sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Joana

 

     Joana, desde menina, sonhava em fazer revoluções. Aos oito, queria mudar o mundo todo porque ele era cinza demais. O mundo de Joana era um quintal cimentado. Lá, só tinha verde balançado nos galhos de uma goiabeira solitária. A garota teimou que queria um gramado pra rolar que nem o labrador que tinha visto no comercial de ração. Usando tinta guache, folhas amassadas e Tylenol, ela inventou um produto químico para transformar folhas em grama. A menina pintou um quadrado torto grande o suficiente para sentar com suas cinco bonecas e decretou que ali ela reinaria. A goiabeira morreu quatro dias depois, quase nua. Joana chorou e batizou seu quadrado de Império da Goiaba. Brincou lá sete tardes e rezou sete Pais-Nossos pra árvore. Mas daí choveu fino numa noite e no outro dia só restou do reino de Joana uma mancha verde clara e disforme.

    A garotinha ficou sem comer por três dias e seus pais, preocupados, queriam levá-la ao hospital. Quando foram conversar com ela sobre a situação, Joana surtou. Num excesso de fúria, a menina chamou Deus de irresponsável, injusto e filho de uma puta, quebrou um copo de vidro no chão, chutou paredes e gritou pedindo a árvore de volta. Depois de alguns minutos, ela correu para seu quarto e se deitou soluçando até dormir. Seus pais ficaram atordoados, não sabiam direito com quem ou como a menininha tinha aprendido aquelas coisas. A mãe culpou a Tv, o pai culpou a mãe e a empregada disse que ela estava com o capeta no corpo. Na dúvida, ninguém fez nada. Joana acordou duas horas depois, abraçou os pais, pediu desculpas a eles e a Deus e foi assistir desenhos.

    Os pais foram conversar com ela e Joana explicou que estava doente de tristeza e que tinha o direito de não comer. Ela disse que matou uma árvore pra nada e que morrer por uma causa inútil é muito dramático, logo, precisava agir à altura. Contou que quando a tristeza é muito grande, ela precisa ser exagerada pra ser bem compreendida. A mãe de Joana, espantada, perguntou onde ela tinha ouvido aquilo e a menina disse que sabia porque sabia. O pai insistiu, mas a garotinha só falava que não ia acontecer de novo porque já aprendeu. Angustiados, os dois pediram pra ela explicar de novo. Então, Joana disse que só fez aquilo porque estava com raiva. Os pais fingiram que entenderam, abraçaram a garota e pediram pra ela não fazer mais nada parecido. A mãe foi ver novela, o pai foi fazer relatórios. A menina ficava muito tempo com ela mesma. Quando nos conhecemos bem demais, ficamos meio estranhos aos olhos dos outros.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Memórias Póstumas De Um Quase-Anônimo Qualquer.

 

       Enquanto os outros corriam, gritavam, corriam e gritavam ao mesmo tempo, eu bocejava. E a pressa que impulsionava todo mundo esqueceu de me dar corda. Daí sobrou pra mim ficar reparando a bagunça. E eu achava engraçado: era uma ânsia tão grande de viver, que as pessoas iam vivendo de qualquer jeito. Eu preferia ficar parado até eu saber onde eu queria chegar. Mas eu acho que, pra eles, não importava muito onde se queria chegar, o importante era ir. Mas eu não ia: quase ninguém se importava com as coisas que me importavam, eu é que não ia ficar supervalorizando as importâncias dos outros. Eu via o pessoal indo, indo, indo… E dava vontade de dizer: “Calma!”. Eu queria falar que, vivendo todas aquelas coisas ao mesmo tempo, ninguém ia conseguir aproveitar direito nenhuma delas. Eu acho que as coisas necessitam de paciência e dedicação. Se tu vive uma coisa de qualquer jeito, acaba que não vive ela direito. Mas se eu dissesse isso iam me chamar de louco, e eu podia ser preguiçoso, mas louco eu não era.

       Também notei que todo mundo queria aparecer. Tiravam fotos, twittavam, berravam, dançavam… E, sabe, eu nunca entendi isso direito. Eu toda vida achei que mais importante do que quem tu é, é o que tu faz. Bom, eu sempre procurei dar atenção às coisas que eu fazia, até porque eu era mais tímido do que interessante. E, além disso, ora, minha vida só dizia respeito a mim. E, meus deus, por que as pessoas queriam ser vistas se elas não tavam fazendo nada? Elas só tavam vivendo, viver todo mundo vive. Acho que era pra fazer inveja: pra mostrar aos outros que, enquanto eles seguiam suas vidinhas paradas ou não podiam viver daquele jeito, ali estavam elas: eufóricas e afobadas. Mas a minha vidinha foi bem parada e eu nunca me importei com isso, não. Porque, sabe, eu gostava de observar, de interpretar, de ouvir… Como é que eu ia enxergar se eu estivesse sempre preocupado em ser visto?

       Eu lembro como se fosse hoje. Acho que eram umas dez ou onze da manhã e o céu tava azul, azul, azul. Assim mesmo, três vezes azul. Era um azul tão bonito que eu não conseguia tirar os olhos dele. Não sei quanto tempo fiquei lá em pé no meio de tudo, encantado com aquele céu. As pessoas me olharam, depois olharam pra cima e não entenderam nenhum de nós dois. Eu disse que eu iria ficar ali um pouquinho. E, sim, eu sei que o céu tá em todo canto, mas eu gostei daquele pedacinho. Eu tava cercado de gente, mas eu acho que se cansaram de mim e foram embora. Eu lembro de ter ouvido alguém me chamar sem muita esperança de eu ir  e eu não fui mesmo. Fiquei sozinho olhando o azul. Se eu me concentrar bem, ainda consigo sentir o cheiro de maçã-do-amor misturado com o de pipoca. Era um cheiro tão bom que eu fechei os olhos pra cheirar direito. Então eu ouvi o grito que foi a última coisa que eu ouvi. Quando eu abri os olhos já não tinha mais jeito. O carrinho de algodão-doce já tava a toda velocidade descido da ladeira, com pressa de me matar.

        Às vezes eu penso que se eu fosse um pouquinho menos lerdo eu estaria vivo. Mas fazer o quê, né? A vida era imprevisível demais, uma loucura. Pelo menos eu tive uma morte  memorável. Não me perguntem como, mas alguém filmou e colocou no Youtube. Quase todo mundo já viu! Eu aparecei até em programa americano. Tenho crises de risos quando penso nisso. Ando rindo mais. Morrer melhorou muito meu humor. Ora, se eu não sou lembrado pelo o que eu fiz, pelo menos sou lembrado pelo jeito que eu morri. Por mim tudo bem: só tinha medo que me lembrassem por quem eu fui, porque quase todos me achavam meio chato. Mas, sabe, até que desse lado não é tão ruim: tenho tempo de sobra pra olhar os outros, e, mesmo se eu tivesse pressa, ela seria inútil aqui em cima. Ainda não descobri se vou ter que viver outra vida ou não, mas essa é minha única preocupação: me manter morto. Ah! O pessoal até chorou! Depois eles riram, mas não tem importância. Felizmente estavam todos seguros na montanha-russa.   

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Mini-tragicomédia moderna.

 

Quarta-feira. Noite. Restaurante italiano. Mesas vazias. Dois caras de terno e gravata. Pratos de espaguete. Copos de Coca-cola. Garçons entediados observando o trânsito parado. Cheiro de vinho tinto. Novela na LCD. Dores de cabeça. Preocupações. Dois pontos.

_ Porra, cara, às vezes fica foda, né? Respira fundo.

_ Hã? Pensando em uma resposta.

_ Lá... Às vezes fica foda. Esperando o silêncio.

_ Às vezes fica, mas a gente é pago pra se ferrar também. Esboço de riso.

_ Preciso viajar, tirar umas férias. Desfaz a postura.

_ Isso todo mundo precisa... Mas sem grana não tem férias, é por isso que a gente se ferra. Gole de coca.

_ Se fode. Corrigindo.

_ É, a gente se fode... Corrigindo-se.

_ A gente se fode pra parar de se foder um poquinho? Segurando o riso.

_ Caralho... Não sabia que tu também é filósofo. Gargalhando tímido.

_ E eu não sabia que tu falava “caralho” e conjugava o verbo “foder”. Soltando o riso.

Conversas. Saídas. Revelação. Alegria. Três meses. Tiraram férias. Viajaram. Se foderam. Tudo ao mesmo tempo. Casaram na Argentina. Adotaram um vira-lata. Foram discriminados. Um se matou. O outro entrou em depressão e morreu. Ponto final.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Cartinha ao leitor.

 

      Tempão, hein? Lembro da época em que eu ficava angustiado quando não tinha post novo toda semana. Lembro que eu me espremia até sair qualquer coisa... Bom, não era difícil: Eu vivia carregado de coisas (ruins, a maioria). Lembro que eu comecei dois livros intermináveis e uns quatro casos sem solução. E eu era dramático e ingênuo. Complicava coisas simples de um jeito tão sincero que até ficava bonito. Eu era esperto como sou esperto agora, mas era teimoso inventando verdades que eu não podia acreditar. Eu escrevia pra me libertar, pra me compreender, pra me fazer entender, pra ferir, me ferir... Escrevia por vaidade. Pra mostrar que eu sei fazer. Por sadismo e um pouquinho de masoquismo também. Pra me sentir útil e pra eu reconhecer o meu valor. Pra receber elogios e amenizar minha insegurança. Pra desconstruir neuroses criando outras. Acho que eu escrevia porque era necessário.

      Agora não é mais necessário. Eu gosto de escrever, mas, aparentemente, gosto mais de fazer outras coisas. Preciso aprender a fazer o blog sobreviver a isso. Eu acho que curei minha insegurança crônica (ou quase isso). Resolvi dramas que eu pensava que eram mortais. Passei a conviver e a aceitar meus sentimentos sem supervalorizar besteiras. Descobri que muita gente já disse o que eu já disse antes de mim de um jeito bem melhor que o meu (opinião pessoal). Não sinto mais falta de elogios de estranhos pra me provar que eu faço isso bem. Faz tempo que não sinto o impulso de escrever que vinha, geralmente, quando eu tava melancólico e introspectivo me entregando ao tédio, quase que de propósito, pra me lamuriar depois aqui. Aprendi a dizer o que eu quero dizer sem ser prolixo, sem envolver tudo numa trama absurda ou numa construção poética cheia de sinestesia e metáforas loucas, como se o meu ponto de vista fosse importante ao ponto de justificar tantas palavras. Devo ter amadurecido.

      Escrever dá trabalho e exige uma disciplina que eu não tenho. Eu faço com certa naturalidade, mas não é simples. Faz quase duas horas que to digitando e apagando e só sobraram dois parágrafos. É um trabalho que eu não preciso ter, ainda. Vou ser jornalista, sabe? Aí vão me pagar pra eu escrever. Não quero desmerecer os comentários de quem comenta, eu valorizo muito isso. Milhões de coisas distraem a gente na internet, dedicar dois minutos pra emitir uma opinião é algo muito significativo. Mas eu tenho outras prioridades. Tipo... Sei lá, jogar videogame. É mais divertido que escrever. Me cobro quando digito. Eu sou muito autocrítico. Aliás, to achando isso tudo uma merda e se tu estás lendo isso agora é porque eu já liguei o foda-se e isso era pra ser uma conversa... O que é meio ridículo, porque eu to falando sozinho faz quase duas horas... Enfim, o que vocês tem a dizer? O que vocês querem ler? Perguntas é que não é, né? Se eu fosse vocês só responderia: “Algo melhor que isso”… Mentira, não falaria nada, tenho preguiça. Até mais.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Preenchimento.

     

      Quando ouviu o “tac” da porta atrás dela, teve quase certeza que a vida havia mudado. Ela ficou estática na entrada da sala ouvindo a própria respiração, sentindo o mundo girar. Prestou atenção no silêncio esperando ele ser quebrado por alguém escondido em um dos quartos. Ela não ouviu qualquer som além dos ruídos que as coisas fazem quando estão sozinhas. Os olhos dela vagaram pelos móveis durante alguns segundos enquanto seus lábios se afastavam um do outro devagar. Abriu a boca a ponto de poder meter, sem esforço, uma bolinha de ping-pong goela abaixo. Ficou admirando o quão idiota estava seu reflexo na LCD. Não que ela estivesse espantada ou aterrorizada ou surpresa: só queria engolir aquele momento. Ela acreditava que quando comemos aproveitamos a parte boa das coisas.

      O silêncio da sala se estendia feito um véu fino até os outros cômodos do apartamento. Eram duas horas e o mormaço se espalhava envolvendo os sofás, as estantes, a Tv, o home theater, porta-retratos, relógios, vasos, fantasmas, lembranças, os quadros, a mesa, objetos-terrestres-não-identificados, cadeiras e ela. A janela estava semi-aberta e as cortinas brancas dançavam com o vento. O feixe de luz vindo da varanda andava pra lá e pra cá de acordo com a posição do tecido branco. Ela permanecia calada, imóvel, observando como sua casa é quando ninguém mora lá. Pensou na quantidade de lugares assim, espaços que existem sem alguém ou algo existindo neles. Questionou-se a respeito da necessidade de haver pessoas ocupando casas como aquela, ocupando lugares que estavam bem antes de serem ocupados.

      Descalçou-se, deitou-se no tapete de peito para cima e ficou procurando detalhes no teto ampliado pela distância. “O teto só parece sempre igual, mas tá cheio de pequenas nuances, sujeirinhas, rachaduras... Nada é totalmente igual. Merda.”Ela pensava em coisas aleatórias como o teto, o lixo, o barulho, pessoas mal educadas, poluição, falta de espaço, pobreza, até que subitamente lembrou que queria entrar na internet e pensou em checar os emails, baixar uma série, terminar o trabalho, talvez falar com alguém e ouvir uma música qualquer, mas falar com quem e ouvir o quê? Queria dizer que estava sozinha. Só isso: “Estou sozinha. Tchau”. Achou que precisava auto-afirmar sua solidão para deixá-la bem grande. Ficou deitada no chão, porque era mais fácil.

      Aí ela sentiu necessidade de música e levantou-se.  Ligou o som e a sala passou a ecoar o violão e a voz doce do Caetano Veloso. Coisa mais bonita é você, assim, justinho você, eu juro, eu não sei por que você, você é mais bonita que a flor, quem me dera a primavera da flor tivesse todo esse aroma de beleza que é o amor, perfumando a natureza numa forma de mulher... E ela cantou baixinho, sorrindo, dançando abraçada a si mesma: se amando como se fosse outra, como se fosse um príncipe, fingindo que se bastava. E era verdade, porque não havia quem a desmentisse. E não havia o que fazer porque ninguém a cobrou nada. Não havia o que querer, pois não havia ninguém para dar. E nada aconteceu fora ela, livre para ser ela. E viver realmente havia mudado: vivendo a ausência dos outros, ela teve a fantástica ilusão de que toda sua vida dependia apenas dela.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Vago.

      

      Tranca a porta e suja os papeis. E inventa, mesmo que seja errado, inventa. Lá fora as pessoas se agrupam, mas não se compreendem. Falam, mas não se explicam. Mas tu podes justificar a incompreensão e matá-la. As coisas ficam meio sem sentido, às vezes, eu sei. Daí tu precisa criar o sentido, ainda que seja só teu, faz dele tua verdade. Vai, basta olhar em volta e descrever como deveria ser. Nem é tão difícil. Só é te ouvir, ouvir teu silêncio. Longe do barulho desnecessário que tanta gente faz. Aproveita a agonia doce da liberdade. Porque tu és livre, mas não sabes o que fazer contigo. Sente o peso da tua sinceridade desvelando medos. Os medos são sagrados. A luz que entra pela janela ilumina quase nada. E o importante é a luz, não o que ela quase ilumina. Deixa a luz te comover com a fraqueza dela, a inutilidade dela. A pobre claridade tentando mostrar o que não dá pra ser visto. Como as palavras que tu desperdiças tentando expressar o que não tem definição ou forma.

       É só um rio de letras fluindo sozinho, por vontade imprópria. Agora que tu já mergulhaste nele, deixa a correnteza fluir dentro de ti. Brinca com a sensatez que tenta dar coerência às sensações e metaforizar o inexplicável. Ela só serve de desculpa pra ti não te afogar. Sente os poros se abrindo na tua respiração profunda e te entrega à loucura. Não há sanidade quando se perde a lógica. E tu não tens mais nexo. Tu ficas sem coesão e desistes de achar sentidos. Até que apático e quase sem temores, tu morres com o rio. E tu te desfazes indefeso e frustrado. No entanto, não tenho piedade de ti. Eu sinto que algo é belo quando percebo que as coisas que o compõe estão como deveriam estar. A beleza é a única desculpa válida pra vida. Acho bonito teu corpo assim, perdido.

 

Aproveitem. Coloquem uma música delicada e leiam três vezes. Não queria dizer nada de novo, só queria dizer. Na verdade, eu escrevi porque não sabia mais o que fazer. Não que eu esteja desesperado, muito pelo contrário, é que eu fico meio confuso vezenquando. Sei que tem gente que só quer ouvir. Se bobear, alguém vê até beleza nisso. E, como a beleza vai ser pra sempre essencial, talvez isso seja útil de algum jeito. Esse é o meu “alô” pra quem, como eu, acha esse negócio de existir muito estranho.

sábado, 18 de setembro de 2010

Sobre imprevisões.

 

       Não dá pra saber o que vai acontecer. O tempo é uma ideia tão abstrata que qualquer coisa que foge do agora se torna invenção. É inútil ficar analisando, revirando ou discutindo consequências que nem existem ainda. Qualquer suposição, mesmo baseada em uma cadeia infinita de repetições, não passa de hipótese provável. As previsões são apenas brincadeira de adivinhar. A certeza é superstição. A gente não é número pra virar fórmula e variáveis produzindo resultados lógicos e inalterados. Somos mutáveis, inconstantes, surpreendentes, humanos. Os humanos são animais que aprenderam a controlar os instintos e a contrariar a natureza. Somos cheios de defeitos e contradições, mas tomar consciência disso e tentar melhorar foi o que nos faz manteve e nos manterá vivos.

       Sei que muitos de nós causam vergonha e asco e, às vezes, lamentamos por pertencermos a esta raça, mas há outros que compensam os primeiros e nos dão esperança e força. A gente precisa se unir com quem nos compreende pra viver em paz e fazer a nossa parte pra melhorar a merda toda. Uns erros que eu cometi ficaram pra trás junto à parte minha que eles me custaram. A gente muda quando mudamos nossos valores. E eu não pretendo desequilibrar minha balança de novo desvalorizando coisas que me fizeram falta no passado. Sei lá se vou conseguir ou não, mas vou fazer o meu melhor (ou menos pior). Sei que não adianta se preocupar com futuro porque ele é o medo de algo inexistente.

         Viu, migs?

domingo, 5 de setembro de 2010

Chuvinha.

 

      A menina corre pela chuva com a barra do vestido nas mãos. E ela vai desabalada pisando em poças, carros e pessoas. Corre tão despreocupadamente que poderia correr de olhos fechados. E se, por acaso, acontecesse de dar com a cabeça numa árvore desavisada ou de esbarrar com um passante e seu guarda-chuva super-protetor, bom, ela os derrubaria sem piedade e seguiria sua correria como se não fosse nada. Ela não sabe exatamente pra onde vai, mas vai indo assim mesmo. Nem vou tentar entender como ela aguenta carregar essa solidão encharcada. Nem a garotinha sabe. Só sabe que chove e que é gostoso sentir a chuva batendo na cara. Segue nadando, comendo o vento e fazendo calor.

      Mas, de repente, igual a tudo que acontecesse de repente, para de chover. A menininha também para de correr. E ela se vê tão perdida que o desencontro acaba virando tristeza. Ah, se eu fosse o mundo, eu me arranjava e fazia outra chuva bem rapidinho só pra ela voltar a caber em mim direito. Porque agora ela chora um choro imenso e quieto. Um chorinho tão grande e molhado  que faz a  garotinha se lavar todinha da chuva. Então, antes que as lágrimas se acostumassem a nascer sozinhas, ela começa a soltar risos pra acompanhar a choração. E eu fico pensando: ela ri porque não pode fazer nada mais que isso ou porque descobriu que não precisa do céu pra chover? Vai ver é os dois…

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Despedaços.

 

      Há segredos nos minutos que antecedem o sono. Quando a nossa mente vaga meio sem rumo, mareando águas passadas, buscando se afogar. A gente começa a lembrar de coisas gastas, coisas de longe, agora já são quase rabiscos de coisas. Memórias quebradas cujos cacos a gente não mostra pra ninguém. São nossos quebra-cabeças inúteis, são peças teimosas que não ficaram pelo caminho. Cenas, falas, passeios, risos, dores, umas lágrimas. Qualquer coisa assim que veio junto com alguém que já foi embora. Gente com as quais dividimos uma parte da vida. Dividimos, na verdade, pra multiplicar, pra intensificar. Pra nos permitirmos sermos mudados, pra vermos tudo de outro jeito. Pra nos reafirmarmos sendo diferentes.

      De repente, acontece do que nos mudou se mudar da gente. Ir pra outro lado de um jeito tão estranho quanto veio pra o nosso. E descruzamos nossos caminhos, como se fosse normal, porque a vida é assim mesmo: cheia dessa normalidade aparente pra disfarçar toda nossa incompreensão. E aquele pedaço de vida vira memória. Quem era presente vira lembrança. Às vezes a gente pensa nessas coisas pra ajudar a dormir: tentando enganar o tempo pra ver se ajudamos ele a enganar a gente. E os pensamentos vêm tortos, desfocados. São segredos porque quem os fez foi embora e não pode mais ouvi-los. Daí sobra esse apertinho no peito, uma agoniazinha besta e a vontade de voltar atrás juntando caquinhos. Porque a vida é assim mesmo, toda despedaçada, despedaçando aos pouquinhos a gente.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Saber comer.

 

       Eu gosto da vida porque ela é imensa. Se a vida fosse pequena, repetitiva e entediante, eu não a suportaria. Imagina ter que ver os mesmos seis filmes todo o tempo. Ou ouvir sempre as mesmas oito músicas de um único CD. Ou falar só com as mesmas dez pessoas, entre gente da tua família e colegas desagradáveis da tua pré-escola. Ou passar a vida viajando entre três cidades minúsculas onde não há nada além de duas pracinhas sem nenhuma árvore e uma igreja evangélica extremista em cada uma delas. Ou ler sempre o mesmo livro, um livro universal e sem concorrentes, mais chato que a Bíblia, um maldito livro de autoajuda te ensinando a ser feliz num mundo com poucas coisas pra te fazer feliz, um livro escrito pela Ana Maria Braga! O inferno deve ser assim: um tédio eterno, entre sessões de sadomasoquismo e shows de rock... Ou talvez o céu seja até pior: cheio de anjinhos assexuados (e ainda sim afetados: purpurina rosa, cachinhos dourados irritantes e um sorriso de cu que só representa apatia) tocando harpa 24h por dia dividindo espaço com bilhões de almas morféticas jogando dama numa paisagem feita de nuvens fofinhas que não muda nunca. Por via das dúvidas, prefiro ficar por aqui mesmo.

       Apesar dos pesares, eu pelo menos tenho certeza de que amanhã vai ser inédito. Tá certo que a vida às vezes fica previsível demais. A rotina vira uma sucessão de probabilidades que dificilmente não se concretizam. Mas eu tento sempre colocar algo novo no meu dia: um filme, um cantor desconhecido, um texto, um livro, uma conversa bizarra, um caminho diferente, uma merda qualquer que mantenha meu bom humor. O dia vale a pena por pequenas descobertas. Pequenos prazeres, como cantar no banho. Além do mais, as probabilidades são incertezas, e como diz aquela música do Acioli Neto: “se avexe não, que amanhã pode acontecer tudo e inclusive nada". O futuro é indecifrável e pode sim surpreender a gente se estivermos abertos e nos oportunizarmos a isso. É preciso ter fé na gente, no acaso, nessa expectativazinha saudável de esperar pelo desconhecido.

       Até bem pouco tempo atrás, eu não me permitia e não me ajudava a ser feliz porque achava que se eu não devorasse o mundo todo de uma só vez, eu estaria sendo medíocre. Mas a pior mediocridade não tá no que tu não vives e sim em como tu não vives. Tá certo que eu não tô viajando pelas Europa (ainda!), mas pelo menos eu não sou um idiota com a mente fechada que é totalmente avesso ao novo e ao que não compreende. Entendi que a gente precisa comer o mundo aos pouquinhos pra ir aproveitando direito o gosto das coisas. Hoje comi um filme fodástico do Woody Allen e um CD lindo da Nara Leão. E eu posso ficar despreocupado porque vai ter sempre coisa pra comer. Afinal, somos mais de seis bilhões, né? :D

 

Extras:

      Hoje eu acordei indisposto e meio puto. Eu estudo de manhã, durmo poucas horas à noite e quase todos os dias da semana eu acordo assim, normal. Mas hoje aconteceu uma coisa engraçada. Bom, não muito... Foi divertido, vai. Enfim, na saída eu cumprimentei meio emburrado o porteiro e passei apressado pelo portão. Só que o porteiro não tinha aberto totalmente o portão e eu dei uma cabeçada filha-da-puta nele. Aí o cara ficou me olhando com uma cara de preocupado, eu olhei pra ele e tive uma crise de riso! Eu fiquei rindo passando a mão na cabeça e o porteiro ficou sem saber o que fazer. Acho que ele ficou indeciso entre o gelo e o psiquiatra e escolheu só dizer ‘’cuidado’’.

      Esse negócio que aconteceu hoje de manhã me fez perceber que eu to muito bem. Eu to realmente em paz e equilibrado. Seis meses atrás eu voltaria pra casa e escreveria um texto depressivo praguejando a vida por uma merdinha superestimada. Hoje eu percebi que eu aprendi a ser feliz. Vocês tem culpa nisso, acreditem. Pois então, olhando o layout do blog, eu percebo que ele não combina mais comigo, sabe? Não me identifico mais com esses tons de cinzas pesados, essa coisa densa, dark, melancólica, esse carinha sentado aí, cabisbaixo... Quero mudar. Não o nome do blog, porque ele é ótimo e é desnecessário mudar o nome se eu o fizer significar outra coisa mudando só a aparência do site. Com receio de que seja inútil, vos pergunto: o que acham da ideia? (não que eu não vá mudar de qualquer jeito, mas seria legal ler a opinião de quem se importa com o blog :)

A tal da música é essa, ó:     

 

                           (forropop é um cu, forró de raíz é muito, muito legal :)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Ao meu amigo tempo.

 

      Quando eu era criança, o tempo pra mim não existia. Não existia porque eu simplesmente o ignorava. Exceto quando as aulas estavam chatas demais, claro. Mas até hoje demoro uns segundos pra ler as horas nos relógios de ponteiro. Nunca usei relógios eletrônicos. Não media o tempo dos meus programas de Tv favoritos. Sabia mais ou menos em que ponto estava o dia pela quentura, vantagens de morar perto do equador. Vez ou outra a noite me surpreendia no meio da tarde. Eu brincava até depois da hora de voltar pra casa. Brincava toda hora. Mesmo quieto, lendo, desenhando ou inventando histórias em papeis amassados, eu tava brincando. Tudo era brinquedo: um carrinho, uma cadeira, um açaizeiro, o espaço entre a cama e o chão, amigos que não existiam... E eu nem sabia, mas meu brinquedo favorito era o tempo.

     A vida fluía tão naturalmente que eu acho que não fazia sentido me preocupar pra onde ela ia. Era tudo tão simples, fácil, divertido. E, apesar da repetição, os dias nunca ficavam entediantes. As coisas, pequenezas, pareciam novas todos os dias porque eu sabia muito, muito pouco delas. Lembro que eu ficava observando formigas: admirando como aqueles bichos tão pequenos, andavam, carregavam coisas, se batiam e moravam na minha casa, igualzinho a mim! Eu queria ser paleontologista pra criar dinossauros. A vida me saltava aos olhos. Às vezes eu olhava pra o céu e ficava esperando uma estrela cair. Meu olhar curioso fazia tudo ficar empolgante e mágico. Ainda não tinha compreendido como funcionavam as coisas, e eu me incluo nelas.

      Bom, se tu leste a atualização do twitter, sabe que eu tô escrevendo isso porque assisti “O Menino Maluquinho”: um dos filmes que marcaram minha infância (“Meu Primeiro Amor” foi outro hahah). Minha infância foi muito parecida a do personagem: dezenas de amigos de rua, um bom lugar pra brincar, invencionices, traquinagens (palavra meiga, hein?), etc etc. Mas, à medida que a gente vai percebendo melhor o tempo, também vai descobrindo que ele leva embora as coisas. Acho que a inocência é a pior das perdas. O mundo não é tão mágico e bonito quanto eu imaginava que fosse quando queria ter uma fazenda de Tiranossauros Rex. Descobri, por exemplo, que diferente das formigas, tem gente que não tem casa nem nada pra carregar, além da própria sorte.

      Mas, sabe, no fundo, eu continuo o mesmo. Como o Menino Maluquinho, que era maluco porque era feliz, eu cresci e me tornei um cara legal. Eu sigo inventado, criando, me divertindo, procurando manter o bom humor e o otimismo, tentando redescobrir velhas coisas (e as pessoas, e me incluo aqui também), me esforçando pra acreditar nelas e no futuro. Apesar de ter tomado consciência Dele (praticamente Deus) e do que pode fazer, continuo brincando com o tempo. São 3:40 da manhã, eu acordo 7:40 e já tô com sono desde as 2. Daqui a pouco vou sair, passar pela pracinha que eu brincava quando criança e olhar o mundo, por mais outro dia, como se estivesse fazendo pela primeira vez. Porque a gente não pode carregar o tempo e não sabe até quando ele vai carregar a gente, então é preciso prestar bem atenção na vida. Ela também continua a mesma: ainda que não sejam felizes todas as horas, viver é legal.

Ó que bonito:

 

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Insônia.

 

    Tu és o zumbido de antes de dormir. E a bala que me acerta a cabeça quando eu recobro a consciência, às vezes assustado por descobrir estar sonhando contigo. Tua sombra é extensão da sombra dos móveis da sala e eu tomo cuidado pra não pisar em ti, cambaleando de cansaço enquanto caminho à cozinha procurando distrair os sentidos com sensações diferentes do aperto que tu me causa no peito nessas horas estranhas. Mas teu gosto tá na pasta de dentes e o teu cheiro no sabonete. E na coca-cola, no chocolate, na maçã, no biscoito, na batata frita, na Tv, debaixo dos lençóis. Tu ocupas os espaços vazios da casa e eu não tou mais sozinho em lugar nenhum. Te encontro quando fecho as palpebras tentando te perder, em vão. Te ouço em músicas que falam de fugas, de alegrias, de descrenças e de ódio. Te leio em crônicas sobre qualquer coisa. Agora todas as palavras, cantadas, faladas, escritas e pensadas te escondem por trás de significados que não tem nada a ver contigo. Tu significas todas elas porque meus pensamentos, minhas palavras, sempre dão um jeito de desaguar em ti. Eu penso em aulas, gente engraçada e cocô, e,  de repente, penso em ti.

      Contudo, tu és só um passatempo. Uma lembrança requentada. Lixo reciclado. Outra das minhas divagações complexas e inúteis que não me servem de nada. Tu és um ponto de vista pra as músicas do Smiths. Um caleidoscopio que eu montei pra admirar o que eu posso fazer. Uma pergunta que eu já respondi, mas escolho ignorar a resposta. Na verdade, nem embrulho no estômago eu sinto por causa de ti: eu só coloco o dedo na gargante e vomito essas coisas. Tu és só uma desculpa pra eu escrever textos repetidos. Meu novo faz-de-conta favorito. Uma desculpa pra eu dar valor a beijos idiotas. Uma causa poética. Uma mentira conveniente. Uma brincadeira autodestrutiva e divertida que eu posso abrir mão quando eu quiser. Um motivo besta pra assistir filmes delicados. No fundo, tu não tens mais importância que aqueles sonhos bons e estranhos que a gente tem quando dorme com fome e, quando acorda, lembra só de umas partes. Daí a gente inventa as lacunas e  uma continuação pra compensar a frustração de acordar aqui. E eu espero que assumir tudo isso assim, cinicamente, te silencie na minha cabeça e acabe com essa insônia filha-da-puta.

sábado, 31 de julho de 2010

Sobre descobrir.

 

      Não liga pra minha falta de jeito, eu sei que eu sou indelicado e até meio antipático. Mas, às vezes, a educação e euforia soam tão falsas... Parecem escudos, sabe? Eu sei bem quando usar elas e sei quando são desnecessárias. Sinceridade é uma droga viciante que eu uso sempre que acho que vale a pena. E tu vales a pena. Não tenho porque me defender de ti. Talvez tu tenhas motivos de sobra pra fazer o contrário comigo, mas eu os ignoro por egoísmo e inconsequência. Eu sei o quanto as pessoas podem afetar a gente, podem transformar tudo em um inferno escroto ou num sonho lindo. Sei que é mais seguro entupir a vida de gente e manter certa distância de todo mundo, permanecer nas aparências e se divertir com besteiras. Guardar no fundo, longe de todo mundo, o que a gente esconde até de nós mesmos: os sentimentos ruins, as dúvidas assustadoras, o medo do desconhecido, os gostos secretos, os pensamentos indizíveis, as teorias mirabolantes... Eu gosto das tuas profundezas como gosto dos teus detalhes mais aparentes. É tudo tão grande e novo e surpreendente. Eu compreendo a falta de costume de falar sobre essas coisas, mas intimidade não é uma questão de tempo: é só coragem e confiança. O medo de ser incompreendido é horrível, eu sei, mas eu levo jeito pra coisa. Por isso eu não peso palavras pra desenterrar sentimentos que te obriguem a falar. Por isso eu partilho minhas teorias-sociais-conspiratórias-bizarras-bizarras-e-engraçadas. Por isso arrombo portas e solto teus fantasmas. Porque essas palavras são tão concretas que tu podes senti-las descendo pela tua garganta e esquentando teu coração. Elas tocam na tua essência e a fazem brilhar me cegando com uma beleza que ninguém vê. Então não liga se eu te assustar falando algo que tu nunca ouviste: eu sei aonde as pessoas se escondem e sei que é assim que se chega lá. A poesia não é mais importante do que explicar o porquê de gostar ou não dela. Daí vou te escrever versos melodramáticos infantis, metáforas ridículas e rimas pobres só pra tu rir do quanto são idiotas e amá-los porque terei aprendido a te amar e não precisarei explicar o porquê.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Capítulo 1 – Causa e efeito (parte 1)

Seguinte, rapaz, to escrevendo um livro. Só não sei se termino, né. Isso é pra ser uma continuação disso (clique aqui). Então, caso não tenho lido a primeira parte ainda e não queria ler, esse negócio aí embaixo não vai fazer muito sentido. Não vou postar os capítulos todos de uma vez porque ficou grande e eu sei que dá preguiça de ler em computador. Vou postar em partes, esporadicamente. Mas eu preciso da ajuda de vocês, tá? Por favor, comentem e digam o que acham. Isso é importante pra mim. Arte é comunicação, não autoafirmação. Em relação a essa história, isso faz mais diferença ainda. Eu vou me sentir mais seguro pra escrever e continuar. Então, quem ler até o final, faça uma boa ação e dê seu pitaco porque é grátis e faz bem pro o coração ajudar pessoas. haha. Ah! leiam o Égua, doido que tem coisa nova por lá também. Boa leitura. (nem sei o que isso significa direito, mas é uma expressão legal :).

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      Ele agora sonha com ela. Sonha sem querer e acorda meio perturbado. Já se passaram duas semanas. Nada mudou de significativo na vida de nenhum dos dois. Ambos continuaram suas rotinas bestas e elas não se cruzaram em nenhum momento. Eles viraram uma curiosidade sadia, alegre, e um pouquinho frustrante por não poder ser saciada. Vou contar o que aconteceu porque eu sou um narrador bonzinho. Mentira, eu não sou, mas eu tenho que contar a história de forma que ela tenha alguma lógica. Que ninguém me cobre sentido: isso é com vocês. Enfim, foi assim: depois de entregar o papel umedecido de suor, ele correu. Correu sorrindo, desajeitado, louco e feliz. Correu como uma gazela assustada, a moça ficou olhando ele se afastar sem entender porra nenhuma. O rapaz chegou à parada ofegante e pegou o primeiro o ônibus que passou, depois colocou os fones de ouvido e voltou pra casa com o coração socando o peito e um sorriso idiota.

      Tudo que ela lhe deu foi um olhar surpreso. “As sobrancelhas reprovaram tudo... Ela me achou ridículo... Foda-se... Mil vezes foda-se”, enquanto ele pensava nisso, os “fodasses” vibraram baixinho em palavras e a senhora que estava sentada do seu lado, que tinha lá seus sessenta anos, o olhou espantada. Ele a encarou sorrindo de volta e deu uma piscada. Então ela arregalou os olhos, se levantou e foi sentar na cadeira da frente. Ele ficou gargalhando e se divertindo sozinho. Pensou que faria mais sucesso se tivesse um papel, uma caneta e entregasse um bilhete à senhora dizendo que curte loucas-aventuras-sexuais-sadomasoquistas com mulheres grisalhas, enrugadas, com sobrepeso e que já entraram há tempos na menopausa. Alguns passageiros o olharam com pena e ele sentiu pena de volta por eles não estarem rindo.

      Nenhum número de telefone, nenhum nome próprio, nenhuma arroba de nenhum email. Só as palavras injustificadas de um delírio bobo. Um querer tão sincero que ele não conseguiu querer em silêncio. Vocês já fizeram algo só pra não saber o que fazer depois? É como se embebedar: tu ficas eufórico e livre porque acaba desconcertado. Ele até pensou em ir até ela e roubar um beijo de língua, só pra levar uma tapa na cara e ficar gargalhando depois. Mas ela daria a tapa antes dele conseguir enfiar a língua nela e isso não seria muito elegante, da parte dos dois. Além do mais, ele não queria um beijo roubado, queria um beijo pedido. Por isso entregou a carta, pra ela se apaixonar por ele e sofrer desejando seus beijos. Porque ele se apaixonaria se alguém o entregasse algo daquele tipo. E, como ele se acha muito interessante, alguém igualmente muito interessante teria sentimentos semelhantes à paixão despertados. Ele se acha, né, vâmo combinar. Esse cara deve sentir mais prazer tentando beijar de língua os próprios cotovelos do que as bocas de quem não o ache, no mínimo, o máximo. Talvez seja por isso que ele não deixou nenhum contato, afinal: não suportaria a ideia de que alguém que ele superestimou tanto quanto aquela moça o desprezasse. Ele é prepotente: costuma relevar a opinião da maioria das pessoas, porque não leva a sério a maioria das pessoas. Ser ignorado por alguém pelo qual ele teve tanto e tão puro apreço, seria uma merda. Ele preferiu dar-se o benefício da dúvida. Beijar ela não era o mais importante, o importante era ela saber o que ele queria.

      Centenas de hipóteses, conjecturas e suposições passaram pela sua cabeça de vento que teimou em ficar inventando coisas improváveis. Só houve ela durante umas horas, o resto do mundo foi reocupando seu espaço pouco a pouco. Depois de uns dias, ele começou a pensar nela como um brinquedo descartável: ele brincou sozinho só pra quebrá-lo. Contou a história orgulhoso pra seus amigos, mais do que acostumados com suas esquisitices, e as opiniões foram contraditórias: uns o acharam idiota, outros o acharam romântico, idealista, uns disseram que ele foi corajoso e outros o recriminaram por ter sido tão bunda mole. Todos riram e se divertiram muito. Ele se divertia contando e concluiu que, de um jeito torto, aquela moça o fez bem. Fez ele fazer poesia, ainda que feia. Ele já a reviveu narrando a mesma saga sentimental pra umas quinze pessoas diferentes. Sabia que contaria aquilo pra seus netos um dia e daria um conselho melodramático do tipo: “sempre sonhem porque é aí que tá a graça da vida”. E seus netos o achariam um velho esclerosado. Apesar de tudo, ele não ficou obcecado nela. Ela vem em sua cabeça de vez em quando, num daqueles pensamentos bobos que surpreendem a gente vindos de lugar nenhum. Ele pensa, sorri, se recrimina e depois fala baixinho que valeu a pena. Fez o que não precisava ser feito, fez porque quis e sentiu a alma leve depois. Há anos ele não corria. Ela foi um quadro que ele ousou tocar e depois fugiu pra não ser preso. A verdade é que ele foi frouxo e não teve coragem pra rabiscá-lo. Mas ele segue muito bem: até beijou de língua duas outras meninas depois do acontecido pra provar a si mesmo que moça com a camisa do Snoopy foi um jogo que ele jogou e abriu mão de saber o resultado. “A língua dela era só um músculo feio como qualquer outra língua. Além do mais, ela é bem mais encantadora desconhecida, parece perfeita”, falou à Beatriz. Nisso a gente tem que concordar com ele: tudo cabe na incerteza. E línguas são coisas estranhas.

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E aí, o que acharam, hein? Hein? Hein? Caso tenha gostado, espalha pra quem gosta de literatura e de coisas estranhas que tem um maluco escrevendo um livro em um blog e diz pra ler isso. Vou agradecer imensamente, e nem vai ser em silêncio. :D

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Essenciais e, redundantemente, importantíssimas constações no quarto escuro de uma casa vazia.

 

      Eu inventei uma alegria estranha. Ela mora na minha cabeça, entre as minhas sinapses, e faz meu cérebro jorrar gotas de endorfina que molham meu coração, meus olhos e meu sorriso. É estranho isso de estar feliz, sozinho em casa, num quarto escuro, ouvindo o Mark Kozolek (clique, recomendo) e conversando comigo mesmo. Acho que é mais estranho porque eu tô sorrindo pra ninguém (né, mãe?). Mas, ó, isso não faz muita diferença porque ninguém sabe mesmo os motivos que me fazem sorrir. Além de mim. Vou contar o que tem em mim pra eu estar feliz pra isso fazer mais sentido e pra eu, se der sorte, presentear alguém com um sorriso feliz. Ah! Todos os sorrisos são felizes, até os tristes.

     Há pessoas dormindo por todos os lados. Elas provavelmente estão sonhando, mas, como a maioria provavelmente vai esquecer de tudo, isso não faz a menor diferença. Essa noite eu escolhi não falar com nenhum dos meus amigos e ver um filme sobre a vida. Na verdade é sobre a morte, mas sem ela não existiria vida, né? Daí depois eu assisti ao primeiro trabalho do Tim Burton (clique aqui e assista,  é um curta bonito :). É sobre um menininho que gosta de Allan Poe e prefere viver uma fantasia perturbadora e melancólica do que brincar no quintal. Então, eu descobri uma coisa linda: eu escolho ser feliz ou não. Tudo que eu preciso eu tenho dentro de mim. E não preciso me preocupar com coisas catastróficas para pessoas como eu (que gostam de Tim Burton, de filmes que fazem pensar e de falar muito sobre a vida) como a solidão: que deve ser a mais grave delas e também deve explicar o Vicent. Eu tenho pessoas especiais realmente interessadas no que eu sou de verdade (vice-versa), gente que conhece minha essência e que me compreende (ou se esforça muito pra isso, pelo menos).

      Penso. Tem uma descoberta nova em cada lasca na parede descascada. Eu vejo beleza em olhares perdidos na rua e em velhos admirando o tempo passar. Me divirto fazendo sombras disformes contra o teto. O pôr-do-sol coberto por prédios, colorindo o céu de laranja e fazendo o sol virar caleidoscópio é tão lindo. Há um menino de uns três anos, mais ou menos, e ele sempre tá na pracinha, procurando coisas na grama, descobrindo o mundo. Tem as luzes através das janelas de ônibus com David Bowie entupindos os ouvidos e a sensação de que o ônibus tá viajando em outro espaço ou tempo, numa galáxia onde não se precisa compreender nada e tudo é som e movimento, e isso é tão bom. E tem a chuva na janela, às vezes, encolhendo o mundo e te aproximando de ti, cobrindo tudo com mais mistério ainda. E tem um moço que fica vendendo jornais pelos ônibus e ele sempre faz isso sorrindo e fazendo piadas com as noticiais enquanto brinca com os passageiros, e esse cara me dá tanta esperança. Tem também os meninos que dão cambalhotas e se jogam no canal cheio de água poluída quando chove demais, e eles são felizes sujos e pegando doenças. E tem também as senhoras na igreja, de olhos fechados, rezando pra Deus, que vai me perdoar por eu duvidar da existência dele porque eu acho encantadoras as pessoas em transe pela fé, ainda que nem seja em Deus, seja só no tempo. E tem a música e a dança e o canto, e a sensação mágica e indescritível de não pertencer a lugar nenhum só porque tu estás fazendo algo que não é natural ou normal. Tem um filhote vira-lata abandonado, chorando por comida no meio da rua e as lágrimas felizes, dos dois,  por passar a mão na cabeça dele e ver ele te seguindo depois. Tem meus pais e o resto da minha família que me amam incondicionalmente, ainda que eu dê muito menos do que eles peçam e quase nunca faça algo que eles compreendam e justifique esse amor que nem eu entendo, mas admiro e sinto. Tem a minha irmã que eu nunca vi triste e sempre me faz rir, ainda que eu não queira rir. Tem meu cachorro velho, cegueta, surdo e estrupiado que balança o rabo quando me vê e faz eu falar com um animal irracional, fazendo eu esquecer do fato de que eu não sinto nem vontade de falar com certas pessoas... ah, mas eu sei que meu cachorro é mais sensível e me entende mais que muitas delas. E tem a poesia, as palavras, o cinema, o teatro, a fotografia, a pintura e tem as pessoas únicas e interessantes que eu ainda não conheci e tem o Rio, minha paixão, com as montanhas no meio de tudo, as gentes bonitas, o frio da noite e uma infinidade de coisas pra eu explorar. E tem Paris, que eu só conheço por filmes e fotos, mas pela qual vou me apaixonar e trair o Rio... E tem Veneza, tem Barcelona, tem Nova York, tem Amsterdã, São Paulo, San Thiago, Tóquio, Sidney, Rio Branco, Belém... E tem tanto pra eu ver e eu vejo tão bonito. E eu sinto tudo, tanto, toda hora, tem tanta vida represada em mim que eu ressuscitaria um cemitério inteiro. E agora eu consigo compreender que, quando fico triste demais, e só excesso de vida. Se eu fico chato e cabisbaixo, às vezes, é por pura preguiça e comodismo. É só porque eu não me ajudo a extravasar: rir no telefone, ver um pipoqueiro dando comida pros pombos que eu odeio, escrever bilhetes pra desconhecidos, contar uma piada sem graça, ajudar um amigo, reclamar da brutalidade de algumas pessoas, compor uma música triste ou feliz, cantar pra parede, escrever pra ninguém, sorrir no escuro. Decidi que vou me ajudar com afinco: porque é mais importante artistas viverem com arte do que da arte, porque ela tá em cada pedaço de tudo se tu souberes apreciar, e nem é muito importante todo mundo ver e te pagar e parabenizar porque tu consegues fazer isso. E a vida é estranha, maravilhosa e linda demais pra eu ficar me lamuriando e não tentar descobrir os mistérios por trás da beleza de tanta coisa... Vou pelo menos contemplá-los e ser feliz sem entender nada, mas sentido tudo.

sábado, 17 de julho de 2010

Promessa.

beatles2

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Vou ter uma banda chamada Submarino Amarelo… Ou Pepperland… Ou Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Desabafo

 

      Choro um choro de impotência, de raiva, de pequeneza. Um choro de poeira pelo que foi remexido. São lágrimas de constatação, de vergonha. Minha cabeça dói com peso da minha consciência inútil. A alma pesa carregada com uma angustia que não vem de mim, mas é minha. É de todos nós. Eu sofro por ser humano. Por ser mau, egoísta e mesquinho. Por ter perdido a pureza que eu tinha quando eu era criança pra ser entupido com toda a merda que inventaram antes de mim. Nesse momento me rasga por dentro saber que, dentre todos os animais, eu sou o único que sei que existo e que vou deixar de existir e, ainda assim, não faço nada pra melhorar a existência estupidamente difícil de quem sabe o mesmo que eu e luta contra tudo pra fazer isso com o mínimo de dignidade. Sinto muita vergonha do meu egoísmo hipócrita. Tenho culpa (mínima, indireta, involuntária, foda-se) do sofrimento de quem não merece sofrer mais do que eu.

      É como se só agora eu me desse conta da droga que podemos ser, que somos. Preocupados e cegos com as próprias vidas, com os próprios sonhos idiotas, com os próprios problemas gigantescos e sem solução, com merdinhas divertidas. Ignorando que há tanta gente que não tem direito nem de querer mais do que tem pra sobreviver. Esquecendo que tapamos os olhos pra quem se humilha por extinto, pra continuar se humilhando. Vemos o mundo como um parque de diversões com nossos olhos comodistas e imbecis, mas o mesmo mundo visto pelos olhos de uma criança de rua não passa de um campo de guerra. Qual o mundo mais importante? O nosso, claro. Não ligamos pra isso, afinal, não fomos nós quem botamos ela nesse lugar de merda. Nós só o usamos, ele já tava aqui. Fodam-se as crianças. Alguém que cuide delas. Delas e dos cachorros. Melhor é matar o bandido porque ele é mau e faz crianças de rua. Melhor juntar todos os criminosos num país deserto e jogar uma bomba atômica pra acabar com essa raça. Deixa os pobres honestos, porque eles são bons. São como nós, mas pobres: isso é só um detalhe. Nós somos uma raça de bosta.

      Por um instante, pensei sentir toda a dor do mundo. Mas é lógico que esse foi um pensamento melodramático e idiota porque, se eu sentisse toda a dor do mundo, meu coração pararia sobrecarregado no mesmo milésimo de segundo. De todo modo, choro por quem tem frio, por quem está sorrindo e morrendo de fome, choro por quem teve um parente assassinado, choro por quem é ignorado, choro por quem é alcoólatra, choro por quem tem medo de sair na rua, choro pelo choro de crianças assustadas, choro pela raiva de quem se conformou com pouco, choro por quem morreu na guerra, choro por quem mata, choro por quem não sabe, choro por quem não chora e não sente, choro por quem está sozinho, choro pela cagada toda que nós estamos fazendo com a natureza, choro por ela também e choro por mim que, apesar de tudo isso, choro tão pouco. Sim, eu sei que o meu choro é falso, sujo e infantil. Mas é incontrolável. E mesmo tendo decidido fazer algo, é apenas pra eu ter a sensação prepotente e medíocre de que eu tô fazendo a minha parte e pra aliviar essa dorzinha incomoda com algum reconhecimento, prazer e vaidade. Nós vamos continuar matando uns aos outros quase sem perceber. Sem nos importar em fazer isso sem as mãos, mas com o coração. Todos os dias.

 

Não, não sou comunista. Não acredito em porra nenhuma. Não liguem pra mim. É que eu assisti esse filme baseado no livro dessa mulher: estória falsa, porém muita bonita e emocionante. Não pelos exageros, mas pelo o que eles significam e representam. Enfim. Eu nem sei o quanto o filme é responsável por isso, mas eu me sinto muito triste.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Lembrete.

     

“Vida louca vida
Vida imensa
Ninguém vai nos perdoar
Nosso crime não compensa”

Cazuza.

 

       É preciso temer mil vezes mais, um milhão de vezes mais, uma vida insossa que a morte. O fim é inevitável, caminho certo. A vida é labirinto, passagem secreta, caixinha de surpresas. A morte, por mais inesperada que seja, não passa de uma constatação. É só um freio. É necessário andar muito e rápido demais pra  parar fazer algum sentido. A morte de uma existência inexpressiva e vazia é tão insignificante quanto o sofrimento e  a tristeza de quarenta pessoas. Esse sofrimento é amortecido e as pessoas têm mania de se acostumarem à tristeza ou à apatia: com alguns momentos alegres, com muito pouco. A vida não pode ser um sopro: precisa ser um furacão, um tornado, uma explosão. A vida deve ser contagiante, ela deve ferir, envenenar, entupir de vida quantas existências forem possíveis. Minha vida não cabe em mim. Viver precisa ser um exagero.

      Não é a morte: a vida precisa ser feita de sofrimentos, decepções, angustias, frustrações, crises de choro. Apenas sendo feridos por ela descobrimos seus segredos ignorados, suas nuances, seus pequenos sabores, o prazer que podemos tirar da sua fragilidade e das sutilezas felizes que ela esconde embaixo dos nossos olhos gastos de tanto ver merda. Só quando nos vemos na companhia de  nossos próprios demônios aprendemos a chegar aonde as pessoas se escondem e a ver o quanto elas são mais do que aparentam. Apenas sozinhos podemos contemplar despreocupados a estranha beleza que há nos detalhes de tudo. Temos que olhar pra dentro pra limpar os olhos. É preciso espremer o coração até tirar tudo que é falso, deixá-lo forte pra que as coisas verdadeiras o encham com seus sabores fortes e gostosos. Viver é cometer o pecado da gula.

     Mas é necessário força e coragem. É preciso desafiar lógicas, padrões, certezas, pessoas. Arriscar o pescoço e a esperança. Inventar impulsos quando nada mais te motiva. Acreditar em improbabilidades mesmo sem crer em nada. Voar sem asas pra depois cair quebrando as pernas. O que importa, no entanto, são as tentativas de felicidade no presente, não as apostas pra o futuro. Esperar é adiar a vida. E o futuro te fode na próxima esquina: tu entras na rua errada e não dá mais tempo de voltar. Eu tenho pressa, o único tempo que me interessa é agora. E assim vai ser agora e depois. Não me contento com nada menos do que eu quero. E não tenho medo de querer. Quero transbordar minha vida até morrer. E quero viver o suficiente pra transbordar até lá. Viver é uma questão de força e coragem.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Contra a luz da laterna.

 

       Às vezes basta uma fala inesperada. Qualquer coisa estranha e sem sentido que fizesse eu sentir que não compreendo mais porra nenhuma. Um gesto brusco, um tapa na cara, a ameaça de explodir como uma estrela, uma pergunta tosca a um desconhecido distraído, um surto de cleptomania, qualquer coisa. Um ato de coragem e sandice afrontando a vida, um desafio à lógica, um cuspe na cara do medo. Algo que me desequilibrasse e me fizesse rir do absurdo. Uma prova de que se pode ser maior do que toda essa droga que nos cerca. De que o infinito particular pode se expandir até comer tudo.

      Podia ser mostras de indecência ou gritos animalesco. Não toda a hora, porque não quero que vire prova de nada. Não é preciso de justificativas pra ser o que se é. Absurdos grandes assim só quando estiver muito calmo, como agora. Quando é preciso rasgar o silêncio com risadas assustadores. Eu queria uma nota inexistente, uma palavra que signifique algo ainda não inventado, um performance inédita e um sentimento de euforia vindo do prazer de trocar olhares no escuro. Queria que meu peito latajasse por causa do descontrole hormonal provocado pelo cérebro que não manda mais nem em coração, nem em mãos, nem em pensamentos. Então eu teria bons motivos pra sentir. Motivos que eu inventei, guardei e perdi na imensidão que há em ti.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Minha despaixão.

Uma das coisas mais legais que já escrevi. Aqui.

Aliás, peço que, por favor, pra quem segue o vago ou vem aqui atrás de coisas novas, também siga o Égua, Doido!

Vou tentar manter ele atualizado regularmente com textos mais claros, diretos, opinativos e bonitinhos.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Sobre Cus.

 

        “Há uma esperança sincera nos sorrisos que acabam em silêncios. Uma fuga sem jeito nas conversas sobre porra nenhuma. São pensamentos-tortos-não-compartilhados-por-medo. Uma alegria medíocre. Um espaço infinito entre corpos grudados. Um querer insaciável no presente. Uma espera inconsciente por um futuro impossível. Essa fidelidade limitadora. Umas verdades reconfortantemente forjadas. São gestos prontos, obrigações irrecusáveis. A constatação de que tu poderias ser qualquer outra. De que tudo independe de ti, até eu. São essas frases-feitas lindas que não dizem nada. É essa tua incompreensão comodista. Essa tua visão limitada que se recusa a olhar pra dentro, no escuro, no fundo, pra me encontrar lá: um cego rindo sozinho. Tu não consegues me enxergar e eu estou indo embora porque preciso enxergar coisas novas, antes que eu fure meus olhos com raiva por não me surpreenderem mais. Sou eu, tu sabes: é a minha solidão tão inviolável quanto teu cu e a súbita vontade de te mandar socar algo maior que ela nele

Com toda minha sinceridade e rancor,   ”

 

        Ele chorou muito antes de começar a escrever, ainda estava chorando quando enviou e só parou pouco depois do avião pousar. Mas ela chorou muito mais, até bem depois do avião dele pousar. Ambos sabiam que os dois choravam. Ele se sentiu egoísta, mas despertar a raiva e o desprezo dela pareceu ser a melhor solução de fazê-la superar. Não é do tipo que gosta de mau-caratismos. Gostava demais dela. E ela atrapalhava e limitava suas ambições fazendo-o se esquecer de si e do que buscava. Ele sabia que ela também entraria em depressão e isso o consolava. Sabia que ela não entenderia suas razões e que o acharia um covarde por fugir assim. A verdade, no entanto, é que ela sentiu até certa inveja da coragem dele.

        Ela achava sua vida patética, segredo só dela com ela mesma. Queria sair por aí conhecendo lugares, descobrindo pessoas e comprando tralhas. Lógico que ela já havia dito isso a ele, mas, no tom que contava, era como se fosse um plano para o futuro, uma vontade adiável. Ela tentava esconder dela mesma o quanto esse desejo era urgente, porque sabia que saciá-lo exigiria mais dela do que ela estava disposta a dar. Na maior parte do tempo, ela se distraia muito bem. Ele ajudava, claro. A ida dele era uma tentativa de ser mais feliz, ela entendeu e ficou puta por ele ter ido sem se explicar melhor. Ficou puta com ele por ser tão prepotente e com ela mesma por sentir falta dele e, ao mesmo tempo, por não ter escrito o bilhete que acabara de queimar.

       Na semana seguinte, refeita e decidida, fez questão de pedir ao seu amante que a comesse por trás. Ela chorou de novo, porque doeu no início. Sua memória, afinal, era tão comodista quanto sua autoconsciência e logo depois ela riu ao se lembrar que o final da carta dizia pra ela socar algo maior que o dele no cu, ou algo assim. O amante tinha ao menos uns três centímetros a mais. Depois, ela ficou satisfeita e depois agradeceu a ele em pensamento pela boa ideia. O amante era mais divertido e, como diversão distrai melhor, ela continuou se divertindo. Ele desistiu de buscar o que buscar e sua depressão era mais forte que tarjas-preta. Só compreendeu o que faltava quando descobriu estar com AIDS dois meses depois de comer, aos prantos, o cu de uma prostituta viciada: faltava aceitar que certas coisas devem continuar invioláveis se outras não estiverem bem protegidas.

sábado, 22 de maio de 2010

Tu (que um dia vai ler e rir)

 

        Eu vou te invadir enquanto estás distraída e vou te destruir por dentro. Vou estragar tua paz e borrar de vermelho teu equilíbrio desesperado. Vou te apunhalar no peito até que ele jorre a angustia toda que varreste pra debaixo do tapete velho. Quando teus olhos me mirarem doentios e surpresos eu estarei nas tuas entranhas arrombando portas e acordando fantasmas. Eu quero ver tua carne tremer e te sentir sentindo todo o medo do mundo por não compreender quando eu te acontecer. Eu vou arrancar teus pensamentos sombrios pelas raízes e vou colocar no lugar sementes de ilusão que nunca irão brotar. Vou ocupar tuas terras só pelo prazer escroto de possuir. Vou cravar meus dentes no teu pescoço pra te fazer necessitar do meu sangue. Vou te bater na cara pra tu sentir dor bem acordada. Vou morar no teu subconsciente e ser a razão dos teus pesadelos diários. Vou fazer tu ressuscitar as palavras bonitas que te obrigaram a matar. Quero ser teu veneno mortal tua febre delirante tua obsessão incurável tua vontade de viver e morrer. Vou desmembrar teus poemas antigos que esqueceste. E cada brecha e cada continuação de todos os teus pensamentos vão dar em mim. Porque eu vou ser tua causa e a tua consequência. Vou te ferir devagar pra beber tuas lágrimas doces e te ouvir implorando pra que eu continue. Vou saber todos os teus segredos imundos e até aqueles que tu ainda não sabes. Não vou ter pena de mim quando tu me atormentar bêbada sem saber mais o que quer. Vou desvendar teus mistérios e comer da tua merda. Vou te preencher até tu transbordar dolorida. Vou te dar um aborto e uma carta escrita à pena. Vou arrancar tua língua sem tocá-la. Vou desmentir tua esperança. Vou estar no teu quarto quando buscares solidão. Vou me esconder nas tuas músicas favoritas. Vou compreender tua incompreensão. Vais me ver sempre que olhares o espelho. Não vou te atender só pra te desesperar. Vou fazer um casaco com a tua pele e um pingente com teu sexo. Vou me reinventar em mil pra te dar mais surpresas do que podes aguentar. Vou ser o rumo quase certo quando estiveres chorando perdida. Vou te escrever folhas de horríveis poemas líricos pra te fazer pensar que nem a morte te salvaria de mim. Vou infernizar tuas horas de estudo e trabalho pra tu esqueceres essas coisas. Vou ser o gosto de quem tu  buscares pra te perder de mim e tantar em vão te encontrar. Vou te obrigar a falar em silêncio quando estiveres esgotada de tanto berrar. Vou ser o ar noir quando tudo parecer colorido e sem sentido demais. Vou fazer com que perturbes teus amigos comigo até eles começarem a te evitar. Vou ser todas as páginas de todos os teus diários. Vou me embriagar narcísico com teus textos alucinados. Vou navegar entre tuas tempestades insuportáveis e tuas calmarias mais insuportáveis ainda. Vou fazer com que não me queiras pra tu me querer mais. Vou fazer com que percas os sentidos de tanto usá-los. Vou sujar teu corpo com frases soltas pra tu ficares com pena de te limpar. Vou ser todos os teus tragos e tua mais preocupante doença. Vou estar te esperando no fundo de todas as garrafas vazias. Vou ser tua poesia e a tua Tv. Vou citar Drummond Poe Rimbaund Vinícius Lorca Pessoa Lispector Shakespeare Quintana Gabo Caio Chapman Florbela Sartre Dos Anjos Borges Maiakovski Tu e tudo quanto for preciso inventar pra te ver sorrir apalermada. Vou dirigir um clássico baseado no teu pavor de mim pra que tu assistas te torturando até bem antes de tu morrer. Vou ser teus becos sem saída. Tu vais me provar que me ama de jeitos inimagináveis e eu vou dizer que nunca é o suficiente. Vou te congelar quando fizer frio e te derreter quando estiver muito quente. Vou te tatuar um clichê. Vou ser a reza que te perdoa dos pecados que cometeste por mim. Vou ser tua descrença. Vou te dar um pingo de esperança e uma dose de terror. Vou roubar tua alma teu espírito e teus neurônios. Vou beber teus hormônios. Vou escandalizar deus e o mundo pra tu sentir vergonha de sentir vergonha de mim. Vou te dar um anel de plástico e uma árvore morta com nossas inicias. Vou ser teu amigo imaginário. Vou fazer uma promessa e depois vou jurar por ti. E se nada disso der certo e eu te acabar ou tu me acabar e a promessa se quebrar eu te dou um abraço apertado e digo obrigado por existir em mim.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

À noite dentro.

“Listen to the silence, let it ring on.

Eyes, dark grey lenses frightened of the sun.

We would have a fine time living in the night,

Left to blind destruction,

Waiting  for our sight.”                                                                                    Ian Curtis.   (‘brigado)

      

 

      Vaga à noite pelos becos imundos e desertos da parte velha. Às vezes vê uns mendigos mortos, uns deles estão bêbados dançando desesperados, alguns carregam junto uns animais famintos e desiludidos. Não sabe ao certo por que gosta de andar esta hora por estas ruas, mas os hábitos viram vícios, e os vícios explicam-se em si mesmos. Anda devagar, olhos vigiando as sombras, olhos nas sombras vigiando de volta, frio entrando pelas narinas, embrulho no estômago. Os prédios são decrépitos e bonitos. Talvez ande para buscar refúgio no passado, passado que apodrece lento em madrugadas estranhas como esta. De repente, alguma casa dessas desaba, assim, sem aviso, no meio da noite pra não atrapalhar ninguém, e terá um segredo, uma morte.

      E se outro alguém, que também não sabe direito porque está aqui, viesse andando na direção contrária? Se matasse o outro alguém, mesmo sem saber direito por que estaria matando, poderia criar um segredo. Poderia mesmo atear fogo num mendigo, num porre ou num bicho. Poderia mesmo dinamitar uma dessas casas velhas. Incendiar, implodir, jogar uma bomba nuclear. Mas não faz nada, além de andar, sem saber direito o porquê. Não há razões simples pra fazer ou desfazer umas coisas ao invés de outras. Acredita ser mais fácil desfazer-se. Às vezes senta e fica como um mendigo ou um bêbado ou um animal admirando a luz amarela vinda do poste, tão velho quanto os prédios ou a rua. Tudo parece velho demais agora.

      Vê beleza no cenário antigo e vazio, porque também existe à noite sem propósito. Este lugar morrendo, sendo iluminado por uma luz velha, só pra mostrar que está sem nada nem ninguém. Acha que isto deve existir de madrugada só porque precisa continuar a existir, diferente, no dia seguinte, cheio e barulhento. Sabe que se não fosse assim, já teriam substituído isto por outra coisa que assim fosse. Pessoas têm o hábito de matar. Sente que as pessoas não gostam das coisas sozinhas que estão lá só por estarem. Tem a impressão de que as pessoas não gostam de si, por isso criam coisas que sabem que irão matar.

      Mas as pessoas criam coisas, mesmo sabendo que as matarão, porque precisam de suas vidas. Para que suas próprias mortes não lhes doam. Aqui, na noite funda, com suas construções velhas, pessoas desiludidas e animais inúteis, a vida se esconde na morte de tudo. O peito pesa, dá pra sentir uma alegria estranha e quase ter vontade de chorar, de chorar por nada quando percebemos. Tem algo não identificado e sem nome dentro de nós que pulsa lento quando prestamos muita atenção em onde estamos.

      Ouve o estalo alto, as paredes começam a rugir, uma coluna cai em algum lugar, uma parte da fachada derruba o poste, as paredes desmoronam pra dentro e a casa velha desaba sem fazer muito barulho. Vê e sorri, mesmo sem saber direito o porquê. Essas cenas, que a ninguém interessam, são segredos, são nossas vidas, são prédios que desabam em silêncio à noite porque, por mais que a vida seja urgente, o vazio sempre volta pra reocupar seu, nosso, espaço.

sábado, 15 de maio de 2010

Cecília.

      Talvez acontecesse de qualquer forma, porque era noite, porque era ela, porque choveu, porque chuviscava, porque fazia um frio raro, porque havia cansaço, medo, incompreensão, preguiça, solidão. Sentou-se no banco molhado, jogou a mochila no chão, aumentou o volume do ipod e ficou vendo faróis. Estava embaixo de uma árvore que gotejava por causa da água acumulada nas folhas. Era uma praça perigosa, ela achava, porque achavam. Pensamentos soltos: tanta paranóia, tanto medo, nem dentro da gente é seguro, por que eu to preocupada se não tenho nada a perder, não é justo as pessoas terem medo da pobreza que criam, por que essa falsa culpa burguesa idiota agora, foda-se, por que esse discursozinho comunista se não acredito em porra nenhuma, acho justo morrer sendo assaltada por uma criança viciada: um ipod custa trocentas vezes mais que uma pedra de crack, eles só querem crack pra sobreviver sem dor nem desespero, será que crack me ajudaria a viver, que merda é essa, fodam-se os viciados, tão nessa vida porque eles querem, tudo é escolha, caralho vou ser estuprada aqui, vou pra casa, não, vou ficar aqui à noite toda, foda-se.

      Ela dormiu na aula, o professor a acordou e as pessoas riram. Antes havia discutido com uma colega-idiota-egoísta-futil-que-falou-merda. Cansou os músculos da face de tanto forçar risos amarelos. Estavam falando da bunda de algum ator, depois da saia nova de não sei quem, depois falaram que Radiohead é foda e não souberam dizer porque quando ela perguntou por que, depois falaram que a menina da frente era uma putazinha que saiu com o namorado da menina do outro lado da sala, depois combinaram de tomar tequilas, depois ficaram em silêncio e ela agradeceu também em silêncio. Animadas e cansadas de insistir, saíram sem ela que alegou cansaço. A causa real era tristeza, mas essa seria uma desculpa incompreensível para elas. Não estava triste por causa da discussão, nem por causa das colegas conversando sobre coisas desinteressantes, muito menos porque riram dela. Estava triste há tempos por estar cercada de gente que não compreenderia sua tristeza. 22:23, sentiu vontade de fugir pra Europa pra não ser conhecida por ninguém e conhecer pessoas novas. Caminhou até a praça, sentou num banco molhado e ficou olhando faróis.

      Ficar olhando as luzes dos carros, densas e brilhantes, hipnotiza. Pensamento solto: faróis iluminam caminhos que não me levariam a canto nenhum. Uma guitarra chorava em seus ouvidos, sua boca estava entreaberta querendo dizer algo involuntariamente, mas nenhum pensamento concreto passou pela sua cabeça quando ela levantou-se, calma e serena, e caminhou em direção aos faróis. Não estava desesperada, nem com medo, nem contente. Só sentiu vontade de beijar as luzes inúteis. Freios gritando, pessoas olhando, um homem parou a 4x4 e a chamou de filha-da-puta louca. O rapaz desceu do carro enquanto ela permanecia imóvel olhando os faróis. Ele perguntou se ela estava bem, ela tirou os fones, perguntou o quê e depois disse que estava triste. Aí ela riu, caminhou de volta para o banco, pegou sua mochila e decidiu ir pra casa. Mas ele deixou o carro no meio da rua, correu, segurou ela pelo braço e disse, como se quase não a tivesse matado, que a tristeza dela era bonita. Ela não esperava essa reação. Ficou olhando o cara, que começou a sorrir, espantada sem saber o que dizer.

- Precisa ter muita coragem pra mostrar isso assim.

- O quê?

- Vem, te dou uma carona.

- Pra onde?

- Eu que deveria fazer essa pergunta, né?

- Quero ir pra casa, eu acho.

- Onde fica?

- Não sei.

- Tudo bem. Eu te levo.

- Pra onde?

- Tanto faz. É só uma desculpa.

- Pra quê?

- Pra te estuprar que não é.

- Por que não?

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Mais da mesma (merda).

Sei bem que quem vem aqui, definitivamente, não espera encontrar isso. /:
Me sinto até meio em dívida, mesmo sem saber exatamente com quem(s). Talvez até com um outro eu mesmo sem ser esse daí debaixo.
Mas é que eu tô muito bem. Não consigo escrever quando eu tô muito bem. As coisas ficam leves, endorfina, paz e etc.

Preciso estar perturbado, desequilibrado, pra escrever algo que eu julgue digno de ser publicado. As coisas andam tranquilas (até demais). Por ora, só dá só vontade de rir e falar merda pra rir mais. :)


sexta-feira, 23 de abril de 2010

 

      Seguinte, o último texto (o post grande sem título, não essa tuítada ridícula aí debaixo) tem uma carga foda. Acho que foi por causa do estado em que eu o escrevi. Imaginei que se tivesse falado aquelas coisas, naquele estado, ao invés de ter escrito, as palavras feririam muito mais. Gosto de escrever daquele jeito sincero: intuitivamente, sem respirar, deixando os períodos surgirem, permitindo que as frases se completem em si mesmas. É legal essas coisas que embriagam e desequilibram: a gente é muito certinho, muito  reprimido. Se a gente perde o controle sobre o que sente e só sentir e fazer, a gente é livre.

      Daí eu lembrei de um clip muito doido de uma banda canadense chamada Barzin. A menina do clip parece pra caralho com a menina do texto. Então, já que estava coçando minha bolsa escrotal essa semana e não parava de ouvir a Regina Spektor, resolvi aproveitar o clima melancólico provocado pelas chuvas daqui pra fazer um videozinho interpretando aquele texto. Filmei quase nada, só fiz juntar uns clips e videos que peguei  do São Youtube.

      Enfim, apesar dos meus conhecimentos de direção serem quase nulos, o roteiro ficou bacaninha e eu consegui editar colocando os efeitos pra criar as metáforas que eu imaginei. Mas a narração não ficou tão boa, porque eu sou um jumento (infelizmente, a comparação só diz respeito ao raciocínio lógico :( e gravei perto do microfone. De todo jeito, acho que o resultado tá até bonitinho. Se vocês assistirem num domingo de chuva faz mais efeito. Caso não estejam com saco nem espírito pra assistir nove minutos de imagens sombrias, façam pela Regina Spektor que gentilmente me concedeu a trilha sonora. Minha BFF ela.

      Enjoy:

 

 

Pra quem gostou, todas as músicas do video são do album Songs. Tu podes fazer o download aqui.

Espero que alguém tenha sentido algo além de tédio. Inté. ;)

terça-feira, 20 de abril de 2010

Ei, cara, a gente só mata a solidão e se mostra de verdade se for corajoso o suficiente pra aceitar que poucas vezes vale a pena fazer isso.

domingo, 11 de abril de 2010

 

           Às vezes parece que só tem eu. Tu sabes como é. Tu olhaste em volta, estalaste a boca, respiraste fundo e percebeu que não tinha nada pra ver. Por isso te achei foda. Mas já está tão tarde e a noite é tão profunda. Só tem o piano nos meus ouvidos e o escuro. Só não sei o que é mais alto. Será que ainda tem alguma coisa lá fora? Já bebemos e dançamos e suamos tanto. Estás tão cansada. E eu procurando meu porre. Tu deve estar procurando motivos pra continuar procurando alguma coisa. Sei que estás com medo, mas é só porque é noite e estamos muito cansados dos outros e meio bêbados. Foda-se também. Amanhã o sol vai sair, parece. Ou vai chover o dia todo de novo. Tomara que chova. Também gosto de domingos de chuva. Aí a gente tem desculpa pra ficar triste: chuva e ressaca moral. Mas, sabe, teu vômito era bonito. Não o produto final, o ato. Tu, descabelada, indefesa, sem pudor, num banheiro imundo, botando pra fora tuas entranhas, te sujando de ti. Não sorri porque estava bêbado, não. Eu ri porque foi bonito. Tu te sentes meio vazia às vezes mesmo sem ter vomitado? Às vezes parece que só tem eu, sabe? Tipo, por dentro, entende? Tu lembras o que eu disse pra ti antes de tu vomitar? Eu disse que tu és bonita. A verdade é que tu és bonita só vomitando. Tu és normal demais quando não está vomitando. Será que tu gostas de piano, além de vomitar? Tu és culpada pelo meu vazio, me arrependi de ter te beijado vomitada. Teu gosto não é pior que o da cerveja, mas a cerveja não deixa a gente vazio. A culpa é do teu desespero, a culpa é tua. Não precisava de tudo aquilo, não, menina. Porra, é tão difícil pra ti te suportar? Quanto tu bebeste? Cara, é desperdício de grana comprar tanto álcool. Tu és doida pra rasgar dinheiro assim? Tu és doida de ti rasgar assim? Sei lá se tu vai acordar. Eu  já não tava bem, sabe, não precisava da tua merda. Aí quando tu abrir os olhos vai sentir tua cabeça latejando, e amanhã vai chover o dia todo, parece, daí tu sentirás frio e a tua cama macia com teu lençol, que deve ser amarelo ou branco com detalhes rosa, vai querer te matar. E a tua vida vai-se embora na tua preguiça e na tua fraqueza, porque tu vais estar de estômago vazio e agora tu já perdeste o café e o almoço e vai gritar com a tua mãe, talvez até mande ela tomar no cu que nem tu fizeste com aquela tua amiga que era meio idiota. E tu também não vai querer falar com aquela tua amiga que te ajudou, nem com aquela outra que tava meio puta pra caralho, porque tu vai querer ficar sozinha o dia todo na tua cama macia que não espera nada de ti além da tua presença. Tua solidão é como teu vômito: guardada, censurada, esperando pra te sujar toda, não dá pra prender quando vem. Até queria ir aí, se eu soubesse aonde é aí, mas tu me mandaria tomar no cu porque eu começaria a dizer coisas que te exigiriam pensar e a tua cabeça dói e tu não quer ver ninguém. Eu vou assistir um filme amanhã, eu acho, sei lá. Talvez não queira ver ninguém. Acho que iria querer te ver amanhã, não agora porque eu não saberia o que dizer e não quero te beijar porque tu tens gosto de vômito. Amanhã vai fazer sol e as pessoas vão viver a vida delas, parece. Tu vai rezar pra que nenhuma vida vá te procurar, e sabe deus se tu sabes rezar direitinho. Acho que tu vais pensar que eu sou um escroto ou algo do tipo. Mas pra ti pouco importa se eu sou escroto ou bêbado ou aproveitador ou se eu achei bonito teu vômito. Sei lá, depois de amanhã tua solidão vai se esconder. Tu vai te alimentar, talvez até sobreviva ou algo assim. Depois eu te vejo te por pra fora de novo. Às vezes chove o dia todo amanhã. De repente a gente abre os olhos e percebe que não tem nada dentro da gente e tem a impressão estranha de que ninguém pode colocar porra nenhuma pra preencher isso. Aí a gente bebe mais ou trabalha mais ou estuda mais ou assiste algo que a gente não consegue fazer ou conversa sobre o porre ou sobre um filme ou sobre a TV ou sobre qualquer coisa e espera outra noite pra vomitar mais... Parece que só tem tu aí... Pelo menos tu vomitas e gosta de te perder voluntariamente. Estás chovendo aqui, eu acho. Quando a gente abrir os olhos, a gente vai pensar puta que pariu e vai tentar fechá-los, mas aí a gente vai ver um ao outro no escuro e vamos ter vergonha. Porque eu disse que tu estavas sozinha e tu, bêbada, disse que sempre foi. E eu, porque achei que seria legal e não por estar bêbado, disse que eu não existia. Aquele beijo tinha gosto de vômito. Queria saber qual teu gosto agora. Tu deves ter gosto de morango nas manhãs chuvosas de domingo. Só porque eu me lembrei do Caio e achei legal dizer isso e tals. E eu sei lá se a Regina Spektor ou essa semiconsciência que não me deixa dizer tchau, ou se é o medo de ficar sozinho porque já está tarde e minha cabeça dói um pouco e parece que eu não vou lembrar muita coisa, sei lá por que. Medo de esquecer que não tem só tu, nem só eu. Arch your head, you think you are alive, but you are dead, you keep on driving in your car asleep, etc e tal.

sábado, 27 de março de 2010

A Perdição.

 

     Mas faltou a vertigem. E o coração, cretino, acostumou-se ao cheiro e passou a ficar indiferente, sossegado. Foi no tempo das falas repetidas e dos assuntos sem sal. Os diálogos perderam a profundidade e os meus sorrisos. E eu comecei a duvidar da validade do roteiro, a trama descomplicou-se e ficou tudo exageradamente previsível e monótono. Daí que a gente não estava no cinema, não é? Foda-se. Eu tinha o entorpecimento, a ansiedade, o medo, o orgasmo, a perdição. Tudo era intenso e vibrava num nível maior que a realidade aparente das nossas vidas vazias. Nós nos sufocávamos de nós e era bom ressuscitar um monte de vezes. Quando a gente fica sem respirar, mesmo que por pouco tempo, por uns instantes parece que a gente consegue sobreviver só com o que tem dentro. Era feliz quando não queria mais nada. A gente é inteiramente livre quando tudo que queremos é a prisão. Nada importa além das paredes. A verdade é que eu não sei quando ficamos tão entediantes.

     Porque não era tempo que passávamos juntos. Nem tinha tempo, ou não tinha noção, tanto faz, as coisas pulsavam. Caralho... É ruim recobrar a noção de si. Os pensamentos vagam, dão voltas, eu chego a conclusões que não me agradam e lembro que tu dissipavas tudo isso. Nem sei quando tu mudaste e eu mudei contigo. Tanto tempo. Qualquer tempo agora é tanto. Lembrei que existe futuro. Porra, quando foi que te ver deixou de ser um tiro!? Por que a gente deixou de ser droga pra virar passatempo? Não era a companhia um do outro que queríamos, a gente tentava era fazer o outro cometer suicídio. Sentir até não poder mais. Isso soa ridículo e muito escroto agora. Nós não aprendemos a gostar um do outro pra desaprender assim. Nós nos gostávamos antes de existirmos. A gente era certeza, burra, plena. E a gente não teve escolha, como não temos escolha agora. Tenho medo de que tenhamos nos tornado velhos demais.

     Ah, mas nós ficamos resignados. Somos passado. Quanta idiotice. Como é idiota pensar que ainda existimos, já que não somos mais os mesmos. Somos quem? E, principalmente, no que eu penso agora? Sangrar de paixão era o que importava. O que desnorteia é o que nutri. A gente saciava a única fome que tínhamos e o que restava era a contemplação diante do que não compreendíamos. Amor é coisa que a gente guarda pra quem não podemos ou não queremos tocar. As pessoas acreditam em deus, eu acreditava em ti. E tu eras ainda mais sacana. Tudo bem, o fim é só outro caminho, eu consegui chegar em ti, foi bonito, virão outras e eu só estou repetindo esses clichês pra me sentir menos fodido. Mas quem não está fodido, não é? Ao menos fomos inteiros, indecentes, impróprios e sem respeito com nós mesmo... Merda, não tem mais vertigem porque eu estou no chão. Cara, o que foi que aconteceu!?

segunda-feira, 15 de março de 2010

Sobre a fuga.

Aquele mormaço sufocante que entranhava todas as horas de todos os dias foi o que a impulsionou. As horas, sempre iguais, eram preenchidas por obrigações e deveres entediantes que não faziam sentido a ela. E os dias eram apenas seqüências de repetições: acordar, se arrumar, comer, sair, trabalhar, almoçar, trabalhar, voltar, dormir, esquecer, ignorar, rir por rir, relevar, fingir, respirar fundo, essas coisas. Pessoas e tarefas a obrigavam a agir e ela reagia. Era um tanto chato, mas, distraia: tanto as tarefas quanto as pessoas. Ela achava que só sabia fazer isso. Ou que era mais fácil fazer só isso. Questões de aprendizagem e costume. Sentia-se meio perdida e vazia nos finais de semana. E a perdição e o vazio nos deixam meio tristes. Então ela procurava ocupar o tempo com distrações práticas que a fizessem esquecer-se de si.

Ela não sabe ao certo quando começou. Deu pra ter falta de ar e uns apertos no peito. Começou a olhar pra pontos fixos no teto por minutos. Passou a reparar nas coisas a sua volta e teve medo quando pareceu tudo de mentirinha. Viu um futuro como uma desesperadora continuação do presente. Desprezou tão honestamente que achou injusto se recriminar. Sentia que sua vida era só um estado latente precedendo algo que nunca chegava. Tinha umas vontades estranhas de correr por aí ou andar sem rumo de madrugada. Ela não ia porque correr dói e a noite é fria. De repente, as vozes repetindo as mesmas palavras de ontem e anteontem, raramente inventando novas conversas, começaram a incomodar. Aí ela parou de falar e foi procurar o silêncio. Estranharam, insistiram, depois, como habitualmente fazem, desistiram. Como qualquer outro, ela nem era tão importante assim. A pessoa que mandava nela reclamou que ela não estava fazendo o que ela fazia direito. Ela olhou séria e mandou a pessoa se foder e foi mandada embora. Nem era tão importante assim.

As horas sobraram. Ela apreciou as pessoas nos finais de tarde. Fez coleção de frases de livros da biblioteca. Invadiu uma casa velha que era muito bonita. Plantou flores e as viu morrerem. Comeu comida de rico e depois vomitou. Procurou músicas de muito longe. Deu grana pra um mendigo louco que falava de deus. Apaixonou-se por um hippie que fumava maconha e mijava atrás da árvore. Teve uma crise de riso quando uma mulher apressada caiu no chão e deslocou o braço. Reagiu sorrindo a um assalto. Viajou pra uma cidade quase vazia pra andar no mato. Roubou um cacho de bananas e um CD pirata. Ficou bêbada sozinha. Beijou com sinceridade o vizinho do lado, um velhinho que morria só. Assistiu a bons filmes, aqueles de deixar a gente triste. Conheceu uns vagabundos e os chamou de amigos. Fotografou árvores pra elas não morrerem logo. Brincou com as crianças no playground. Fotografou pessoas pra elas se verem. Viu beleza em um cachorro atropelado que agonizava chorando. Comprou um caleidoscópio, um pião e um ioiô. Dormiu quando o sol acordava e conseguiu sonhar acordada enquanto o sol dormia. Correu de saião numa madrugada gelada. Sentiu alívio por as pernas estarem dormentes de tanto serem usadas. Sentiu o suor que saia da quentura de dentro dela. Sentiu que era feliz.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Pergunto o que há contigo

Teus olhos estáticos, mortos

Olhas para mim e sorri triste

Porque não tens nada a dizer

Aí eu te compreendo

Atrás dos teus olhos fixos

Só o vazio dos sorrisos tristes

Por ser inútil olhar em volta



às vezes fica insuportável e sai poesia, mesmo que seja feia.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Oi? (primeira e, talvez, última parte :)

 

       Do que é feito o amor? (ironia) Seria só uma invenção do capitalismo para que gastemos nosso dinheiro com presentes inúteis e idiotas? (/ironia) Ou ele vem da beleza que há na individualidade alheia? Ou talvez, à la louco do narciso, ele venha quando a gente reconhece o que o outro tem de nós? Ou, quem sabe, seja só uma ilusão criado pelo nosso intelecto inventador (que inventa dor... Que merda. Beijo pr’a galera que curte Teatro Mágico. HAHA) para tornar menos animal nosso instinto de procriação? Será só uma criação para disfarçar a carência causada pela nossa natureza que nos obriga o convívio social? Aliás, a mesma natureza que faz de nós, animais sociais, pertencentes à espécie Homo sapiens e providos de intelecto inventador, tão vulneráveis a qualquer estímulo sexual medíocre.

        É claro que se tu és um animal social, estás inserido na espécie Homo sapiens, pertences ao sexo masculino, és provido de intelecto inventador, está no auge da tua maturidade sexual e matando cachorro a grito (expressão que não faço a mínima ideia do que significa, estou com preguiça de procurar a origem e que só uso por ser simpática*), qualquer estímulo sexual medíocre, vindo de alguém aparentemente interessante, vem a ser assaz interessante.

         Ela tem cabelos castanhos. Os fios, lisos, são mais claros nas pontas caídas sobre os ombros nus e escurecem conforme se aproximam da raiz. As sobrancelhas são finas e modeladas. O nariz é bonito e contornado por sardas clarinhas. Ao menos de perfil é bonito. Há narizes bonitos de perfil e feios de frente, quando são menos narizes. As pupilas castanhas estão estáticas fixas num ponto longe, além da rua. Acho que os olhos olham para dentro. Ele também olha para dentro: da roupa. Vamos dar um desconto: ele ainda não a conhece tão bem quanto ela mesma. Portanto, qualquer tentativa de enxergar mais além seria vã, e só mostraria o que ele, em seu estado absorto de patetice, quisesse ver. Assim, nada mais prudente que evitar prejulgamentos parciais e se concentrar na superficialidade concreta e inofensiva das carnes. E que carnes, viu: são muito bem distribuídas, para resumir.

        Faltou descrever a boca. Grande responsável pelo estímulo sexual medíocre que deu origem às demais observações. É uma boca rosa e carnuda. Os lábios superiores são um pouco mais grossos que os inferiores. Eles parecem ter textura de veludo. Ela passou levemente a língua por eles para umedecê-los. Não diria que é uma boca grande. Eu diria que tem o tamanho exato para degustar um pênis de tamanho médio de tal forma que a ação seja prazerosa para ambas as partes. Certo: mais para uma que para outra, mas o mundo é injusto assim mesmo. Ok: eu nunca diria isso. Mas ele, com certeza, diria.

        A pele dela é branca como uma folha de papel. Como uma dessas em que, exatamente agora, nosso amigo gasta palavras. Frases que ele julga divertidas e criativas o suficiente para atrair e prender a atenção da moça até o ponto final, que deverá preceder um sorriso e a vontade de conhecê-lo. Isso, na cabeça doentia dele, se ela for mesmo interessante como parece. Porque, para nosso rapaz desmiolado, uma iniciativa tão sincera, original e bem elaborada despertaria, no mínimo, curiosidade em qualquer um com algum senso de humor e intimidade com as letras. Ou seja: ele acredita mesmo que a sorte lhe pôs na mesa da frente uma moça atraente, dona de uma boca sensual, com um bom discernimento, espírito crítico, senso de humor peculiar, gostos incomuns e pior: num dia em que ela esteja com as taxas hormonais na medida certa para lhe render paciência e boa-vontade para dar trela a desconhecidos estranhos que se acham espertinhos. É, coitadinho.

        Vale salientar, como já notaram os mais observadores, que nosso herói se acha inteligente. E isso, além de prepotente, dá brecha para conflitos existenciais angustiantes já que, inteligente como julga ser, sabe que não deve subestimar os outros e superestimar a si mesmo. Apesar disso, seus processos mentais costumam criar expectativas exageradas em cima dele e, em contrapartida, desmerecer o que se pode esperar da maioria. Daí, contrariado pela própria suposta inteligência, ele adota uma falsa modéstia que mais parece cinismo que humildade. Ele costuma ouvir elogios exaltando sua sensibilidade, sua capacidade de expressão, seu raciocínio rápido e sua capacidade de analisar as coisas: acabou se convencendo disso. Em compensação, só quem se lembra de elogiar sua exótica aparência são sua mãe e sua avó. Sim, coitadinho de novo. Aliás, convenhamos que duas não é um número razoável de opiniões para que alguém que se julga inteligente possa se convencer de qualquer coisa. Além do quê, são pessoas partidárias para as quais os galanteios ele está cagando e andando (*) [mãe, vó <3]. Vale salientar, como já notaram os mais observadores, que nosso herói é perigosamente neurótico.

        Mas voltemos à cena: a moça agora está entretida com dois canudos plásticos. Um azul e um amarelo. Ligou as quatro pontas, juntando um canudinho ao outro, e agora vira, torce, destorce, desvira e pressiona fazendo quadrados, triângulos e pentágonos tortos. Brinca, encara o brinquedo e ri. Parece uma lesa. Ela é estranha o suficiente para justificar a empolgação que cresce em nosso ingênuo amigo que a admira como um cãozinho esfomeado. É uma garota que tem lá seus dezoito, dezenove... Não mais que vinte e três. Isso de idade é algo difícil de deduzir precisamente quando as meninas ganham, enfim, aparência de mulher lá pelos quinze, dezesseis anos. Claro que elas vão adquirindo contornos mais maduros e ganhando expressões mais graves, coisas que o tempo e a vida nos obrigam a aceitar, mas elas conservam a aparência de fruta recentemente amadurecida até os vinte quatro, vinte e seis... Não mais que trinta: quando nós, frutas impotentes que somos, começamos a notar os sinais do apodrecimento e nos inquietamos com o que eles anunciam.

       Retornemos às coisas leves e felizes: nosso rapaz está alvoroçado com a possibilidade de fertilizar a moça com suas sementinhas. Evidente que ele, cínico como é, ignora o motivo óbvio e tenta se enganar repassando mentalmente as razões para estar ali escrevendo para uma desconhecida. Diz que está sinceramente encantado com o ar largado da menina, sua indiferença em relação ao que a cerca, sua despreocupação brincando e sorrindo para canudinhos, sua excentricidade que denota distúrbios psicológicos cativantes, sua blusa do Snoopy, sua solidão em meio às outras mesas, a ele, à rua, ao mundo, ao sol, às outras estrelas, ao interior dos canudos, aos participantes do big brother, a deus, aos grãos de areia... E, afinal, assume que a beleza provocante da moça foi fundamental para lhe prender a atenção sim, porém, garante que suas intenções para com ela vão muito além do simples desejo de acasalar: pequeno, por exemplo, perto da vontade de ir até a essência curiosa de alguém que ri para canudinhos plásticos.

        Papo furado escroto e melodramático. Os advogados podem protestar afirmando que estou sendo insensível e injusto, já que o moço parece mesmo estar interessado na alma e no que há além da pele da menina e que sua justificativa foi honesta e convincente. Mas eu posso lhes provar o contrário. Se quem estivesse sentado adiante dele fosse alguém do sexo masculino, ou alguma moça que não se encaixe em seus padrões e em sua escala de beleza, que vai desde “bonitinha” a “gata pra caralho”, não teria blusinha do Snoppy nem sorrisos idiotas para pedaços de plástico que o mantivesse trinta minutos escrevendo, rezando para ninguém, pedindo para que ela não se canse dos canudinhos e vá embora. Indo mais além, se no lugar da moça fosse um rapaz ou outra moça que não fosse atraente a ele, o mais provável é que ele já não estivesse mais ali: tal pessoa despertaria nele curiosidade, pena, indiferença, medo ou qualquer outro sentimento diferente do tesão que lhe faz ficar ali, gastando o punho. Escrevendo, claro.

        Contudo, assumo que estou sendo irresponsável pintando nosso herói como se ele fosse um tipo descontrolado chegado em travessuras sexuais, como um maníaco da tesourinha qualquer. Longe disso. Nem passa pela sua consciência o mais remoto desejo de copular loucamente com a moça, ainda. Em seu inconsciente, no entanto, ainda já deve ser agora. Por enquanto, ele está mesmo contente em só observar a ela e sua boca macia rindo. Suas ambições e vontades não passam da boca. No entanto, nós sabemos, nós, incluindo nosso amigo, quais sensações e anseios as bocas e suas habitantes línguas provocam em nós, vulneráveis a estímulos sexuais mais medíocres que beijos. E como uma boca com outra boca leva a uma coisa e uma coisa leva à outra e a outra à outra, o motivo maior que leva o rapaz a querer a boca desconhecida é a cobiça, ainda nem nascida, de possuir o resto. Sendo mais imparcial, admito que, muito provavelmente, ele não quer comer ela. Quer beijá-la, sim. É um carinha romântico. Espera, movido por uma esperança irracional, que, em longo prazo, se a aproximação funcionar e a moça confirmar tantas expectativas, contrariando todas as probabilidades, ele possa comer poemas e escrever ela assim, todos os dias. A verdade é que ele espera comer ela e escrever poemas assim, todos os dias. Porque ele não quer comer ela, mas vai querer: bocas são sacanas. E o que é mais legal: ele não vai conseguir e está prestes a ser desprezado de uma forma humilhante. Os argumentos acabaram e só sobrou ela. E, foda-se, eu vou entregar esta porra porque deu um puta trabalho escrever.

 

Continua (?)

Sério, eu comecei essa história num impulso louco, aí ela acabou se desenrolando na minha cabeça e ficou bem grande. Claro que eu preciso desenvolver as ideias e blá blá blá, mas eu sei como conduzir as coisas. Eu só não sei se vale a pena. Que cês acharam? Vale a pena continuar? É melhor eu me entregar à preguiça e deixar por isso mesmo? Quem vai ganhar o BBB? Ê, sacanagem. Eu sei que quem vai ganhar é o Dicesar. (:

Comentem aê, falem mal, digam se deram ao menos um sorriso de canto de boca, se tá bonitinho, se gostaram do personagem eticétera.

Inté.

Ah! Amor, sem paixão, se existe, é comodismo. ;)