terça-feira, 8 de julho de 2008

Conto de Um Bêbado Rememoriado.

Quanta idiotice. Acreditei de verdade que esse ar espesso, quase intransponível; esse povo estranho e alcoolizado, ecoando gritos abafados; e as anestesias... Uísque, vodka, tequila... Fariam-me esquecer o dia, a semana, talvez o mês, quem sabe a vida, se contrariando o improbabilíssimo, eu tivesse um pouco de sorte, não é? Não, não sei o que é essa amarelada... Déjà vu... Mas daquela vez era sólido, ou talvez fosse viscoso, gasoso, sei lá. Essa fumaça não arde teus olhos? Não, não, longe de mim. Mas se ela amarelasse ou invés de avermelhar serviria pra algo melhor do que destruir nossos pulmões. Cara, o amarelo vai sempre lembrá-la, e eu poderia, enfim, ser exorcizado se descobrisse que o espírito que me possuiu, e me arrebenta por dentro, é só mais um entre o resto: sem cor, sem dança, sem beleza, sem palavras ou poesia... Ai, ai, essa gente é deprimente, não acha? Ao menos toca Beatles: ‘‘pools of sorrow, waves of joy are drifting through my opened mind, possessing and caressing me…’’. E a luz roxa? Precipitando uma atmosfera surreal e escrota sobre as pessoas, deixa-as ainda mais perturbadoras... Desculpa, é hábito. Deve ser o etílico amarelo, sei que é ele, os outros não fazem mais efeito. Outrora foi o amarelo também, nunca tinha visto naquela cor. Quer que eu fale do que eu quero esquecer? Não, não iria conseguir mesmo. Não sei o que vim fazer aqui. Acho que, inconscientemente, só tenha vindo pra beber fluido amarelo outra vez, apesar do efeito da embriaguez nunca ter passado, não lembro mais o gosto, e o gosto faz tanta falta que mortifica tudo... Não é cerveja, nem quero saber o que é também, pra mim são íris que sofreram fusão, tem exatamente o mesmo tom, um pouco mais escuro quem sabe. Pode rir, eu mesmo me acho tragicamente cômico com toda essa pieguice inútil. Remoendo acho que posso triturar, é ridículo. Não lembro mais, faz tempo. Hã? Bom, tentar passar no meio dessa multidão, respirar o sereno da noite, sentir frio, andar cambaleando pelas ruas desertas, talvez alguma me leve ao apartamento. Se eu conseguir chegar lá antes de desmaiar por aí, narro a história de um bêbado cujo maior sonho era ser desmemoriado, ou um moribundo na cama da UTI sentindo saudades antecipadas de sua mulher, um suicida pisado e desiludido abrindo a janela do sétimo andar, o conto do mendigo apaixonado, por que não? Todos são personagens do mesmo ator de coração vagabundo, perdido, dominado por eles e no meio dos próprios cacos abandonados, protagonizando casos confusos sem finais felizes. Ah! O final é a melhor parte: ‘’Limitless undying love, which shines around me like a million suns and calls me on and on, across the universe. Nothing’s gonna change my world…’’

10 comentários:

ana disse...

e os eus galhos vão me arborizando nu

cachaça - vanguart

amo,amo.

ana disse...

*teus

Lizandra disse...

comento o post anterior, a ilustração dele. lindos.
E Domerina é quem quiser que seja, quem quiser nomear.

Boa noite.

(...) disse...

Extraordinariamente poético e comovente.

a clara menina Clara disse...

Quem sabe essa seja mais uma história qualquer de um bêbado qualuer que só precisa colocar pra fora o que o suga, de uma forma avassaladora, pra dentro? Quem sabe esse mesmo bêbado, de coração vagabundo, imerso em suas próprias palavras e fluidos amarelos apenas precise se livrar de toda essa bagagem de pieguice inútil e se jogar aonde ele mais quer.
Quem sabe?
Eu não sei.
Só sei que gostei bastante daqui.

Quanto ao amor.. ele é e pronto. Dentro, fora, realizado ou não, é como tu dissesse: "tem o mesmo cheiro."
Volta quando quiser por lá!
beijo

Luciana Clarissa disse...

"Todos são personagens do mesmo ator de coração vagabundo, perdido, dominado por eles e no meio dos próprios cacos abandonados, protagonizando casos confusos sem finais felizes."

Nossa, sem mais palavras: IMPRESSIONANTE!
Parabéns.
volte sempre.
;*

Luciana Clarissa disse...

"Todos são personagens do mesmo ator de coração vagabundo, perdido, dominado por eles e no meio dos próprios cacos abandonados, protagonizando casos confusos sem finais felizes."

Nossa, sem mais palavras: IMPRESSIONANTE!
Parabéns.
volte sempre.
;*

Luciana Clarissa disse...

"Todos são personagens do mesmo ator de coração vagabundo, perdido, dominado por eles e no meio dos próprios cacos abandonados, protagonizando casos confusos sem finais felizes."

Nossa, sem mais palavras: IMPRESSIONANTE!
Parabéns.
volte sempre.
;*

Filipe Garcia disse...

Descrição impecável. Seu humanismo assusta.

Aplausos

paula disse...

quem nunca já tentou perder a memória com música e com bebida?
e no dia seguinte remoer de novo e não conseguir triturar de novo. esquecer do que quer que seja é um dos exercícios mais difíceis mesmo.