sexta-feira, 30 de maio de 2008

Desexistir por Alguém.

Um banco, a noite, o frio, o chuvisco e um casal de desconhecidos.

Sentou-se lá por um motivo irrelevante qualquer, ele tinha absoluta certeza que iria se decepcionar, um pretexto idiota. Talvez a silhueta atraente dela e o seu rosto parcamente iluminado pela luz branda da lua revelando a expressão de contemplação o tenham atraído, ele mesmo não esperava que tivesse tanto ímpeto a ponto de fazê-lo falar algo. Mas a sensação de proximidade com aquela misteriosa moça escondida e inalcançável valeria semanas vividas.

Ele aproximou-se devagar, seu coração acelerou um pouco, e de perto ele a viu. Paralisou.

Ela desviou os olhos vivos das estrelas e notou o vulto estático a sua frente. Congelou.

Não sei quanto tempo passou, nem se passou.

Então alguém disse: Oi.

- Oi.

- O que vem agora?

- Hã?

E alguém sorriu.

- Depois do ‘oi’. Se não me engano, é uma saudação, e como nenhum de nós dois está de passagem, é natural que se siga um diálogo, e um diálogo é feito com palavras. Como você consegue articular as palavras, e a frase atual é minha, então, é muito provável que venha algo de você.

Alguém riu muito, um riso puro, de felicidade, uma felicidade inexplicável, como se o algo que estava guardado, e esquecido de ser esperado, adormecido aguardando pra acontecer finalmente tivesse nascido. Não conseguia crer no que escutava. Via, sentia, mas não era compreensível.

- Pois depois do ‘oi’ pode vir qualquer coisa. Inclusive coisa alguma. Posso ficar em silêncio, enquanto olho dentro dos teus olhos e escuto tua alma gritar, e me distender da realidade: deixar meus movimentos serem guiados pelos milhares de sensações que estou sentindo agora, e talvez...

Alguém absorto num estado desconhecido de alegria misturada a uma euforia que não era cabível no silêncio continuou:

-... Ligados pelo corpo, e aumentando cada sensação infinitamente, talvez nesse estado de sintonia irreal, como se fossemos uma parte do que era o outro até antes do ‘oi’, e agora, portanto, somos só um alguém perdido e a parte de tudo. Feito duas almas desencontradas dentro de duas consciências insanas que se fundiram e se tornaram mais que sentimentos ou sensações... Tornamo-nos isso... Somos qualquer coisa.

Alguém chorou, chorou soluçando, quase desesperadamente. Não era tristeza, era mais: uma depressão instantânea.

- Meu ônibus. Preciso ir.

- Eu não entendo.

- Isso.

Alguém foi. E ficou, não entendeu, e acabou.

8 comentários:

Violeta disse...

ISSO NUNCA ACABA MEU AMIGO.
.

Fláh disse...

As vezes não é preciso acordar para ver que o sonho acabou.

Isáh disse...

post liindo,apesar de eu não te-lo entendido completamente.

(...) disse...

Foi e ficou é uma morte não morrida.

Sidereus Nuncius disse...

com essa greve de onibus...dá até dó viu? nao consigo nem falar...

Deusa Odoya disse...

Oi meu novo amigo
Bonito blog e belo texto.
Parabens.
voltarei sempre amigo.

Te aguardo no meu cantinho.

Regina Coeli.

bruna foscarini disse...

bela prosa. belas fotografias.
belo saber que nada é tão exclusivo que só venha acontecer com uma pessoa. claro que são experiencias únicas, porém se repetem entre os humanos, em outros lugares e com outras palavras...mas cada um leva o peso das circustancias do lado que o ombro aguentar mais.

bruna foscarini

F disse...

...Belo...