sábado, 12 de novembro de 2011

Falhas Na Parede.

      Tinha aquela lasca branca na parede verde que eu admirava antes de dormir. Um pedacinho de parede sem tinta, uma besteirinha. Ela ficava bem no lugar iluminado pela lua quando passava pelas frestas da janela. Era em frente à minha cama, e eu me colocava de bruços com a cabeça em sua direção. Acho que meu ciclo de sono combinava com o da lua. Toda vez que a insônia vinha forte, a lasquinha parecia mais iluminada e branca.

      Aquele pedacinho de casa irregular me causava uma sensação estranha. Era como se aquilo fosse o certo, o lascado e feio, mas eu sabia que era errado. Era errado porque aquele negocinho estava oprimido por uma vastidão de tinta verde-bebê, certinha e harmônica. Mas aquele troço realmente me agradava. Talvez só achasse aquilo bonito porque era algo ridículo no meio daquela parede tão bem pintada, ou quem sabe fosse só o tédio e a insônia me desregulando os sentidos.

      Não sei quando eu percebi, só sei que já não adiantava mais nada. A lasquinha cresceu até tomar conta de toda parte inferior da parede à esquerda. Ela continuou avançando tímida, silenciosa, que nem raiz cavando o solo. Eu não me opus nem nada, se ela quisesse crescer, que crescesse. Pouco tempo depois, o quarto já estava completamente branco e a argamassa da parede soltava um pó que começou a me sufocar.

     Numa manhã de domingo, passei o aspirador de pó nas paredes. Em alguns pontos era possível ver até pedaços de tijolo. Meu quarto estava horrível. Porém, antes de eu realmente começar a me incomodar, os tijolos resolveram cair de maduros. Toda noite caiam dois ou três tijolos. Simplesmente se despregavam das paredes e se espatifavam no chão. Às vezes ficava com medo de um deles cair bem em cima da minha cama. Talvez fosse o cimento, sei lá.

    Minha casa caiu aos pouquinhos. Nem percebi muito bem. Uma vez fui abrir a porta e ela estava no chão. Daí choveu e eu notei que nem telhado tinha mais. Voou, não sei. Quando inventei de olhar pela janela, vi que ela tomava todo espaço que antes era ocupado por uma das laterais da casa. Perdi foi tudo. Não sei bem o porquê, nem como, não sei se eu mereci, nem acredito nessas coisas. Agora eu vivo por aí, torcendo pra o mundo não desmoronar também. Se desmoronar, bom... Nunca entendi muita coisa dessa vida mesmo.

3 comentários:

Ellen Brito disse...

Nunca sei o que esperar dos seus textos, mas vou lendo. Sempre adoro! rs

Tiago Júlio disse...

Ei, 'brigado por sempre tá por aqui, Ellen. :)

Anônimo disse...

- Caraca, lá vai um comentário escroto, mas eu só lembrei do episódio do Chapolin em que as coisas voam.

" Acho que meu ciclo de sono combinava com o da lua. Toda vez que a insônia vinha forte, a lasquinha parecia mais iluminada e branca" Adorei essa parte.

;)
Nicoly Uchôa.