quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Amputação.

Quando roubaram meu smartphone,
era só ficar longe do notebook,
que eu tinha taquicardia e tristeza aguda,
tal o Tom Hanks,
em Naufrago,
depois que o Wilson se perdeu.

Felizmente, dá pra parcelar em até 12 vezes, sem juros,
Wilsons na Yamada.


Acho que eu escrevo aqui agora mais por nostalgia e carinho do que por qualquer outra coisa mais relevante que justificasse, de fato, eu ainda escrever por aqui. Sei que a constância de leitores num blog depende, diretamente, da frequência com que ele é atualizado com coisas novas e o público deste aqui nunca passou nem perto de ser grande. Assim, dado o total desleixo e irregularidade com que posto no Vago, tenho consciência de que, se ainda vem alguém por essas bandas, é por acidente, não por constância ou esperança de encontrar novidades. No entanto, não tenho como desmerecer ou ignorar a importância deste espaço pra mim e acho, de verdade, que esta novidade merece estar primeiro aqui, não em outro lugar. 

Seguinte: juntei coisas que eu já havia escrito, desenterrei umas bobagens, escrevi outras inéditas, e, enfim, agora eu tenho poesias suficientes reunidas em algo que pode ser considerado um livro. O nome é "Aqui por acaso" e é cheio de despretensão, experimentalismo, gracinhas e outras coisas vagabundas. O poema aí de cima faz parte dele. Tô satisfeito com o resultado porque parei de me neurar querendo fazer algo super-fodástico-capaz-de-produzir-insights-revolucionários. São só ensaios, protótipos e micro-narrativas que não pretendem a seriedade. Combinei de mandar o original pra uma editora em janeiro. Vamo ver no que dá. Mantenho vocês (se é que vocês existem e não tô falando sozinho) informados. 

Ah! De vez eu nunca eu volto a postar aqui, prometo. 

Abraços.



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Chato.

Eles estavam deitados, pós-gozo, olhando as linhas paralelas do forro do teto, meio entediados, meio com sono. Ela tinha a cabeça apoiada sobre o peito do cara e sua mão direita repousava sobre o mamilo esquerdo dele. Ele acariciava algumas mexas do cabelo da garota e brincava de fazer pequenos cachos os enrolando com o indicador. Estavam sérios. O ventilador se virava, de um lado a outro, bambo, sem dar conta de movimentar o ar o suficiente para romper a camada densa que se instalara no cômodo. O som das palhetas rodando era o único que contrabalanceava o peso do silêncio. Não havia barulho de trânsito fora, nem ruído doméstico dentro. Aconteceu o seguinte:

Ele: _ Melhor a gente não se ver mais.
Ela: _ Concordo.
Ele: _ Não tô a fim de me apaixonar por ti.
Ela: _ Oi!?
Ele: _ Eu disse que não tô a fim de me apaixonar por ti.
Ela: _ Que papinho de adolescente pau no cu é esse?
Ele: _ É sério.
Ela: _ Não tem como levar a sério isso. Desculpa.
Ele: _ Tu não acredita que eu possa me apaixonar por ti?
Ela: _ Acreditar, acredito. Mas a gente se apaixona, se desapaixona, é feliz, se fode, eticétera.
Ele: _ Então tu acha que eu devo me apaixonar por ti?
Ela: _ Só se tu quiser te foder.
Ele: _ Por quê?
Ela: _ Porque eu não tô a fim de me apaixonar por ti.
Ele: _ Que papinho de adolescente pau no cu é esse?
Ela: _ Tu não tá entendendo. Eu não vou me apaixonar por ti, nem tô a fim de forçar a barra pra isso acontecer, se é que isso é possível...
Ele: _ Como tu sabe que não vai te apaixonar por mim?
Ela: _ Querido, confie em mim. Não vai rolar, não rolou.
Ele: _ Foi porque eu disse que tenho medo de me apaixonar por ti?
Ela: _ Também... Mas, principalmente, porque te achei chato.
Ele: _ Chato!? Como assim!?
Ela: _ Não tô dizendo que tu é chato. Disse que eu te achei chato. É só meu ponto de vista, tu não precisa dar tanta importância pra ele.
Ele: _ Agora eu quero saber porque tu me acha chato!
Ela: _ Tá vendo? Por isso tu é chato. Quer que eu te explique tudo.
Ele: _ Tu não acha que tu tá sendo um pouquinho escrota? Tenho o direito de saber por que tu me acha chato!
Ela: _ Tô sendo escrota, sim, mas é pra evitar que tu te apaixone por mim e tal. Tô te prestando um favor, nem precisa agradecer. E tu não tem direito a nada, antes que eu me esqueça. Eu falo se eu quiser, o que eu quiser e não quero falar... Agora acho que tu precisa ir embora.
Ele: _ Não, por favor... Deixa eu ficar só mais um pouco...
Ela: _ Cara, eu não gostei de ti! Tu é masoquista ou alguma coisa assim? Não curto essas paradas, não. Por favor, melhor tu ir.
Ele: (...)
Ela: _ Tchau. Obrigada pela foda.

Aquele havia sido o segundo encontro deles. A iniciativa de trepar, obviamente, havia partido dela, que sugeriu assistirem um filme em sua casa com terceiras, quartas e quintas intenções. Nunca mais se viram depois daquela noite. Ela não atendeu as ligações dele e o bloqueou no WhatsApp. Ele passou quatro meses stalkeando o perfil dela no Facebook, mesmo depois de também ter levado block lá. Criou uma conta fake apenas para continuar acompanhando as postagens e ficar admirando as fotos da moça. Os amigos dele precisaram aguentar semanas de lamentações e desabafos dramáticos seguidos de porres babacas dignos de pena. Ele estava convencido de que havia perdida a mãe de seus filhos e que nunca encontraria alguém à altura.


Ele só superou a crise quando, atendendo aos apelos de um conhecido em comum, a moça foi procurá-lo, cheia de dó. Ela sabia o que fazer. Disse a ele que só o tratou mal porque, realmente, também estava com medo de se apaixonar. Confessou que não queria se sentir tão vulnerável. Pediu perdão pelo ocorrido. Era tudo mentira, mas o cara acreditou. Então, como ela previa, ele se encheu de orgulho e disse que já era tarde demais, que não valia mais a pena arriscar. Ela fingiu que lamentou, insistiu um pouco, mas o moço estava irredutível. Não se falaram mais. Ele parou de stalkeá-la, se interessou por outras mulheres. Depois, se vangloriou do que fez para os amigos que, por pacto, jamais lhe revelaram a verdade. Entre os amigos dela, ele virou uma piada pronta. E tudo acabou bem.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Pra o caso de alguém me procurar aqui.

Oi, tem alguém aí?
Eu sempre digo que vou manter uma certa regularidade nas postagens do blog e sempre me contradigo. Vou parar de fazer promessas que não cumpro, já passei dessa fase.
Então, agora eu tô escrevendo na Obvious, um site colaborativo muito legal que tá me dando uma visibilidade que eu nunca conseguiria ter com o Vago. Não tô querendo desmerecer o potencial do meu blogzinho, só tô sendo realista. A Obvious, só no Facebook, tem mais de 800 mil seguidores. Nunca conseguiria atingir um público tão grande através do blogspot.
Preciso falar pra mais gente. Tenho que dar um jeito de ganhar dinheiro com as coisas que eu escrevo, urgentemente. Sério, isso é imperativo. Percebi que não vou ter satisfação profissional de outra forma. Pra isso, claro, preciso me tornar um escritor minimamente conhecido. Meu sonho é poder viver só das bobagens que eu produzo e conseguir remexer cada vez mais pessoas com as palavras. Acho que isso é meio ambicioso, ainda mais num país como o Brasil, mas não vejo possibilidades práticas de ser feliz de outra forma, sinceramente. A única coisa possivelmente rentável que eu gosto de fazer é escrever. Eu sinto que eu sei fazer isso e que tenho coisas importantes pra falar. Mas, enfim.
Meu último post na Obvious foi esse aqui, ó: http://obviousmag.org/mapas_do_acaso/2015/o-que-eu-aprendi-com-a-loucura.html
Falo dos meus surtos psicóticos e de como eles me ajudaram a crescer. É meio que um "aperitivo" pra o meu livro (não, ainda não sei quando será publicado [quem me perguntou? Não sei]). Não sei se ainda tem gente acessando diretamente a página do Vago, mas, se tiver, é isso aí. De novo, se quiserem me adicionar no Facebook, fiquem à vontade: https://www.facebook.com/tiagojuliom
É isso. Espero que gostem.
Não vou abandonar o blog, de jeito nenhum, e, logo logo, posto algo inédito por aqui.
Até lá, até logo.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

O Gerador de Improbabilidade Infinita

    Começa com uma página em branco e um cursor piscando. É mais ou menos assim. Quase sempre. Aos poucos, adicionamos letras, sílabas e palavras pra preencher espaços depois de espaços. Inventamos sons imaginários. Temos a necessidade básica de deturpar o silêncio e nos impor sobre o vazio. O nada incomoda. Devemos preenchê-lo com nós. Eu me viciei, particularmente, em fabricar máquinas verbais microscópicas capazes de viajar com sinapses e intuir pensamentos.  Eu trafego pelos vãos da memória recente e substituo informação por sensação. Não é um trabalho fácil e exige certa técnica. Alguns excessos ficam pra trás, pedaços de mim que são reciclados e viram adubo orgânico. Não me importo de me perder um pouco por uma causa nobre. A linguagem foi violentada por sentidos óbvios. Está traumatizada. É preciso curá-la. É necessário dar forma à incompreensão e divagar, principalmente, sobre coisa alguma.

     O niilismo é subvalorizado e não há critérios pra justificar tamanho descaso. O mundo está cheio de certezas vãs que pré-fabricam pontos de vista e despersonalizam ideias originais. Só a dúvida é redenção. Só através das improbabilidades alcançaremos percepções relevantes. O medo cega. O medo é nocivo e deve ser expurgado. É o mesmo medo que sentimos diante da página em branco. É o medo do que nós não sabemos: o mais primitivo e perigoso já nos imposto pela natureza. Brincando com as palavras, descobri que não saber não é necessariamente ruim. Abraçando o mistério, adquirimos uma liberdade irreprimível que não cabe sob as amarras de verdades incontestáveis. Este é o verdadeiro poder das palavras: confrontar crenças inabaláveis e oferecer visões novas capazes de alterar a relação com a existência. Só as palavras salvam. Repito como mantra pra não esquecer a responsabilidade e a dádiva que carrego. Eu sou um fazedor de mundos.


 “Só uso a palavra para compor meus silêncios.”
Manoel de Barros

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Visão.

  Era uma paisagem de palavras que eu percorria com pés cautelosos, com receio de desfigurar imagens verbais e desordenar a métrica imposta pelo acaso. Sempre ele, o acaso, me servindo de guia espiritual, guru, gênio da lâmpada e maestro, orquestrando involuntariamente meu destino. Meu destino, aliás, não dura dois parágrafos. Ele é matéria disforme, produto mutante, que, ao invés de gerar resultados, se recria infindavelmente em improbabilidades a perder de vista. Esta é mais uma delas. 

 Era um mosaico de letras que, dependendo do ângulo, fazia as vezes de um caleidoscópio multicolorido, como uma câmera escura geneticamente modificada pra explodir em feixes de fótons. Tinha o ritmo certo pra possibilitar uma leitura mental cadenciada e harmônica, uma melodia delicada que emocionava até os corações mais duros, calejados de forma incorrigível por certezas pré-fabricadas e egoísmos diversos. 

  Era um hino capaz de fazer conservadores bradarem a favor do amor livre e socialites amarguradas desenvolverem, milagrosamente, doses de empatia e bom senso. Era uma revolução íntima, sem freios ou rédeas, que levava à iluminação, ao nirvana, à graça. O texto que vislumbrei curava chagas, fomes e pobrezas, do corpo e do espírito. Era uma revelação contrária àquela dada a João, pregava o amor à destruição, a conciliação ao castigo, a felicidade à renúncia. 

  No fim das contas, não consegui. Nem cheguei a tentar, pra ser honesto. Morreu bebê prematuro o poema mágico que, por inabilidade e inexperiência, eu não pude decifrar e recompor. Legiões permanecerão sofrendo por minha culpa. É minha a responsabilidade por ser viciado em procrastinação e adepto da preguiça. Quando vi que teria que escrever duzentas folhas só de introdução, decidi que era mais prudente deixar pra alguém mais nobre a competência de salvar o mundo por meio da arte. Podem me condenar. Apesar de megalomaníaco, não sou tão vaidoso e dá muito trabalho entrar pra história. Alheio à tentação sórdida dos que pretendem imitar os grandes mártires, prefiro o anonimato inocente reservado aos vagabundos.

domingo, 14 de junho de 2015

Desculpa P/ Sujar Papel.

Foi assim que me ocorreu:
como um espirro fruto de uma gripe rara, dessas
que dão em bicho ou levam letras do alfabeto
por serem inclassificáveis de outra forma.
Foi assim que me ocorreu:
 instantâneo, irreprimível e veloz,
 como um susto, desses
que curam soluços ou matam
do coração.
O poema me tomou pelas
 mãos e me trouxe até
aqui, lugar-nenhum,
em que crio artifícios e
artimanhas para selar
 um pacto, em que troco
versos pobres por sorrisos,
 forçados ou sinceros.
Tanto faz, como tanto fiz.

sábado, 30 de maio de 2015

Das Coisas Ternas e Indizíveis.

É complicadíssimo falar de amor. O amor é irmão do brega, da afetação e da pieguice. Queria ser lírico pra ser romântico sem parecer babaca. Queria falar "eu te amo" em sânscrito para a expressão soar menos banal. Queria ser Tom/Vinícius/Chico para amar cantando e cantando ser amado. Mas só sei ordenar palavras repetidas em versinhos sem rima de pé-quebrado. O amor não cabe em poemas clichês, presentes sinceros, beijos ardentes, nem em corações de brinquedo ou espíritos apaixonados. Ele é maior que eu e tu. Ele apenas se insinua entre abraços apertados e afagos ternos. Ele está confuso nos gestos, nos atos, nos pronomes e nas palavras vãs. É preciso, todos os dias, reverenciar o amor. Eu ofereço uma poesia prolixa que se perdeu no meio do caminho, minha carne e a admiração abestada às tuas fotos. O amor é cônjuge dessas coisas banais, como a leve saliva que te deixo beijando a testa e o modo carinhoso com que tu cortas minhas unhas.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Conto de Fadas.

De lado, com a cabeça mergulhada no vão que separa a cama da parede, desfiz o mundo. Era uma noite quente de verão, dessas em que os carapanãs atacam sem pena e ventiladores parecem objetos inúteis. Cheirando o ar frio que subia do chão, eu me coloquei a tecer enredos mentais enquanto o suor brotava indiferente nos meus poros. Estava sonolento e cansado, o calor era nauseabundo. Decidido a criar uma solução prática pra minha insônia, porém, dei a imaginar desvarios. Com a força relutante do pensamento, quebrei certezas, desvirtuei lógicas, intui improbabilidades, degenerei a razão e fiz um pacto com o absurdo. Passeei por campos empestados de unicórnios onde nereidas se banhavam em riachos e elfos tocavam arpa sob as árvores. Hobbits corriam atrás de hipogrifos selvagens e fadas se ofereciam sem pudor a ogros e bardos, ninguém as julgava. Gnomos e duendes disputavam torneios de pesca e minotauros faziam as vezes de juízes. Princesas pós-modernas tocavam em bandas rock e os mais belos príncipes encantados lavavam pratos e cozinhavam javalis. Havia uma alegria pulsante na floresta que inventei e tudo era sereno e honesto. Na ânsia de compensar frustrações, criei uma realidade efêmera onde a magia era Lei e a ordem era, precisamente, mandá-la pra puta que o pariu. Os seres do meu reino encantado viveram contentes e satisfeitos até, enfim, eu pegar no sono, matar a todos e reservá-los um memorial meia boca que não faz jus a sua grandeza. Mesmo no desvario, a vida real sempre dá um jeito de nos jogar cara que ela impera, que a verdade do que é concreto, mesmo dúbia, ainda prevalece.

domingo, 19 de abril de 2015

Memorial das Dores Ignoradas.

Tô à margem. Eu fui pra muito distante. É inútil me estender a mão. Tô tão longe que ninguém pode me ver bem. Enxergam só um vulto magro. Daqui eu devo parecer aceitável. É solitário. Meu peito pesa um elefante. O ar é rarefeito. Meus pulmões estão obstruídos. Dói uma dor frágil e latente. Me sinto um fantasma e essas coisas não deveriam me incomodar. Minha cabeça tonteia a esmo. Não faço conexões lógicas com o real. Eu me perdi há muito tempo. Acho que foi na época em que correr ainda era bom. Quando eu era criança, eu era quase feliz. Fui crescendo errado até me tornar uma casca oca que não reverbera nada. A melancolia reivindicou posse do meu ser. Visto uma máscara com traços carregados de culpa e ingratidão. Só percebo o caos. Eu me afogo no caos. O caos me entranha. Ele tem gosto de sangue. Há cicatrizes invisíveis nos meus antebraços. Há marcas profundas sob minha pele. Sinto falta da esperança ingênua da loucura. A química que a inibe não me ajuda. Eu creio que nada pode me salvar. Nada pode fazer com que eu me acostume a mim. Tô muito cansado. Sou uma criança mimada, assustada, com medo da vida. Eu enceno atos de uma peça que não é a que escolhi pra mim. Existir é um mistério grande demais pra eu suportar. Eu tento me perpetuar em memórias porque não tolero o presente. Não consigo dividir comigo o mesmo lugar no tempo e no espaço. Talvez eu queira gritar por socorro, mas desaprendi a falar. Só sei escrever. Me viciei em palavras. Elas me enganam e me traem. Eu não revido. Cada vez faço menos barulho. Tô treinando pra o meu silêncio. Vou morrer numa overdose de poesia ruim. É clichê o meu drama. Quando eu for embora, quero deixar de herança saudades e sorrisos tristes.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Estrangeiro.

Dentro de mim mora um estrangeiro. É um apátrida, um outsider, um extraterrestre fugitivo de um planeta condenado por uma peste incurável. Aceitei carregá-lo por comiseração e respeito. Sou sua casa e seus sentidos. Desde que nasceu, ele não se habituou à materialidade das coisas e à concretude do passar do tempo. Dentre outras coisas, estranha aglomerações, dias quentes, conversas de trabalho, smartphones e a tolerância à rotina. Por vezes, posso senti-lo tateando minhas veias, órgãos, arrastando os pés nos meus vãos, olhando fixamente para pontos estáticos através das minhas retinas. Ele ainda não está convencido que a realidade é uma possibilidade razoável. Seu passado invade seu presente que se sobrepõe rápido ao futuro, esvaindo-se depressa. Segue atônito impelido por uma força maior que sua vontade. Há noites em que os sonhos lhe parecem mais sólidos e aceitáveis que a vigília. Crê que, a qualquer momento, acordará em outro lugar, em outro corpo, e descobrirá que suas memórias eram apenas ilusões. Ele desconfia de gostos e de falas, acha inaceitável a indiferença ao absurdo do mistério que é estar vivo. Aos poucos, aprendi a compreendê-lo e a valorizar sua ignorância. O estrangeiro tem olhos de criança e cabeça de velho e, por esta sina, o mundo lhe parece uma hipótese incompleta, portanto, impraticável. Um dia, ele vai aprender a relevar suas dúvidas e a fragilidade que sustenta o caos necessário para a vida funcionar. Um dia, seus olhos envelhecerão e o estrangeiro descansará.

sábado, 21 de março de 2015

Miragem.

É teu mistério, agora compreendo. É o não saber, são as possibilidades da dúvida, são os riscos e encantos do desconhecido. Eu te espio por uma fresta aberta a golpes de machado e tu estás sob uma redoma de cristal em um castelo amaldiçoado. Tu entendes o que eu quero dizer? Tu és o número 42 e eu levei milhões de anos pra te descobrir. Tu és uma fenda na linha contínua do espaço-tempo, um buraco negro no qual eu me lancei e me esqueci, por descuido, de voltar. É o cheiro que eu inventei pra ti, que parece perfume barato, adocicado, com frescor de chuva. É, sobretudo, teu gosto que eu desvendo deduzindo improbabilidades e tateando incoerências. Eu quero te conservar suspensa na minha imaginação, onde teu nome ganha formas e cores infinitas, muito maiores do que as que tu sustenta. E é por isso que eu não vou te comer tão cedo, Nutella. Eu duvido que teu sabor supere tua fama. Além do mais, um potinho teu é um absurdo de caro pra um mero chocolate. Sou acomodado demais pra ir atrás de desvelar mentiras bonitinhas.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Cuspe à Distância

Foda-se o lirismo piegas e o drama carregado de clichês. Foda-se o eufemismo e as coisas meio ditas. Foda-se o medo das palavras e a ignorância voluntária. Foda-se a insensatez e a falta de bom senso. Foda-se tu e tuas limitações irritantes. Tu é tão banal que me dá asco. Tua simplicidade me enoja e tua falta de jeito me dá pena. Tu é tão comum que eu poderia encontrar mil iguais a ti, caso eu me desse ao trabalho de procurar. Tu é tão limitada que não consegue entender ironias ou detectar o menor sinal de sarcasmo. Tu não entende metáforas ou comparações ou a mim. Tuas maneiras são rudes e teus modos, vergonhosos. Tua insegurança é infantil e digna de exorcismo. Tua vaidade narcisista me causa náuseas e ânsias de vômito. Tua figura me provoca raiva e teus gostos me envergonham. Eu me indigno com a tua presença no mundo e com a tua displicência aos teus efeitos. Eu te culpo, sim, pela minha raiva, pela minha frustração e, sobretudo, pela minha teimosia. Eu queria ter ímpeto pra te arrombar a casa e te obrigar a me ouvir. Eu queria ter coragem pra te confrontar e te humilhar, te pisar, te dar o que eu mereço. Eu queria embaralhar tuas sinapses e me colocar no teu cérebro à força. Eu queria arrancar teu coração do peito e exibi-lo na estante. E eu te amo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Desnó Da Garganta.

Toda poesia reprimida
Fertiliza memórias tristes
Vira engodo em noites de insônia
Vira monstro dentro do armário
E é por isso que escancaro o peito
Para gritar para quem quiser ouvir:
Sim, o poema é possível sem arestas
Os versos são soltos por direito
E a poesia é alegre e livre
Como um balão de gás, no formato do Pikachu, que se desprendeu
das mãos de uma criança descuidada
e passou a enfeitar o céu.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

20º Dia de Afastamento.

        Meu corpo pede descanso. Minha cabeça está cansada dela mesma. Eu estou tentando me levantar de novo, eu sinto que já deveria ter aprendido como se faz. O futuro me apavora e eu tenho medo dos dramas que eu crio pra mim. Estou desorientado e preciso lutar contra forças internas mais fortes que minhas pernas. Mas eu vou ficar bem, é o que me garantem. Só não sabem precisar quando. Meu coração pesa duas toneladas e meia. Estou cheio de vazio. Hoje chorei na sala da psicóloga e tive ataques involuntários. Ela disse que esse é meu inverno e que depois vem a primavera. Tem alguém me ouvindo? Tudo isso é tão deprê. Queria falar da beleza da vida, fazer graças com as palavras, juro, mas meus olhos estão quebrados. Eu tenho que me reconstruir e, nossa, como isso é trabalhoso. Meu blogzinho é meu único meio de desabafar sem eu me sentir culpado por estar choramingando à toa. Tem alguma coisa muito errada comigo e a culpa disso é só minha. Queria ter um abridor de amanhecer e um esticador de horizontes. Queria ter de volta a paz que eu perdi. Não é sereno ser eu. Eu dificulto tudo. Não está sendo fácil.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Tampas de caneta Bic.

Todas as coisas que se perdem nas mudanças entre casas,
no fazer e desfazer malas de viagens,
nas trocas de bolsas, mochilas, pastas e estojos
todos os objetos que trocaram de lugar, todas as coisas sem volta, todas as coisas que revogaram sua posse:
São coisas irremediáveis,
que a gente perde e depois, displicentemente, se esquece de procurar.
São coisas escondidas debaixo do tapete, nas frestras das paredes, nos vãos dos vincos do tempo,
e é pra lá que todos nós vamos, um dia.

sábado, 24 de janeiro de 2015

1º Dia de Afastamento.

      Eu sou um náufrago vítima na minha própria tormenta. Eu desaprendi a nadar. Há sobreviventes que me cercam, que me ajudam, mas eu teimo em não acreditar em anjos. Estou perdido. Uma sentença fácil e óbvia, mas que se desvela em centenas de intepretações erradas e sem conjuntura. Enxergo vultos a minha volta. Estou fraco e mais frágil que um floco de neve. Meu contexto é o da perda de referências, a perda de padrões e pontos seguros. Desaprendi a fazer o que me faz bem, o que me promove e me dá reconhecimento. Pior que desaprendi: não gosto mais. Não sei como aconteceu, foi um processo rápido que não consegui acompanhar. Esqueci como é bom divulgar algo relevante. Eu não tenho muito interesse no sucesso, mesmo no micro sucesso, quando a voz não vem de dentro. Eu fui desaparelhado para sentir vaidades. Não é questão de ser humilde, mas de ser sensato. Elogios não mensuram valores, o reconhecimento deve ser sutil para ser honesto. Mas nem ele está me mantendo no chão. Meu chão movediço. Meu chão de pedras-lascadas. Preciso sentir tesão pelo que eu faço novamente. Preciso encontrar um novo norte, uma nova forma de expor o mundo, uma forma que dependa mais de mim e menos dos outros. Escrever, escrever, escrever, todo dia escrever me intoxicou. Estou doente de palavras, de pronomes, verbos, personagens, falas, ligações incompletas, bolos, deadlines. Meus poros doem. Eu estou ciente da minha loucura. Estou sendo ingrato, injusto e irresponsável com tanta gente que me dá vergonha de lembrar. Tanta gente que acredita em mim, no quanto sou capaz, responsável, útil, mesmo enquanto eu não acredito. Eu não acredito. Só vislumbro algo melhor. Vislumbro de tão longe que mal consigo ver. É quase uma miragem. Preciso de dinheiro. Realmente preciso. Preciso de paz. Preciso de paciência. Preciso de calma. Não sei até que ponto a minha bipolaridade tem culpa. Não sei se voltei para a parte depressiva da doença. Preciso resistir. Por mim, por todos, por vocês. Os dias continuam difíceis para os sonhadores. Hoje, queria fotografar esse senhor aí de baixo novamente. Queria registar ele sem precisar saber quem ele é. Queria registrar as coisas com mais despretensão. Talvez, elas me fariam melhor. Eu me cobro além do normal. Não quero fazer qualquer coisa que não seja diferente, minimamente novo. Eu sei que eu sou pretensioso falando assim, mas eu prefiro soar arrogante a ser medíocre. Fotografia pode ser um caminho até eu conseguir trabalhar com cinema. Eu não sei se é viável. Eu não sei se é seguro. Eu sei de tão pouca coisa que sinto minha cabeça flutuar. Estou com medo que ela voe novamente e, por isso, me afastei do trabalho. Preciso de ajuda. Sinto que estou alheio, estranho, confuso. Acho que não aprendi a crescer no final das contas. Continuo um adolescente mimado que não lida bem com frustrações. A culpa é toda minha. Toda.
      Obrigado por me ouvirem. Eu precisava desabafar e não quero mais cansar os ouvidos da minha família e dos meus amigos. Vocês são meus fantasmas favoritos. Abraços.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Cabeça de Vento

Minha cabeça é um dilúvio
praias de Mosqueiro revoltadas comendo muros de arrimo
manada de periquitos fazendo zona de tardinha
criança de quatro anos perguntando sobre Deus
a música menos pop e mais escrota dos Beatles
a música mais brega do Legião Urbana
um poema despretensioso do Manoel de Barros
a mulher que vê no livro do Saramago
uma passagem bíblica que fala de amor
incontáveis cartelas de remédios psiquiátricos
paraquedista, palhaça e rockstar frustrada
livros rejeitados por humanos, mas queridos pelas traças e ETs
Caverna do Dragão, Cavalo de Fogo e o diário do Doug Funnie
o Missingno do Pokémon Azul e Vermelho

Às vezes, minha cabeça fica em promoção: 99% de desconto!
Mas eu não quero pagar de novo pra ver o que acontece se eu tirá-la de cima do pescoço.
Porque ela voa, voa, voa, voa...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Um Pé De Quê.

Poesia é fruta que dá em árvore alta
Um poema demora léguas pra amadurecer
Sou afobado e não espero eles voarem
Prefiro escalar, subir até seus galhos
Eu opto pelo risco da queda em falso
Faço ménage com o perigo e a dúvida

As letras que busco maturam em mim
Tímidas, elas amolecem à minha vista
Exalam cheiros enquanto viram palavras
A poesia crua desregula os sentidos
Faz a vida ser possibilidade razoável
Faz a gente falar como os passarinhos

domingo, 4 de janeiro de 2015

Forma à forma.

      É feito de verbo de ação o meu pensar. 
     Não tenho tempo para os trâmites da vida prática. 
    Eu me decreto o agora. 
   Tenho urgências que não cabem por esperar. 

    Minha matéria-prima são expectativas ansiosas por transcender. 
    Não possuo ligação objetiva com o real. 
    Meu compromisso é com a palavra. 
   Eu me reconheço ser vivente condicionado à distribuição de letras. 

     Eu morro nos pontos finais. 
    Eu renasço a cada nova projeção de sentido. 
   Não conheço limites claros. 
   Prefiro o limiar. 

     Estou na borda. 
     Eu sobrevivo por entre. 
    Me interesso pelo já. 
     Renego o pretérito. 

   Passeio pelo sobre. 
   Caminho para quando. 
    Estou em onde. 
    Sou aqui.