domingo, 11 de abril de 2010

 

           Às vezes parece que só tem eu. Tu sabes como é. Tu olhaste em volta, estalaste a boca, respiraste fundo e percebeu que não tinha nada pra ver. Por isso te achei foda. Mas já está tão tarde e a noite é tão profunda. Só tem o piano nos meus ouvidos e o escuro. Só não sei o que é mais alto. Será que ainda tem alguma coisa lá fora? Já bebemos e dançamos e suamos tanto. Estás tão cansada. E eu procurando meu porre. Tu deve estar procurando motivos pra continuar procurando alguma coisa. Sei que estás com medo, mas é só porque é noite e estamos muito cansados dos outros e meio bêbados. Foda-se também. Amanhã o sol vai sair, parece. Ou vai chover o dia todo de novo. Tomara que chova. Também gosto de domingos de chuva. Aí a gente tem desculpa pra ficar triste: chuva e ressaca moral. Mas, sabe, teu vômito era bonito. Não o produto final, o ato. Tu, descabelada, indefesa, sem pudor, num banheiro imundo, botando pra fora tuas entranhas, te sujando de ti. Não sorri porque estava bêbado, não. Eu ri porque foi bonito. Tu te sentes meio vazia às vezes mesmo sem ter vomitado? Às vezes parece que só tem eu, sabe? Tipo, por dentro, entende? Tu lembras o que eu disse pra ti antes de tu vomitar? Eu disse que tu és bonita. A verdade é que tu és bonita só vomitando. Tu és normal demais quando não está vomitando. Será que tu gostas de piano, além de vomitar? Tu és culpada pelo meu vazio, me arrependi de ter te beijado vomitada. Teu gosto não é pior que o da cerveja, mas a cerveja não deixa a gente vazio. A culpa é do teu desespero, a culpa é tua. Não precisava de tudo aquilo, não, menina. Porra, é tão difícil pra ti te suportar? Quanto tu bebeste? Cara, é desperdício de grana comprar tanto álcool. Tu és doida pra rasgar dinheiro assim? Tu és doida de ti rasgar assim? Sei lá se tu vai acordar. Eu  já não tava bem, sabe, não precisava da tua merda. Aí quando tu abrir os olhos vai sentir tua cabeça latejando, e amanhã vai chover o dia todo, parece, daí tu sentirás frio e a tua cama macia com teu lençol, que deve ser amarelo ou branco com detalhes rosa, vai querer te matar. E a tua vida vai-se embora na tua preguiça e na tua fraqueza, porque tu vais estar de estômago vazio e agora tu já perdeste o café e o almoço e vai gritar com a tua mãe, talvez até mande ela tomar no cu que nem tu fizeste com aquela tua amiga que era meio idiota. E tu também não vai querer falar com aquela tua amiga que te ajudou, nem com aquela outra que tava meio puta pra caralho, porque tu vai querer ficar sozinha o dia todo na tua cama macia que não espera nada de ti além da tua presença. Tua solidão é como teu vômito: guardada, censurada, esperando pra te sujar toda, não dá pra prender quando vem. Até queria ir aí, se eu soubesse aonde é aí, mas tu me mandaria tomar no cu porque eu começaria a dizer coisas que te exigiriam pensar e a tua cabeça dói e tu não quer ver ninguém. Eu vou assistir um filme amanhã, eu acho, sei lá. Talvez não queira ver ninguém. Acho que iria querer te ver amanhã, não agora porque eu não saberia o que dizer e não quero te beijar porque tu tens gosto de vômito. Amanhã vai fazer sol e as pessoas vão viver a vida delas, parece. Tu vai rezar pra que nenhuma vida vá te procurar, e sabe deus se tu sabes rezar direitinho. Acho que tu vais pensar que eu sou um escroto ou algo do tipo. Mas pra ti pouco importa se eu sou escroto ou bêbado ou aproveitador ou se eu achei bonito teu vômito. Sei lá, depois de amanhã tua solidão vai se esconder. Tu vai te alimentar, talvez até sobreviva ou algo assim. Depois eu te vejo te por pra fora de novo. Às vezes chove o dia todo amanhã. De repente a gente abre os olhos e percebe que não tem nada dentro da gente e tem a impressão estranha de que ninguém pode colocar porra nenhuma pra preencher isso. Aí a gente bebe mais ou trabalha mais ou estuda mais ou assiste algo que a gente não consegue fazer ou conversa sobre o porre ou sobre um filme ou sobre a TV ou sobre qualquer coisa e espera outra noite pra vomitar mais... Parece que só tem tu aí... Pelo menos tu vomitas e gosta de te perder voluntariamente. Estás chovendo aqui, eu acho. Quando a gente abrir os olhos, a gente vai pensar puta que pariu e vai tentar fechá-los, mas aí a gente vai ver um ao outro no escuro e vamos ter vergonha. Porque eu disse que tu estavas sozinha e tu, bêbada, disse que sempre foi. E eu, porque achei que seria legal e não por estar bêbado, disse que eu não existia. Aquele beijo tinha gosto de vômito. Queria saber qual teu gosto agora. Tu deves ter gosto de morango nas manhãs chuvosas de domingo. Só porque eu me lembrei do Caio e achei legal dizer isso e tals. E eu sei lá se a Regina Spektor ou essa semiconsciência que não me deixa dizer tchau, ou se é o medo de ficar sozinho porque já está tarde e minha cabeça dói um pouco e parece que eu não vou lembrar muita coisa, sei lá por que. Medo de esquecer que não tem só tu, nem só eu. Arch your head, you think you are alive, but you are dead, you keep on driving in your car asleep, etc e tal.

11 comentários:

someday disse...

QUE FODA! *o*

Ivan Ryuji disse...

Pô, o meu comentário também começaria com "Que foda!"... ¬¬

Mas então: Demais!!!

Cara, é de prender a respiração. Sério! *-*

Abraço!

Ivan Ryuji
http://blogdoryuji.blogspot.com/

Babi S. disse...

gostei

Babi S. disse...

gostei

Babi S. disse...

gostei

Babi S. disse...

acho que eu gostei três vezes, HAHAHAHA.
o pc deu bug.

Andressa disse...

Eu já disse no post anterior o quanto gostei do seu texto, o quanto achei original. E nesse, digo o mesmo. Adoro o jeito como você escreve, como você expõe a situação, o sentimento. Parabéns.
Beijos
(http://coisasdagarota.blogspot.com/)

Giovanna Iasiniewicz disse...

Hahaha! MUITO bom! Adorei! Parabéns :)

Raphael disse...

É como música, mas em silêncio.
Bonito pacas. Poético, diria.
Parabéns.

L disse...

Porra, menino. O que você diz é um soco na boca do estômago, fico tentando entender depois se gostei ou não. mas sempre decido que gosto, porque é impossível não encantar com teus textos.
(é a Verônica, a proposito)

Odara disse...

Um desabafo de bêbado que ficou muito bom!! Realismo e poesia na dose certa!

Tu viestes logo me tirando no meu blog mas eu curti teus escritos. Tá add no meu!