sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Joana

 

     Joana, desde menina, sonhava em fazer revoluções. Aos oito, queria mudar o mundo todo porque ele era cinza demais. O mundo de Joana era um quintal cimentado. Lá, só tinha verde balançado nos galhos de uma goiabeira solitária. A garota teimou que queria um gramado pra rolar que nem o labrador que tinha visto no comercial de ração. Usando tinta guache, folhas amassadas e Tylenol, ela inventou um produto químico para transformar folhas em grama. A menina pintou um quadrado torto grande o suficiente para sentar com suas cinco bonecas e decretou que ali ela reinaria. A goiabeira morreu quatro dias depois, quase nua. Joana chorou e batizou seu quadrado de Império da Goiaba. Brincou lá sete tardes e rezou sete Pais-Nossos pra árvore. Mas daí choveu fino numa noite e no outro dia só restou do reino de Joana uma mancha verde clara e disforme.

    A garotinha ficou sem comer por três dias e seus pais, preocupados, queriam levá-la ao hospital. Quando foram conversar com ela sobre a situação, Joana surtou. Num excesso de fúria, a menina chamou Deus de irresponsável, injusto e filho de uma puta, quebrou um copo de vidro no chão, chutou paredes e gritou pedindo a árvore de volta. Depois de alguns minutos, ela correu para seu quarto e se deitou soluçando até dormir. Seus pais ficaram atordoados, não sabiam direito com quem ou como a menininha tinha aprendido aquelas coisas. A mãe culpou a Tv, o pai culpou a mãe e a empregada disse que ela estava com o capeta no corpo. Na dúvida, ninguém fez nada. Joana acordou duas horas depois, abraçou os pais, pediu desculpas a eles e a Deus e foi assistir desenhos.

    Os pais foram conversar com ela e Joana explicou que estava doente de tristeza e que tinha o direito de não comer. Ela disse que matou uma árvore pra nada e que morrer por uma causa inútil é muito dramático, logo, precisava agir à altura. Contou que quando a tristeza é muito grande, ela precisa ser exagerada pra ser bem compreendida. A mãe de Joana, espantada, perguntou onde ela tinha ouvido aquilo e a menina disse que sabia porque sabia. O pai insistiu, mas a garotinha só falava que não ia acontecer de novo porque já aprendeu. Angustiados, os dois pediram pra ela explicar de novo. Então, Joana disse que só fez aquilo porque estava com raiva. Os pais fingiram que entenderam, abraçaram a garota e pediram pra ela não fazer mais nada parecido. A mãe foi ver novela, o pai foi fazer relatórios. A menina ficava muito tempo com ela mesma. Quando nos conhecemos bem demais, ficamos meio estranhos aos olhos dos outros.

4 comentários:

Clara disse...

e aos nossos próprios olhos também...
Achei lindo o conto, cheio de sinestesia e imagens bacanas.
Mas eu venho aqui pra te dizer um negócio meio desagradável... a autora desse blog: http://d-vagando.blogspot.com/ vem copiando vários textos seus, descobri ao me deparar com um meu lá e em seguida coloquei trechos de outros no google para ver se eram autorais... bem, alguns me trouxeram até aqui, achei que você deveria ser avisado.

Jônatas Santos disse...

Bacana o conto. Mas confesso que quando nos conhecemos pouco também somos objetos de estranheza e, talvez, seja essa a pior das coisas.

Mariposa Apaixonada de Guadalupe disse...

Muito bom. Engraçado o quanto, dentro desses ambientes, surgem Joanas incompreendidas e surpreendentes. Quando as pessoas se conhecem demais, acabam percebendo as nuances dos outros também,sem que estes estejam acordados o suficiente para perceber... Não sei, é o que eu acho...

Tiago Júlio disse...

'Brigado de verdade pelos coments, pessoas.