terça-feira, 8 de abril de 2008

Quanto o tempo faz?

Nem lembro... É que faz muito, muito tempo. O tempo foi se fazendo e refazendo e acabei perdendo o que tinha esquecido. É que tive tanta ânsia de esquecer, que nem percebi o tempo que tinha feito, e o tempo fez-se tanto e fez tanto que de tanto se fazer, remoer e bulir acabou por fundir em mim.
Sabe, não posso medir o tempo que se faz em mim. É difícil fazer. O tempo e eu somos quase que uma coisa só – aliás, eu e o tempo somos coisas sós. Ele me leva do mesmo modo que eu o levo. Ganhamos familiaridade, fazemos companhia um pro outro. É que o tempo se preocupa tanto em passar, passar e repassar que dura solitário. Tenho pena do tempo, ele sim, nunca vai ter o que eu, numa ambição quase imoral, espero tanto ele trazer. Ninguém passa com o tempo, apesar do tempo passar por todos. Triste ironia.
Bom, mas o que eu queria dizer é: o tempo me enganou. Consegue acreditar nisso? Pois é, também não esperava!
Não, não. Estou mentindo, eu sempre esperei. Mas é que de tanto esperar, a gente acaba por fazer da espera o futuro, é o modo mais simples (e idiota) de não esperar a vontade do tempo se fazer e ele finalmente preparar de forma mágica, equilibrada e correta o mundo, as coincidências, o clima, o momento, a situação e as pessoas para o instante seguinte. O problema é que eu não tinha muita escolha e eu nunca me contentei com o pouco, talvez seja meu grande defeito. É autodestrutivo.
Olha, tenho que falar: o tempo não matou, ele só adormeceu.
Mas olha, as coisas não dormem pra sempre. Só dormem o suficiente pra recuperarem suas forças, descansarem da fadiga insana que é viver, acalmarem um pouco os ânimos e esquecer os problemas até antes do depois.
Queria te dizer que o depois chegou. É, é isso. Aquilo acordou. Voltou vivo, puro, renovado, grande, sereno, melhor e mais tanto do que era.
Tanto, que o tempo é pequeno perto dele.
Tanto que não me sufoca mais, porque o respirar acontece num intervalo muito pequeno, e os meus intervalos já estão preenchidos.
Tanto que tenho que multiplicar e depois dividir
Tanto que pode ser muito, muito mais.
Tanto que é teu. E eu só queria poder te dar.
Mas tem uma coisa estranha, não lembro quando aconteceu... Não lembro quando acordou. Eu não vi. Ou será que vi?
Não, eu lembro: foi semana passada... Ou foi ontem? Não! Faz dois meses! Ou seriam cinco minutos?... Ou cinco dias? Ou foi no segundo antes deste? Ou no momento antes de me esquecer? Ou foi há tanto tempo, que nem memória eu tinha pra lembrar? Mas se eu não podia de forma nenhuma lembrar como vivi? Ou eu vivi e não podia lembrar? Ou lembrar é só mais uma variante de viver e, portanto não pode ser compreendido? Ou é querer viver demais?
Ah, mas agora eu sei. Enganei-me.
Culpa do meu relógio.. se bem que no meu caso deve ser uma ampulheta: sem ponteiros pra marcar horas, grãos que fazem momentos antes dos segundos
Eu queria que também soubesses: não posso me lembrar porque não deve existir tempo suficiente pra eu esquecer.

5 comentários:

Mariposa Apaixonada disse...

O tempo é a coisa que mais me angustia, por eu te mania de esperar demais e remexer demais.
E aí o tempo passa, e a gente fica. Porque ele continua, a gente não.
É tão ruim, pensar que o tempo vai e a gente não.. E so esse mês eu me bati com a finitude 2 vezes (em menos de uma semana!), e isso me aflige (MUITO), a gente não devia entrar em contato com a finitude agora, não mesmo.
Acho que isso é assunto para posts.
Gostei do seu blog e a forma como você escreve é poesia. Você brinca com as palavras e elas criam ritmo. Adoro isso. ;) As palavras dançam.
Por isso likei você! ;)

Um beijo! ;*

Mariposa Apaixonada disse...

#)

Sidereus Nuncius disse...

Esse eu entendi!
O Tempo se encarrega de tudo, mas como diria Frodo Bolseiro:"Há algumas coisas que o Tempo não pode curer, algumas feridas são tão profundas que nos acompanham para sempre"
e se acompanham...

Sidereus Nuncius disse...

*curar

dedada errada estragou meu momento de reflexão! oh crap! dammit! =~

ananas. disse...

logo, entre sentido e pensamento em ventos de delicadeza venho encenar aqui também.
não sou boa em agradecimentos, mas arrancou me suspiros e sorrisos tímidos com seus comentário em meu cenario.
és um personagem de sonho, encanto e canto.
trago chuva pra lavar o que passou sem ter passado e matar a sede do que ainda vai chegar!
:}

preocupo-me muito não em entender...vou vivendo apenas.
afinal de conta as coisas tomam a dimensão que damos a ela....não quero vasto entendimento, quero uma vida plena, intensa,com noites delicadas e dias flutuantes.
um doce?
mas qual doce?só se for o doce mais doce!
:}
eu chuto o verbo: VIVER.

beijo de bacaxi procê.
p.s.: espero te ver nas outras cenas, assistindo e encenando a grande peça: vida.
p.s.2: gostei do seu espaço vago, volto sempre.adoro o jeito que brinca com as palavras.o tempo sempre me pede um tempo, meu tempo é sempre carente de si.gostei dos "trocadilhos" por cá.

por fim: quanto ao tempo que espere e me espere por um tempo.