro eu realmente não sei. Sei que me sobra tempo, paz e liberdade.

Ah! Querido diário, estou feliz. (:






haha. ai ai. Normal nesses casos, eu espero.



quarta-feira, 5 de novembro de 2008