quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sentimos a poesia nos instantes. No milésimo de segundo entre a percepção e a reação. Naquele intervalo em que os neurônios estão transmitindo informações e, às vezes, morrem, apagam: a poesia se faz no lapso entre as sinapses, quando a gente sai e não se importa, e nem sabe. Fechamos os olhos pra tentar guardar em vão o aperto no peito. E de repente cessa.

E era necessário tão pouco. Um cheiro de molhado, uns acordes tristes, uma voz rouca, um olhar recém-encontrado. Qualquer dessas sutilezas, aparentemente banais, guardava o poder de nos mostrar pra que vale isso aqui: o porquê de escrever, respirar, crer, ainda que anestesiados e cegos, a gente acreditava na luz. Por causa da poesia escondida nessas sensações letárgicas, se desfazendo pra crescer dentro da gente. A gente flutuava e dava vontade de sorrir. Havia morfina nas coisas.

A poesia eram os impulsos primitivos e as vontades verdadeiras. Os ímpetos de mostrar que estamos vivos e não desperdiçamos isso. Porque tínhamos sensibilidade e paciência pra deixar esses pedacinhos de realidade invadirem os sentidos: o torpor inebriante que sentíamos era a manifestação da nossa natureza primordial. Daqueles tempos remotos em que não havia linguagem pra explicar tudo e nós aceitávamos viver sem saber que estávamos vivos. E já naquele tempo tinham os desejos de se fundir à noite, e de dançar com a parte de dentro do corpo, e de beijar sem se importar com o que sai da outra boca. Havia a mesma euforia e, às vezes, riamos sozinhos. E não era importante saber por que foi bom.

Talvez fosse só a consciência de estarmos aqui e, apesar daqui continuar como estava, ainda resistíamos. Quem sabe, a alegria súbita viesse da mesma energia que faz as estrelas explodirem e os átomos se juntarem e impede que a gente se afogue. A poesia era o simples prazer de existir.

Distraído, o poema me pega enquanto sinto saudades profundas de tempos e vidas que não são meus. Eu ouço a chuva fria gritar sem esperança de acordar os que dormem. Olho o escuro pela  janela que me encara de volta. As palavras escorrem, despretensiosamente, vivas. Desço as pálpebras e tenho a impressão de que a vida me beija só pra depois ir embora e me deixar na ânsia de comê-la.

2 comentários:

André Luiz disse...

tenho sempre essa impressão, tiago! saudade das palavras, acho que voltei...talvez só pra depois ir embora.

Ivan Ryuji disse...

Viver me dá, uma impressão realmente estranha às vezes. Esse tal beijo dado sem pretensões mas... onde é que não existem pretensões??

Lembro-me de que aboli a poesia de minha vida há algumas temporadas. Me doía, mas não era uma dor boa que me fazia orgulhoso de ver a poesia pronta depois. Não, era uma dor ruim que eu preferia não sentir mesmo. Enfim, minha poesia não escrevo mais, pelo menos por ora.
Fico na prosa mesmo. haha

Abraços

IvanRyuji
http://blogdoryuji.blogspot.com/