quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Eduardo e Alice.

*Escrito em dueto com Camila Regis, num presente ausente.



Eduardo senta apoiando a cabeça na mão esquerda, sua aparência inteira entrega as noites em claro e a falta de horas para dormir durante o dia: desleixo, cara amassada, olhos fundos, barba por fazer, os cabelos despenteados propositalmente, a camisa social preta um tanto amarrotada e o olhar blasé fixo num ponto uns metros além do casal da próxima mesa. Mexe o gelo do copo com a ponta do indicador direito e repara numa loira sentada três mesas à frente. Ela gargalha espalhafatosa e fala alto com a amiga sentada ao lado, algo relacionado a futebol: usa uma saia branca exibindo os joelhos rosados e uma blusa cor-de-rosa que salienta o volume dos seios, vez ou outra olha para Eduardo e sorri, sem mostrar os dentes, insinuando-se descaradamente com jeito de puta oferecendo serviço.
Quando Eduardo leva o copo à boca, percebe que a coca-cola já é mais água que refrigerante, então ele sorri e avalia o custo benefício: leva em consideração a vestimenta demasiadamente provocante, a postura efusiva, a atitude explícita que pouco lhe instigou, e o tema abordado na conversa para pré-julgar a moça e concluir que uma conversa com ela não deve valer o prazer de um copo de coca-cola com gelo, se isso, é claro, não lhe render mais que alguns beijos no início da madrugada. Tira o celular do bolso, 20:40. “Atrasada, como sempre”.

Alice tem a boca um pouco mais rosada que o normal, algo que poderia indicar um longo beijo dado previamente, mas não era isso: só o que constava ali era o hábito de fumar iniciado numa pré-adolescência rebelde, há algum tempo atrás. Andando em passos largos, meio de galope, sente vontade de satisfazer o vício naquele instante, porém, só tem dois braços, ambos ocupados: um com uma pasta gigante de papéis a serem lidos, o outro com o guarda chuva que a protege da garoa irritante pinicando o peito dos pés. Calça sapatos de gente importante, quase pretensioso demais, até mesmo para ela: bicos redondos e um salto alto que valoriza a postura.
Parada em frente à faixa de pedestre, paralela a um semáforo que indica a passagem favorável dos carros, ela sente um arrepio quando o vento sul sopra em suas pernas desnudas. Frio, está frio. Com a visão periférica percebe que está sendo observada: ao seu lado um homem, desses clichês, infla o peito tentando chamar atenção. Dos fones o som sai muito mais alto que o aceitável para manter a saúde auditiva de qualquer um, percebe-se, pelas batidas irritantes, que a música que entope os ouvidos dele é algum pagode: usa regata num tempo inapropriado, boné, um colar de coco e está suado. Provavelmente, tinha acabado de sair da academia, é esteticamente agradável, atraente. Dá um sorriso cafajeste à Alice, esperando resposta: ela pensa realmente em retribuir, contudo, ele usa regata e, para ela, ninguém que usa regata é confiável, além do mais, escuta pagode, é exibicionista, deve ter um ego enorme e um pinto pequeno: não compensa, ignora-o.
O semáforo, finalmente, se fecha e Alice pode atravessar até seu destino do outro lado, um bar. Abre a porta, um ar azulado, não o avista. Entretanto, uma loira de saia branca gesticulando para todos os lados chama sua atenção: para Alice, somente atrizes de filme pornô e enfermeiras usam saias brancas. “Piranha, com certeza”.


Eduardo vê Alice na entrada, mas não faz sinal algum para atentá-la: ele ri divertindo-se com a apreensão dela passando os olhos por todas as mesas, menos a dele, enquanto sua expressão vai transformando-se revelando algo parecido com ira profunda. Há dias eles não se vêem, atarefados demais com coisas desimportantes, e Eduardo aproveita o momento para admirá-la com calma antes que Alice comece a vomitar palavras em cima dele, o que, possivelmente, lhe renderá boas gargalhadas e, talvez, um futuro melhor do que aquele com a loira de saia branca.
Cabelos castanhos levemente ondulados caindo por cima do lenço azul que protege o pescoço, traços delicados, olhos escuros impacientes, boca carnuda, camisa de lã branca escondendo os braços pálidos e o sorriso de Eduardo ao ver expostos os joelhos de Alice, sempre um pouco inclinados para dentro. Eles já descobriram e redescobriram um o corpo do outros muitas vezes, contudo, Eduardo não cansa de olhar para ela, investigando cada centímetro seu. Para ele, ela tem uma beleza mais única e particular do que o encanto de qualquer outra mulher com quem já tenha estado. “Algo de lirismo pungente”: ele costumava dizer isso, num tom meio irônico, antes de finalmente dormirem, continuaria repetindo até convencê-la, não fossem tantos os “cala bocas” acompanhados de tapas ardidos.
Alice, enfim, enxerga Eduardo, rindo, sentado quatro mesas atrás daquela ocupada pelas duas amigas estridentes e, ao perceber que ele já tinha notado sua presença, balança a cabeça indicando negação e solta seu ar de reprovação enquanto caminha mordendo os lábios em direção a ele.



- Bem?

- Aham. E tu?

- Não... Mais ou menos.

- Por quê?

- Não sei. Só acordei triste. Deve ter alguma coisa a ver com a taxa de estrogênio no sangue, só pode.

- Come chocolate, quem sabe resolva.

- Não vendem chocolates em tonéis aqui perto. E eu, realmente, prefiro morangos... Aliás, nem sei como isso é classificado como fruta.

- Morangos dão em árvores, é por isso que são classificados como frutas. E eu não entendo nada de estrogênio: não tenho taxa disso no sangue... Não me chamaste aqui pra falar disso... Queres ser compreendida, o que aconteceu?

- Merda, uma merda aconteceu. Terminei com ele... Ao menos posso respirar e fumar em paz agora.

- Outro? Já é o terceiro nos últimos meses. Por que insistes em nomear teus relacionamentos?

- Dá um caráter mais humano pra coisa por mais animalesco que seja... Ai, de todos foi o pior, sem dúvida: implicava até com a minha insônia.

- Sim, realmente são da natureza humana o egoísmo e o sentimento de posse sobre tudo. E me poupa: tu és arrogante demais pra ter um cara metido na tua vida desse jeito.

- Humildade também não é o teu forte. Enfim, de certa maneira parecia necessário, não ele: ter uma relação. E não me venha com lição de moral, já sei que não tinha necessidade nenhuma.

- Deverias ser menos contraditória, terias menos problemas. Ah! E parar de fumar, deverias parar de fumar também.

- A colisão das minhas contradições pode ser catastrófica, ou pode dar ótimos resultados, prefiro correr o risco. E pra quê parar de fumar? Vou morrer de qualquer maneira, que seja de uma doença legal pelo menos: Nietzsche e Freud morreram de câncer, quero estar nesse grupo seleto.

- A colisão das tuas contradições, ultimamente, só tem feito tu me procurar pra chorar dramas de feridas que tu já cicatrizaste faz tempo: tua época de princesinha presa num castelo de cartas já foi, sabes disso. E Nietzsche e Freud morreram antes de descobrirem que fumar causa impotência sexual: eram mais inteligentes que tu, eles parariam de fumar, com certeza.

- Sou masoquista, as cicatrizes doem ainda mais agora. Sou estúpida, sem vocação para princesa. E foi uma colocação capciosa, Nietzsche morreu de câncer no cérebro, nada a ver com cigarros.

- Sabe, acho que tu és narcisista demais pra seres masoquista. Quando te sentires carente e precisares ouvir algo bonitinho só é ligar pra mim... Não precisa ficar criando compromissos com caras que ficam se projetando em ti e tirando tua liberdade. E o Nietzsche morreu de câncer no cérebro por ironia do destino: cientistas afirmam que foi castigo divino, por ter pensado demais. Já tu, tem pensado de menos.

- Não quero que percas teu tempo comigo e não preciso ouvir algo bonitinho de ti: teu silêncio se insinua, já é o bastante... Queria que fosse assim com eles, mas, o peso que fazem sobre minha vontade de ir e vir é grande demais: não consigo esperar o tempo até que a mudez se faça entender.

- Rá, pára de te fazer de vítima, não combina contigo. Tu sabes muito bem que estando contigo meu tempo é aproveitado das melhores maneiras possíveis. Também sabes que, não importa por quanto tempo durar, ninguém vai conseguir te compreender como eu... Nossos silêncios são os mesmos, esqueceu?

- Sabes que quando fico sensível viro atriz de novela mexicana, deixa eu fazer o meu drama. E é verdade mesmo: tu és quem melhor preenche o vazio, sem que fique pesado o bastante a ponto de eu não poder me mexer... Também sei que tenho o mesmo efeito sobre ti: é bem diferente do efeito que causa aquela loira piranha que não pára de olhar pra cá, por exemplo.

- Na verdade eu tava pensando em falar com ela, não parece ser do tipo que espera do lado do telefone o cara ligar no outro dia, quem sabe não arranjo alguma diversão? E tu precisas parar de tentar deduzir tanto sobre as pessoas assim: quem falou que ela é piranha? A moça só tem excesso de simpatia.

- Vai então, ela é bonita mesmo... Mas vais te arrepender: ela tem cara de gente que fica batendo papo depois do sexo, uma puta ficaria quieta pelo menos... Eu dormia depois: é mais fácil quando o silêncio falar por nós.

- Vou não, vai que ela vem falar de futebol que nem tava fazendo com a amiga dela? Eu sufoco com o travesseiro... E é impressão minha ou tu estás com ciúmes?

- Morrendo, vou ali à cozinha... Qual demora mais: o gás do fogão ou a faca de serrinha, pra me matar?

- Tenta os palitos de dente, é uma boa idéia.

- O bom é que ele incentiva... Isso sim que é ego: só pra teres uma morte em tua homenagem.

- Já falei que não podes morrer ainda.

- Por?

- Porque eu não estou com vontade.

- Amo tua capacidade de argumentação.

- ‘Brigado, sou um moço muito prendado.

- E eu uma moça suicida.

- Eu poderia aproveitar que estás emocionalmente fragilizada e, conseqüentemente, com a capacidade intelectual/racional bem afetada pra te dizer algo doce, te beijar e te levar pra ver os móveis do meu novo apartamento pela... Décima terceira vez?

- Adoro a tua sutileza, e sabes que eu vou sim, apesar de saber a cor do ralo do banheiro... As coisas boas são incomensuráveis, parei de contar depois da primeira vez, Sr. oportunista.

- Aproveitar essa oportunidade é a coisa mais complicada do mundo, não é?

- Tudo bem, isso não faz de ti menos nobre.

- Onde tu enfiaste teu orgulho, garota?

- Engoli seco.

- Saudades de ti... Apesar de ter me acostumado com a tua ausência nesses dias, tinha uma saudade meio... Não sei qual a palavra... Estranha, sei lá.

- Saudade? Que estranho.

- Por quê?

- Não sei se teria motivo.

- Acostumado contigo.

- Mesmo?

- Sabes que sim, não te faz de besta.

- Como que eu vou saber, senhor? Não sou filha de Iemanjá, mãe de santo, nada disso.

- Talvez filha adotiva do cinismo.

- Pelo menos papai é divertido... Mamãe é a burrice.

- Então tu não puxaste pra tua mãe.

- Nada garante.

- Ninguém tem garantia de nada mesmo.

- Apesar de burrice ser questão de parâmetro...

- Chega de divagações inúteis, Alice.

- Ao menos foi divertido.

- Comparado as coisas divertidas que já fizeste, aquilo foi inútil.

- O conceito de utilidade é supervalorizado.

- Queres discutir sobre o conceito de utilidade?

- Não. Eu quero um cigarro, logo.

- Só porque sabes que ficas muito sexy fumando e estás tentando me seduzir.

- Cigarros são um pretexto, sabes que não preciso deles pra te seduzir.

- Na verdade, às vezes, eu queria que tu fosses um pretexto pra mim: como aquela loira. Mas as coisas não funcionam assim contigo...

- O mesmo vale pra ti... Talvez porque na certeza de nossa inconstância é que a gente veja uma segurança: de esperar o inesperado, de se abraçar no indefinido. Somos amantes do que é vago.

- Quer conhecer minha estante de livros?

- Já li todos os livros dela, mas não me importo em reler.

Eduardo e Alice saem e acabam se esquecendo dos livros repetidos: passam o resto da noite e do dia seguinte enclausurados um no outro antes de um novo “até logo”.

7 comentários:

Vendaval disse...

achei que seria mais difícil escrever em conjunto, mas fiquei chocada como as coisas fluiram facilmente.
que orgulho da gente :)

André Luiz disse...

é aquela história de almas se reconhecerem no deserto.
E as coisas sempre tem de ser do jeito que são, por mais que a gente sempre imagine que tinham que ser diferentes, eu acho.
Até logo!

Yashay disse...

"Talvez porque na certeza de nossa inconstância é que a gente veja uma segurança: de esperar o inesperado, de se abraçar no indefinido"... Hum... não sei não, pois, desse jeito, fica parecendo uma inconstância constante, uma indefinição previamente definida Rsrsrsrs!!! Mas o que vale é a intenção, né?!

Jaya disse...

Não, não, não! Pára tudo! Que que foi esse texto, minha gente? Nooooossa! Eu cheguei aqui e já fui pensando: que texto grande. Aí comecei a ler. E a leitura caminhava tão rápida, que eu fui ficando com raiva, pensando que ia acabar logo. E acabou! ¬¬ Pô, Tiago. Bem que você e Camila poderiam escrever um livro juntos, e ir publicando capítulos aqui, por vezes. Que tal? Rs.

Ah, eu me apaixonei pelo texto. Sabe? A narrativa. Os detalhes. Os diálogos. Os jogos de sedução. Fiquei pensando que eu tenho um pouco desses personagens, em mim. Me identifiquei com alguns posicionamentos desmembrados no diálogo. E no início do texto, eu sorria. Principalmente de Alice desmistificando as pessoas pelo jeito de vestir. Haha. Ri demais com a história da saia branca: “piranha com certeza” (ainda bem que não tenho saia branca - hohoho). E do cara que “escuta pagode, é exibicionista, deve ter um ego enorme e um pinto pequeno: não compensa, ignora-o.” Delícia esse tom de humor. E se não bastasse, vocês ainda tiveram a capacidade de me fazer personagem, também. Eu estava numa daquelas mesas. Assistindo todo o desvendar da história. Quase conseguindo identificar as vozes de cada um.

Muito bom, MESMO! Tive vontade de sair copiando uns trechos e comentando abaixo, mas isso ia se tornar cansativo, e extenso. Até porque, acredito que a completude tamanha, através do encaixe das letras de vocês, não deixaria brechas para divisões. No fim, é tudo uma coisa só - como eles, enclausurados um no outro.

Aplaudo de pé! E peço bis, sim senhor.

Beijos.

P.S.: Cara, eu sou péssima em anatomia. Geográfica, então, nem se fala! Haha. E eu já tinha adivinhado que você era do Pará. Ah, o sotaque de vocês é dos mais deliciosos. E lendo o “tu” do teus textos, impossível negar a origem. Rs. Éééééééégua, Tiago! :D Carinho pra você. (:

disse...

Ótimo dialogo.

=]

Thaís Nóbrega disse...

eu nem sei se teria algo de consistente pra comentar depois de ter lido isso.
o que eu posso falar é que gosto muito da forma como você descreve as coisas.
adoro descrições.
e adorei o texto
:)

Filipe Garcia disse...

Oi Tiago,

agora,de férias, vou ler seus textos. Porque, acredite, seus textos me convidam, sempre. Por isso tenho evitado abrir seu blog, rs.

Sobre o texto: eu achei um texto adulto. Sim, um universo que parece não ser meu. É certo que o "casal" resolve suas pendências, criando outras, fazendo poesia com as palavras, com os sinais. Aliás, bonito esse jogo de sinais. Esse diálogo-corpo que vocês pintaram, palavras nada óbvias, efeitos inesperados. Eu me apaixonei por Alice. Mulher inteligente. Pude vê-la cruzando as pernas, ajeitando os cabelos perfumados. Tem cara de advogada. Ele, cara interessante, deve ser bonito, porque a loira não parava de desejá-lo. Mas, não só bonito, o cara prende pelo papo. É um casal perfeito, não fosse a casualidade com que tratam o romance.

Por fim, eu digo que seu texto deixou reticências, uma necessidade de completude, continuidade. E isso, meu caro, esse mistério que mora nas entrelinhas, esse há-de-ser desconhecido, é o que há de mais prazeroso num texto.

Um abraço pra você e um beijo pra Camila; e meus aplausos.