terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Prólogo - O Porre.

Prólogo.


Cores brilhando num doce delicado ( quase imperceptível pelas minhas pupilas dilatadas), sons suaves (evidentemente inaudíveis não fosse o resto), cheiro de vermelho (vermelho escuro, mangenta), o gosto de jasmim ardendo em minhas papilas gustativas e a visão embaçada graças ao... Bom, eram etílicos, e o último tinha sabor cru, algo de merda.


Não, isso não é, nem será, pseudo-poesia: a sinestesia é a melhor forma de (tentar) demonstrar o enlace e a desorganização da realidade, com os sentidos ferrados e misturados uns com os outros, parece tudo mais desencaixado do que já é... Sim, tudo apenas parece mais.


Gosto e sabor não são o mesmo: é bom esclarecer isso antes de entrar em pormenores mais aprofundados o que, muito provavelmente, me renderá dezenas de julgamentos equivocados que não farão justiça à minha complacente pessoa (se é que mais vinte pessoas lerão isso, claro). Não, não é culpa de ninguém: somos todos nutridos por um falso moralismo hipócrita, além é lógico, da mágica mediocridade que trancafia nossas amáveis mentes num mundinho escroto sustentado por conceitos, convenções e regras inventadas antes de nós para impedir que nós inventemos.
Sabe, tenha várias teorias, mas todas sem nenhuma base científica e quase nenhuma comprovação prática. Eu crio porque criar teorias é um jeito legal de pensar, além de servirem pra justificar, do meu modo, as porcarias que eu observo:
Teoria I - Se surgirem muitas invenções e inventores ao mesmo tempo, as coisas saem dos trilhos: o que mais há por aí são maquinistas vestidos com aquelas boinas ridículas que não sabem o que fazer, a não ser, guiar o trem (e arrastar um bom número de passageiros, todos, evidentemente, muito entediados) linearmente e imutavelmente até a última parada.
Para as pessoas mais esclarecidas (ou àquelas que, ao menos, sabem que não deveriam saber de porra nenhuma) se mesmo para essas eu parecer insensível e imoral, admito que me chamem de desumano (ou sádico, se preferem), mas, não aceito ser chamado de desonesto. Muitas coisas serão ditas, e é lógico que nem todas serão verdadeiras, porém, eu guardarei as mentiras e incertezas para vocês. Entre as relações humanas, a sinceridade exagerada e a honestidade a troco de nada são bem mais interessantes do que as farsas que, além de não me convencerem e terem prazo de validade, denunciam fraqueza e medo: tenho ambos, mas não vamos esquecer que eu estou porre.


Acontece que nós bebemos um pouco de um monte de destilados vagabundos (que, aliás, eu nem sabia que existiam) e agora eu estou num transe doido. Foram doses de quaisquer coisas (acho que algumas nem eram tão líquidas assim) que se misturaram na medida certa: ainda que eu não faça a mínima noção de onde está meu eixo de gravidade e mesmo com a vista um pouco embaçanda, ao invés de me tirarem a consciência, as substâncias desconhecidas ampliaram minha capacidade percepção a ponto de eu conseguir tatear e moldar o que eu tenho cultivado pela minha parca racionalidade (mentira. Tirando o teto sobre a minha cabeça, os trinta e quatro reais e sessenta centavos no bolso, o aluguel, as outras contas, o trabalho besta e a minha humilde capacidade de escrever, eu sou um porre igual àquele mendigo estirado na fachada do prédio, porém, mais bonitinho).
Ao menos nela o efeito foi bem menos meigo: gritou para o edifício inteiro ouvir e chorou feito criança mimada sua frustração devido à incapacidade de levar as relações com a amiga de trabalho a outro nível. Depois ela caiu languida no chão aveludado da sala e, antes de finalmente atingir os estados mais elevados do inconsciente, sujou com um vômito castanho claro o tapete de lã francês límpido que, com certeza, pagaria meio ano do meu aluguel.
Não a trago pra cama não por vingança, por pura revolta: eu não faço muito esforço pra compreender, embora a dificuldade absurda pra respeitar os dramas e tragédias emocionais de qualquer um (francamente, mais por distração e nostalgia que preocupação). Mas não tolero em hipótese alguma ser confundido e chamado de Carla, ainda que no meio duma embriaguez horrível e da confusão maluca de pés, braços e línguas (por mais amiga que a alcoólatra seja).
Agora começo a sentir algo parecido com pena, mas, infelizmente, sou um bêbado orgulhoso demais e sei que também ela não iria gostar de atitudes minhas movidas por um sentimento tão humilhante quanto à pena.


Bom, eu to visivelmente (e literalmente) alcoolizado, então, por favor, perdoem digressões sem muito sentido, a falta de conectivos entre as idéias ou a perda do rumo da narrativa (e isso não é justificativa pra minha falta de coesão e coerência textual: culpem o etanol, ele não pode se defender mesmo).

Preciso agora afundar o colchão Queen Mola Pocket Super Luxo Light Stress com o peso que nem sabia que eu tinha, me fundir ao cetim do lençol, derramar saliva misturada à emese no cobertor de seda lilás, e torcer para a Terra parar de rotacionar a esmo em todas as direções possíveis e improváveis.





haha. adoro escrever, cara.

3 comentários:

André Luiz disse...

to precisando desse porre.
é o que sobra depois daquela coisa toda que acabou..

Thaís Nóbrega disse...

Eu tenho diversas teorias também, quase todas nascidas durante os meus porres.
Sabe o que indico? Brave New World, do Aldous Huxley.

vale a pena. ;)

matheuss disse...

teus textos são muito bons. vou te falar o que muita gente já me disse, escreve um livro. foi pro favoritos.