domingo, 24 de agosto de 2008

Caleidoscópio surreal girando na velocidade do som feito pelo Portishead.

De longe, com a respiração controlada, os olhos inertes, a boca seca, os pensamentos soltos e uma frieza desumana, eu analisava-a fixamente. Oito metros, quinze passos em linha reta.

Nota memória: Não sei o que estou fazendo.

Agora eu sou um caleidoscópio surreal girando na velocidade do som feito pelo Portishead.

Criticar. Estava pensando nisso esses dias: iria encaixar alguém, analisar, realçar defeitos, falar do que não gosto, iniciar um debate moral idiota ou uma discussão de valores totalmente dispensáveis.

Olhava-a e pensava nela simplesmente porque não havia outra coisa a fazer. Porque eu estava só com as minhas palavras, e elas voam sem rumo dentro de mim se chocando uma contra as outras até caírem no abismo do meu esquecimento. Há partes de mim que nem eu alcanço.

Porque eu não sei mais o que fazer, por isso junto as letras nessas frases soltas, é difícil entender pois não era a minha intenção inicial fazer isso.

Eu perdi a linha, não tenho referencial. Eu só tenho um ponto: a liberdade.

O que não me agrada é a idéia de permanecer afastado de mim. Se eu me jogo assim, sem medo, é porque eu sou covarde demais pra permanecer à beira do abismo.

Lá não importa onde é: o lugar conta menos, o espaço é só um detalhe técnico. O que é importante é o que eu escrevi lá, e o que eu escrevo não é matéria para ocupar espaço. Vou sempre estar onde estou, e onde eu estiver minhas palavras estarão comigo: porque eu sou palavras, significantes, verbos e nomes. Já disse isso: duas ou cinco vezes, e eu vou repetir até eu me convencer completamente.

Porque o que eu escrevo é energia: pura, limpa, suja, forte, sutil, imperceptível, destruidora.

Porque eu não amo.

Pode ser qualquer uma, e em nome de todas, eu espero.

Ela perguntaria:

- Por que estás fazendo isso?

Eu lhe diria:

- Nada. Tu és só um molde.

- Estás esculpindo o quê?

- Isso.

- Precisa do meu rosto para iniciar um pseudo-diálogo que nada mais é do que um monólogo para tu satisfazer tua necessidade básica?

- Não, teu rosto é só uma desculpa: um argumento para eu te mascarar de mim.

- No fundo, querias que eu fosse tu.

- És viciada como eu, faria o mesmo na minha situação.

- Qual tua situação?

- Essa.

Preciso de alguém que escreva comigo, por mim. Eu estou cheio demais de mim, tão cheio que não consigo sequer definir uma forma.

- Quer que eu diga o quê?

- Melhor a minha mudez e o teu rosto. Dane-se a poesia das palavras, não dá pra compartilhar o que transpira de ti.

Como um muro branco: posso te pintar, ignorar, pichar, pular ou derrubar.

Sou um vagabundo miserável.

Eu não te temo, tu me destróis e eu me sinto radiante em cacos: multiplicado sobra mais espaço pra ti.

Quinze metros, oito passos em linha reta.

Continuas sendo a minha ilusão mais doce, meu melhor engano: mesmo depois de te desfazer, do mesmo jeito que eu te inventei, continuas como parte de mim. Sabes disso, no fundo sabes.

Eu te quero acima de tudo, e tudo não faz falta se estiveres comigo. Eu quero que o tudo se dane e o pouco também. Que reste apenas nós.

Porque, um dia, eu coloco um ponto em seguida nessa história absurda que eu comecei. A partir desse dia eu te terei e vou te sentir com toda essa droga desconhecida que eu tenho dentro de mim.

Eu vou te amar com toda essa intensidade mesmo tendo também a certeza absoluta de que terei uma depressão proporcional nos dias seguintes.

É invevitável: o tempo é um rolo compressor impiedoso que esmaga (e renova) os corações inquietos daqueles que pensam mais do que podem.

Deus deve ser tempo.

O que eu mais queria é saber como reages pra eu finalmente sentir, com convicção e força, que estou vivendo.

Não sinto mais nada além de indiferença por ti. Tu és só um pretexto insignificante, que fique claro.

Tu estás feliz, eu estou apático. Não que isso me incomode, mas é que não mereces essas merdas: ninguém que esteja bem merece a angústia do outro.

Não é só pra ti, é pra todos.

Foda-se. Eu me sinto muito melhor agora. Às vezes eu preciso abrir um buraco em mim pra me deixar vazar.

Não sou egoísta, por isso peço perdão a quem lê. Peço compreensão também, eu acho que esse é só o primeiro de uma série de retalhos.

O eco dessas palavras não me deixa dormir.

Eu ando muito, sem nexo nenhum.

7 comentários:

Mariana disse...

Abra quantos buracos forem necessários e se deixe vazar sempre que estiver cheio de si.

Todos usamos pessoas para mascarar de nós mesmo, mas poucos tem a coragem de assumir tal artimanha...

Se está se sentindo culpado, por mim, está perdoado!

Beijos

Idylla disse...

Tiago amei seu texto, alias seu blog....tava lendo os post anteriores tb!!! parabéns...

bj

.Ná. disse...

Sem nexo nenhum, mas por essas e outras que tem presente pra você no post anterior do Soda!
Bjos

Camila disse...

"Há partes de mim que nem eu alcanço." - Idem!
Quanto ao tempo... ele pode sim ser um rolo compressor... mas também pode ser um balsamo!
Depende da situação!
Texto belissimo.
Beijo

Camila disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tata disse...

Lindo texto!!!!
blog muito legal!
Parabéns!!!

Raphael disse...

Bacana esse.