sábado, 19 de novembro de 2011

Estruturas Metálicas.

*Conheci Waldir enquanto fazia uma reportagem sobre tratamento psicológico na rede pública. Essa é uma parte da história dele.

 

     Waldir conta que sabe falar francês e que sua vida era bem melhor quando ganhava em euros, no período em que trabalhou no Centro Espacial de Kouru. Waldir tem 46 anos e é de Campina Grande, Paraíba. O Centro Espacial a que se refere fica perto de Caiena, capital da Guiana Francesa. “Eu trabalhava com estruturas metálicas lá. O Centro é mantido pela Agência Espacial Europeia pra o lançamento de foguetes”, explica empolgado. Waldir diz que uma vez foi parado pela polícia de fronteira. Como ele estava sem passaporte, carteira de trabalho ou qualquer documento que atestasse a regularidade da sua situação, conta que foi deportado como imigrante ilegal e voltou para Campina Grande.

      Aos 15 anos, Waldir diz que veio para Belém e depois foi para o Amapá atravessar a fronteira com a Guiana ilegalmente. “Na minha terra ninguém trabalha com isso, por isso eu vim pra Belém com o meu pai. Trabalhei em Kouru com estruturas metálicas. Lá eles lançam foguetes. É coisa mantida por uma Agência Europeia”, diz. Ele se confunde com as datas e faz força para lembrar detalhes que chegam desencontrados. Os olhos azuis de Waldir contrastam com sua pele queimada. Às vezes ele abaixa a cabeça e a fala fica um pouco relutante, como se duvidasse dela mesma.

      Há cinco anos, Waldir diz que tentou repetir a mesma saga que lhe trouxe a Belém trinta anos atrás. “Eu ia atravessar a fronteira com o Amapá pra trabalhar com estruturas metálicas lá na Guiana. Eu trabalho com estruturas metálicas e eles têm um Centro Espacial lá”, conta. Dessa vez, Waldir não conseguiria chegar até a Guiana. Ele fala que assim que chegou à rodoviária de Belém teve todos os seus pertences e documentos roubados enquanto sofria um ataque epiléptico. Desde então, Waldir mora nas ruas e afirma que consegue dinheiro fazendo bicos como eletricista e produzindo estruturas metálicas. “Na rua ninguém respeita. Ninguém ajuda. Já sofri várias agressões enquanto tava tendo ataque”, fala.

      Waldir freqüenta um centro de recuperação para dependentes químicos. A assistente social que o acompanha fala que o uso prolongado do álcool causou danos cerebrais que não podem ser revertidos. Ela explica que não dá para identificar exatamente o que é verdade e o que é delírio. Waldir precisa voltar para as ruas todo final de tarde porque não há residências terapêuticas que acolham moradores de rua como ele. Vez ou outra aparece no centro com sinais de agressão.

      Um promotor ficou de arranjar vaga em um abrigo e Waldir espera ansioso pela chance de dormir em uma cama. “O promotor ficou de me ajudar, mas eu quero mesmo é voltar pra minha terra”, conta. No centro em que é atendido, já foi tentado contato com sua família na Paraíba. Ninguém se mostrou interessado em saber notícias suas. A assistente social explica que em casos assim a rejeição familiar pode ser grande. O maior sonho de Waldir é rever a mãe.

      Difícil saber quanto tempo ele esperou para contar sua história. No centro, ninguém tinha conhecimento de que Waldir chegou ali graças a uma tentativa frustrada de ir para a Guiana Francesa. Ele parecia estar contente por receber atenção de alguém que não o tratava como paciente. Waldir tem fé que vai conseguir melhorar. A boca quase sem dentes e suas roupas velhas e muito gastas não chamavam mais atenção que os seus pés. Descalços, sujos e feridos, eram pés de quem já viveu coisas que a maioria prefere ignorar que existem. Só Waldir, por falta de opção, parece acreditar nelas.

Um comentário:

Mariottez. disse...

- É triste ver que em vez de ajudar as pessoas preferem roubar, infelizmente já presenciei algo assim em um acidente de carro.

Nicoly Uchôa.