sábado, 14 de janeiro de 2012

Perdoa-me por Me Traíres.

      Faz um favor pra ti e vai tomar no cu, Joana disse a ele. Breno retrucou, com a calma que a situação exigia, afirmando que a frase estava mal construída. “Qualquer coisa que eu considere desagradável fazer e que não vai me trazer nenhum benefício não é exatamente um favor a mim”, falou. Breno considerava Joana burra de dar dó. Tão estúpida que poderia interpretar sarcasmo como condescendência, se fosse surpreendida com muitas palavras num contexto sem nexo, como ele tentou fazer. Mas Joana percebeu o tom de deboche e começou a ficar estranhamente rubra. Ela partiu com as unhas em riste pra cima de Breno que só não perdeu o olho esquerdo porque virou a cara. Breno poderia jurar que ela ficou puta porque não entendeu nada.

      Joana disparava tapas a esmo totalmente fora de si. Ele ria admirado pensando em como ela agia feito uma onça. Num movimento rápido, ele disparou um cruzado de direita que acertou o maxilar de Joana e a deixou semiapagada. Breno achou ainda mais graça ao perceber a ironia do ditado em relação ao estado do seu fálico membro. Depois, arriou as calças e fez nela o que ela queria que ele fizesse. Ele deduziu que ela estava só projetando uma vontade, já que haviam feito tudo menos aquilo. Se Joana chiasse depois, ele se defenderia com as palavras de Freud: sempre uma fonte confiável pra embasar tudo que é putaria.

      Breno admirava a namorada no chão com o mesmo desdém que sentiria por um filhotinho maltratado exposto no Facebook. Ele ainda tentou buscar nos olhos dela alguma comoção, mas só sentia uma indiferença preguiçosa e muito sono. Depois de sacanear a natureza, desperdiçando combustível e ignorando sua função natural de macho fertilizador, Breno se sentia sem a menor vontade de viver. Dada vazão aos instintos, esgotados os desejos, parecia não haver razão para tudo aquilo. Tudo isso. Mas aí ele lembrou que serviam mousse de chocolate naquele motel e pegou o telefone com um sorriso gigante na cara. Joana, ainda um pouco atordoada pelo êxtase e pelo soco, disse que o amava quase chorando.

_ Hum... esse é um problema que não é meu. Tu sabia que ia ser assim e tudo mais.

_ Como tu pode ser tão insensível?

_ Eu sinto muito tesão por ti. Considerando que, geralmente, não sinto quase nada por ninguém, já é alguma coisa. Quer torta de chocolate?

_ Então tu só tá comigo por sexo?

_ Mas é claro!

_ Como tu pode ser tão cara-de-pau, caralho!?

_ Hahah! Sabe, tu é uma ironia em forma de pessoa. Uma mistura de puritana com piriguete. Uma hipócrita que eu consideraria sonsa, mas só se eu não soubesse que tu desconhece isso de verdade. Apesar de safada, tu é muito, muito ingênua. E eu não tenho paciência com crianças. Desculpa.

_ Por que tu me humilha assim?

_ Porque tu deixa, ora porra. Como a maioria das mulheres, tu é muito insegura e carente... Cara, tu tem tão pouca autoestima que dá pra mim um amor que deveria ser teu. Como tu não enxerga isso, merda? Tu me supervaloriza de um jeito tão tosco que te contenta com qualquer coisa que eu te ofereça. Mesmo se for um murro na lata!

_ Cansei de ti, seu merda!

_ Finalmente, né! Olha, tu vai sofrer um pouco, mas logo, logo aparece alguém mais sádico que eu e tu vai te apaixonar rapidinho. Tu sabe o que quer dizer ‘sádico’, né? Teu vocabulário é limitadíssimo! Aliás, tua cultura geral é uma droga! Porra, foda-se, espero nunca mais te ver, então vou desabafar! Eu nunca consigo conversar contigo por mais de cinco minutos sem perder totalmente o interesse na conversa! Tu nunca entende o que eu digo! Além do mais, tuas piadas são escrotas e óbvias e tu nunca consegue me surpreender e eu não sou tão altruísta pra me divertir te divertindo toda hora! Eu falei que nunca é tarde pra começar a ler e tu riu achando que era graça! PORRA! E tu é brega demais! Brega mesmo, cafona, sabe? Tem um péssimo gosto musical, pra filme, pra amigos, pra se vestir, até pra soverte tu tem mau gosto... Bom, de algum jeito eu acho que tudo isso aumentou meu desejo por ti porque eu consegui relevar por um bom tempo! Tu conhece uma teoria psicológica criada por Vygotsky que diz que a gente nasce igual animais e vamos nos tornando humanos a partir das coisas que aprendemos? Claro que tu não conhece, por que eu tô perguntando, porra!? Então, eu acho que como tu nunca teve interesse em aprender muita coisa porque era mais fácil se divertir, sempre facilitada pelo teu corpo de fêmea parideira, tu te aproxima bem mais dos animais do que das pessoas com quem costumo me relacionar. Como nos animais os instintos são bem mais cáusticos, parece lógico que tu seja mais excitante e desperte desejos bem mais primitivos do que muitas outras mulheres mais elegantes e interessantes que tu, tu não acha?

_ Eu não sei!

_ TU NÃO ACHA?

_ Eu te amo, Breno!

_ Puta que o pariu!

      E Breno deu outro murro em Joana, chorando de raiva, rendido pela insistência dela. Viveram felizes para sempre.

 

 O título é de um filme baseado num texto de Nelson Rodrigues e tal. 

5 comentários:

Gabriel Nantes de Abreu disse...

Todos gostaram desse texto. Menos os normais.

Tiago Júlio disse...

Muito obrigado, Gabriel! Minha intenção é desagradar os "normais" mesmo. haha

Bernard Freire disse...

haha, que texto legal tiago. Parabéns.

Bia disse...

Maria-da-penha

Cacau. disse...

Estava precisando ler algo menos óbvio por aí. Dissabores também alimentam a alma.
Quero mais desses, tá? Hahaha.