sábado, 15 de maio de 2010

Cecília.

      Talvez acontecesse de qualquer forma, porque era noite, porque era ela, porque choveu, porque chuviscava, porque fazia um frio raro, porque havia cansaço, medo, incompreensão, preguiça, solidão. Sentou-se no banco molhado, jogou a mochila no chão, aumentou o volume do ipod e ficou vendo faróis. Estava embaixo de uma árvore que gotejava por causa da água acumulada nas folhas. Era uma praça perigosa, ela achava, porque achavam. Pensamentos soltos: tanta paranóia, tanto medo, nem dentro da gente é seguro, por que eu to preocupada se não tenho nada a perder, não é justo as pessoas terem medo da pobreza que criam, por que essa falsa culpa burguesa idiota agora, foda-se, por que esse discursozinho comunista se não acredito em porra nenhuma, acho justo morrer sendo assaltada por uma criança viciada: um ipod custa trocentas vezes mais que uma pedra de crack, eles só querem crack pra sobreviver sem dor nem desespero, será que crack me ajudaria a viver, que merda é essa, fodam-se os viciados, tão nessa vida porque eles querem, tudo é escolha, caralho vou ser estuprada aqui, vou pra casa, não, vou ficar aqui à noite toda, foda-se.

      Ela dormiu na aula, o professor a acordou e as pessoas riram. Antes havia discutido com uma colega-idiota-egoísta-futil-que-falou-merda. Cansou os músculos da face de tanto forçar risos amarelos. Estavam falando da bunda de algum ator, depois da saia nova de não sei quem, depois falaram que Radiohead é foda e não souberam dizer porque quando ela perguntou por que, depois falaram que a menina da frente era uma putazinha que saiu com o namorado da menina do outro lado da sala, depois combinaram de tomar tequilas, depois ficaram em silêncio e ela agradeceu também em silêncio. Animadas e cansadas de insistir, saíram sem ela que alegou cansaço. A causa real era tristeza, mas essa seria uma desculpa incompreensível para elas. Não estava triste por causa da discussão, nem por causa das colegas conversando sobre coisas desinteressantes, muito menos porque riram dela. Estava triste há tempos por estar cercada de gente que não compreenderia sua tristeza. 22:23, sentiu vontade de fugir pra Europa pra não ser conhecida por ninguém e conhecer pessoas novas. Caminhou até a praça, sentou num banco molhado e ficou olhando faróis.

      Ficar olhando as luzes dos carros, densas e brilhantes, hipnotiza. Pensamento solto: faróis iluminam caminhos que não me levariam a canto nenhum. Uma guitarra chorava em seus ouvidos, sua boca estava entreaberta querendo dizer algo involuntariamente, mas nenhum pensamento concreto passou pela sua cabeça quando ela levantou-se, calma e serena, e caminhou em direção aos faróis. Não estava desesperada, nem com medo, nem contente. Só sentiu vontade de beijar as luzes inúteis. Freios gritando, pessoas olhando, um homem parou a 4x4 e a chamou de filha-da-puta louca. O rapaz desceu do carro enquanto ela permanecia imóvel olhando os faróis. Ele perguntou se ela estava bem, ela tirou os fones, perguntou o quê e depois disse que estava triste. Aí ela riu, caminhou de volta para o banco, pegou sua mochila e decidiu ir pra casa. Mas ele deixou o carro no meio da rua, correu, segurou ela pelo braço e disse, como se quase não a tivesse matado, que a tristeza dela era bonita. Ela não esperava essa reação. Ficou olhando o cara, que começou a sorrir, espantada sem saber o que dizer.

- Precisa ter muita coragem pra mostrar isso assim.

- O quê?

- Vem, te dou uma carona.

- Pra onde?

- Eu que deveria fazer essa pergunta, né?

- Quero ir pra casa, eu acho.

- Onde fica?

- Não sei.

- Tudo bem. Eu te levo.

- Pra onde?

- Tanto faz. É só uma desculpa.

- Pra quê?

- Pra te estuprar que não é.

- Por que não?

4 comentários:

L disse...

fiquei como ela, sem saber se sorria ou chorava. e deu uma vontade de ter escrito isso primeiro, porque é muito bonito, porque é melhor do que eu tô capaz, porque foi seu, mas também tem um pouco de mim, inconsciente da sua parte, escrita aí.

Ivan Ryuji disse...

(Eu ri no fim.)

Também tenho mania de ficar hipnotizado pelos faróis dos carros, isolado do mundo exterior por um par de fones de ouvido.
Sério. Pensar na vida e talz, ou no caso pensar em nada dessa vida que faz nenhum sentido. Sei lá...

Esse teu post correu pela minha mente instantaneamente, sei lá, me pareceu muito familiar. Ficar parado vendo as luzes passando e tal... É.

Abraço ae

Ivan Ryuji
http://blogdoryuji.blogspot.com/

Jússia Carvalho disse...

Adorei...

Anônimo disse...

Sempre há alguém que te salva.