sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Capítulo 1 - Parte 1 - Izabel

Claro, claro. Sei das conseqüências horríveis que um porre me traz no dia seguinte: dor de cabeça fraca e aguda, indisposição angustiante, perda do raciocínio rápido, confusão, gosto de bílis, uma fraqueza latejando e amortecendo cada um dos meus músculos e o pior: amnésia. Felizmente, não sinto nada estranho na retaguarda.

Eu, geralmente, sei dos efeitos errados do que eu faço ou deixo de fazer. E se eu não sei, eu simplesmente finjo saber. Não ter domínio sobre o que acontece comigo, não gosto dessa idéia. Para mim, não ter o controle sobre a própria vida é fraqueza, covardia ou burrice (com ressalva aos casos especiais, por favor). Já fui fraco, covarde e burro, por isso afirmo com tanta segurança.

Quando a gente faz muitas vezes o mesmo, vemos as hipóteses se transformarem em causas lógicas. Acredito em exceções sim, mas não quando tratamos de pessoas. Pessoas não são regras: pessoas, por si, são conjecturas, e as conjecturas reúnem todas as exceções.

- Ainda estás bêbado.

Eu ainda estou bêbado. A glicose da coca-cola me trouxe de volta, o álcool se diluiu na amônia e escapou sujando o vaso sanitário, eu ainda estou porre. Vendo a luz entrar pela fresta da veneziana e fazer uma linha fina na parede manchada de vômito. Sentindo trinta pregos, eles foram espalhados estrategicamente por debaixo do colchão para me torturar da melhor maneira possível. O estômago, ferido, reclamando do seu vazio. Ah, se o estômago soubesse do resto, iria se sentir um escroto por reclamar. Tenho sabor de merda que sai da minha boca e se espalha pelo corpo.

- Ontem foi bom.

Ontem. Então foi ontem. Se fosse há três minutos faria mais sentido: continua na minha língua o sabor de suco gástrico, e não é o meu suco gástrico. Ela está abominável e minhas diversões estão cada vez mais sórdidas:

Observo em silêncio os cabelos negros desgrenhados: algum cabeleireiro, desses bem gays, diria que é um penteado pós-moderno muito bem feito, tamanha a beleza da desconstrução. Uns fios estão colados na pele alva: molhados, talvez, por uísque, conhaque, gim, cerveja, vinho, minha baba, meu suor e sabe o mais o quê tenha saído de mim. Os olhos estão fundos e abrigam íris que cintilam invadidas por uma felicidade curiosa, as olheiras dão um toque de criança mal tratada completado pelas as orbitas que me miram de um jeito quase inocente (como se pudessemos ser culpados por um crime que nunca foi cometido). A bochecha direita, única visível e ainda levemente rosada, desvia a visão para o fio de baba escorrendo dos lábios grandes e finos. O corpo estirado no chão realça as curvas: os seios cuspidos para fora do sutiã comprimidos com o chão, as costas brancas indicando o caminho para as nádegas empinadas brilhando na pouca luminosidade do quarto e conduzindo a vista para as pernas torneadas. Tem vômito também nas pernas torneadas. Ela tem a cabeça virada para mim e o sorriso deformado pela pressão do lado esquerdo do rosto contra a imundice do piso. Sorriso vazio que não quer expressar nada: tão natural quanto o torpor de um êxtase que existe só para ser sentido e permitir que apenas, de forma única e fatal, sintamos.

-Sabe, as pessoas vêem beleza na tristeza. Mas a tristeza é muito dramatizada, fica artificial. Tua decadência e podridão têm um realismo tão grande... Tu és linda.

10 comentários:

Tiago Júlio disse...

Capítulo 1 - Parte 1.
Difícil é terminar um livro.

André Luiz disse...

ainda estou bêbado.

Difícil também é começar um livro.

Jaya disse...

Tiago,

Você não sabe o quanto fiquei contente ao ler teu comentário dizendo sobre o livro. Seria um pecado se assim não fosse. Você e as palavras se entendem de forma tão exata, que muito me estranharia se você não aproveitasse esse dom. E dividisse com a gente. [Por favor, néam?]. Sabe do que mais? Eu sugeri que você postasse capítulos do livro aqui, sem nem imaginar que o presente viria. E veio! Aaaaah, rapaz! MUITO BOM!

Antes de ler aqui, li o post abaixo. Preciso dizer que o efeito dele, em mim, foi tal qual uma dose de uma bebida qualquer. Fui ficando embriagada, sim. Inexplicavelmente, me senti tonta. Me peguei pensando em absurdos [teorizando]. E dei risadas desconexas. Foi. Não é estranho isso de pegar o sentido das palavras e transfigurá-los em si durante a leitura? Como você faz? :D E aquele teu: “haha. adoro escrever, cara.”? Achei o máximo. A cara de alguém com porre. Rs.

Sobre esse Capítulo I? Bêibe, foi um escândalo! Tiago, eu, se fumasse, teria acendido um cigarro, ido pra janela, pedido céu, olhando luzes desconexas da cidade, torcendo os cabelos, e com o olhar perdido. Eu fico achando impossível ler teus textos estática na cadeira, e olhando pra tela, como se tua palavras não gerassem uma inquietude instantânea na gente.

O texto é todo muito bem amarrado. No segundo parágrafo, as atitudes são minhas. Haha. E mais abaixo, eu fui pegando um tom de Augusto dos Anjos. Aquilo de “escarra nessa boca que te beija”. E aí já era. A gente vai se borrando nas pontuações e pronto. A decadência e podridão da personagem, foi sentida. Visualizada. Palpável. Não ouso discordar da beleza, adjetivada por você.

Ei, o que você ainda tá fazendo aqui lendo meu comentário? Vai escrever, fazenfavô! Hahaha.

Beijos.

Ah! Outra coisa: é ótimo saber que você tem ciência da tua boa escrita. Vai ver por isso - mas não somente por isso - , as palavras carregam essa firmeza. Como se o lugar para plantá-las fosse já previamente analisado, tamanha a eficácia da linearidade [ou falta dela].

P.S.: Ainda não voltei, por lá. Mas daqui, não me afasto.

Mai disse...

Olá, Tiago,

voltei e que felicidade e delícia de texto este.
"...a retaguarda é..." Ainda bem porque mesmo amnésico, nada consta!

Muito bom.
Anuncies a editora e detalhes.

Abraços.

Bill Stein Husenbar disse...

Feliz por ter lido

http://desabafos-solitarios.blogspot.com/

Filipe Garcia disse...

Tiago,

não sei sua real intenção, mas suas linhas me trouxeram tantos arrepios. Nojo do quadro, asco da mulher vomitada, suja, entregue ao chão. Acredito que um texto, pra ser bom, tem que provocar um efeito, qualquer que seja, no leitor. E você incomodou, Tiago. Incomodou com essa insistência sobre a sujeira, sobre o vazio, sobre a embriaguez humana e a decadência que ela produz. É a ressaca da alma, as conseqüencias de atos mal planejados e de passos trôpegos, sem muita firmeza.

Você, rapaz, é uma dessas raridades que se vê por aí. Talento não te falta.

Um abraço;

Gabriela M. disse...

bêbados dizem cada coisa.
talvez digam tudo o que vem na mente, ou que venha do coração. tenho um forte motivo pra acreditar que eles são mais sinceros do que as pessoas sóbrias.


Você disse "não seja egoísta."
eu acho que entendi, mas não tenho certeza. explica?


;DD

a clara menina Clara disse...

eu quero muito esse livro, muito.

Mariana disse...

Não tenho nada para dizer...

é serio...

eu li, mas nao sei o que comentar...

felipe lima disse...

se isso não é profissional, meu amigo, difícil é saber o que é.