quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Engano Lógico.

Chegou ao consultório odontológico ofegante, a chuva desabou antes do previsto. Vinte segundos correndo foi o suficiente para deixá-lo ensopado, cansado e desarrumado. Estava conformado com as duas lentas horas que teria que esperar até ser atendido: lá, não importa a hora marcada para a consulta, a agenda é mal organizada e os pacientes são atendidos por ordem de chegada. É mais lucrativo assim.

Quando entrou na sala de espera notou que já havia uma boa quantidade de pobres coitados esperando pelo tempo do, sempre bem-humorado, dentista. Algumas pessoas se viraram para ver quem entrava, pode ver nelas a mesma expressão chateada e enfadada, e enquanto era analisado, percebeu também o olhar triste de uma senhora de cabelos brancos. Ir àquele lugar sempre testa até onde chegam os delicados limites da paciência humana.

Olhou para direita procurando as cadeiras encostadas à parede, e foi então que a viu. Aliás, viu metade do seu rosto: pele muito branca, os cabelos castanho-escuros postos atrás da orelha com mechas soltas caindo sobre o lado visível da face, o nariz fino, os óculos pequenos com armação azulada, olhos fixos na página do livro, as pernas cruzadas, a saia florida à altura da coxa exibindo o belo joelho ligeiramente rosado... Sentar... Sentar! Havia esquecido. Ao lado dela, na interseção entre a parede lateral e a parede do fundo, isolada num canto, oculta, a santa cadeirinha verde.

Não iria ter ímpeto suficiente para interromper a leitura da moça, sabia disso. Queria apenas sentir a pulsação aumentar, precisava olhá-la melhor. Obrigou-se a fazer o mínimo para não se torturar depois, arrependendo-se, mais uma vez, do que deixou de fazer. Caminhou em direção à menina desviando das pernas de umas pessoas mais desleixadas e sem postura, passou na frente dela tomando um cuidado enorme para não tocar seu pé que balançava ritmado e sentou confiante ao seu lado. Ela não notou sua existência, ou talvez tenha notado, mas ele não percebeu: olhos imersos nas páginas do livro, expressão séria, pernas cruzadas sacudindo devagar o pé flutuante dentro da havaiana branca, e aquele ar típico de quem está completamente fora do mundo. Esse ar é meu, pensou ele. Sorriu baixinho.

Então, inclinou um pouco a cabeça para direita precavendo-se desnecessariamente para que ela não perceber-se, e pode admirar melhor seu rosto: queixo polido, boca grande, lábios finos, umas sardas na bochecha, sobrancelhas perfeitas, e olhos castanhos redondos incrustados no bendito livro. Virou rápido para frente tentando digerir a imagem da garota, e sentiu que as mãos começavam a suar. Sorriu de novo: sentiu-se pateticamente vulnerável a ela, e isso pareceu-lhe muito engraçado.

Veio então um súbito impulso impelindo-o a falar com a moça de qualquer maneira, mesmo que fosse para balbuciar alguma besteira, passar vergonha ou corar sem graça. Passou a perna direita por cima da esquerda num movimento brusco, baixou a cabeça e tentou ler algo do livro. No alto da página, em letras garrafais, conseguiu decifrar o que estava escrito: O DIA EM QUE URANO ENTROU EM ESCORPIÃO. "Morangos Mofados"... Morangos Mofados! Descuidado, quase pronunciou os pensamentos em voz alta. Conteve-se. Precisou olhar novamente o livro para acreditar. Ela realmente estava lendo Caio Fernando Abreu.

Ele é admirador obcecado de Caio F.:escritor que fala de amor e paixão com a mesma delicadeza, fluência e naturalidade que usava para encher os pulmões de oxigênio, para manter-se vivo. "Morangos Mofados" é a tradução em palavras de amontoados de coisas que não tem nome.

O rapaz ficou atônico, atordoado e pálido. É do tipo que acredita nos sortilégios irônicos do acaso e sua manifestação em coincidências totalmente inesperadas, mas aquela linda figura ao seu lado folheando as mesmas páginas em que ele lagrimou era demais para o seu ceticismo cego. Pigarreou.

Maldita chuva, maldito cabelo, maldita espinha, maldita idéia... Mais e mais sensações foram invadindo o moço: frio, pânico, euforia, medo, confusão... Junto delas, cresceu a vontade gritante de falar com a menina que o perturbava muda. Passou a encarar seu estado como um mal irremediável.

Precisa falar, tem que ser agora... Agora! Não, não, falar o quê? Não importa, deixa fluir, sabe como se faz... Calma, calma. Respira, abre a boca, vibra as cordas vocais, enrola a língua e mexe a boca. É fácil. Anda, anda... Fala do Caio, fala do Caio!

- Que horas são?

- Hã?

BURRO! Não fala mais nada!

Ele condenou-se sem dó enquanto o seu tênis vibrava sem parar expondo sua apreensão incontrolável.

- Nada.

- Desculpa, tava perdida no livro. Perguntaste as horas, não é?

- É, mas não se incomode. Tenho relógio. Foi só um pretexto besta pra falar contigo.

Mandei não falar mais nada!

Ela sorriu.

Ela sorriu?

- Olha, acho que não é a melhor forma de puxar papo. Eu te responderia a pergunta, tu provavelmente falarias ‘obrigado’, ficarias constrangido com o silêncio e eu voltaria à minha leitura achando que és um menino inseguro.

As palavras da garota atingiram-no como uma bala. Não que ele tivesse reprovado a reação dela, muito pelo contrário. Ela mostrou uma compreensão razoável a respeito dos meandros que permeiam um diálogo, e o mais importante: a capacidade de surpreendê-lo. Nosso amigo não é do tipo que se espanta com qualquer coisa, mas, a convicção e o conhecimento da moça ao seu lado eram sufocantes. A vulnerabilidade dele cresceu ao ponto de emudecê-lo por uns segundos.

Achou que estivesse numa espécie de transe: escutava as batidas do coração; enxergava uns olhos cintilantes que tentavam se encaixar nos olhos agitados dele; sentia um gelo no abdômen; um cheiro de foto velha; o gosto dela.

Ela sorria, despreocupada, exibindo ferros metálicos defendendo os dentes branquíssimos e bem formados, enquanto encarava-o divertindo-se com a cara espantada do rapaz que julgaria estar com ânsia de vômito se a situação fosse outra.

Olhos... Olhos, olhos... Nariz... Traços, sardas... Dentes, dentes... Lábios, boca, boca, lábios...

Ela via-o através de uma lupa.

Fala! Fala!

- Não sei o que dizer.

Não isso, cara...

- Não precisa dizer nada.

- Mas eu quero dizer algo, só que tô sem palavras... Triste ironia.

- Por que ironia?

Arriscou um sorriso cínico. Saiu totalmente sem jeito.

- Por nada. Gosto de usar palavras.

- Eu também.

- Como assim?

- Como tu.

- Como eu como assim?

A pergunta saiu afônica, ele falou apressado. Levará outro susto e a sua situação já era lamentável e digna de pena.

Ela riu de novo. Quase gargalhou: balançou o corpo, ajeitou os cabelos que caíram, descruzou as pernas, apertou os olhos, pressionou os lábios... Brilhava.

- Sou melhor que tu.

A menina falava num tom provocativo.

Cala a boca. Agora chega. Fica em silêncio e deixa que ela continue se quiser.

- Eu sei.

- Como?

- Não estás gaga.

Mais risos.

- Relaxa.

- Claro. Tens um calmante por aí?

IDIOTA.

- Minha cartelinha diária já acabou.

Sorriu aliviado.

Conversaram sobre calmantes, Caio, livros, escrever, medos, mentiras, pessoas e dentes por quarenta minutos. A recepcionista chamou-a, e então ele descobriu o nome da menina que agora é seu maior segredo. Depois de vinte minutos ela volta com um sorriso azul. Deu-lhe o número do celular, um beijo no rosto e uma carga elétrica que percorreu sem pressa cada osso da sua espinha dorsal. Logo depois foi a vez dele ser atendido.

Ficou repassando a conversa durante horas: enquanto o dentista trabalhava, no ônibus, no caminho para casa, no banho, antes de dormir, na aula, voltando para sua casa e, possivelmente, continuará a ouvir a voz firme da garota pronunciando palavras ferinas até ouvi-la outra vez, e outra, outra, outra... A imagem dela atormenta-o continuamente e lhe provoca a impressão de inchaço no peito. Ele ainda acha que se comportou como um completo idiota.

Finalmente percebi que o moço conseguiu o que tanto queria: qualquer coisa para gravar, um número para ligar, alguém em quem pensar, algo para temer, desconhecer o que esperar e uma excelente justificativa para libertar sua formidável loucura reprimida.

Quanto à garota, está feliz e apaixonada junto do seu formoso namorado. Ele sentiu um pouco de ciúmes ao escutá-la contar animada que encontrou uma pessoa super legal, apesar de um tanto estranha, no chato consultório odontológico. ''Muito provavelmente, será um bom amigo'', ela disse.







"...Ia continuar descrevendo a cena, pensou em acrescentar pinheiros, um crepúsculo, talvez um quarto crescente mourisco, quem sabe um lago até, quando a moça com o livro nas mãos tornou a baixar os óculos que erguera para a testa no momento em que o rapaz de camisa vermelha entrou, e leu um trecho assim:Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura — loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura...’’

Morangos Mofados - O Dia Em que Urano Entrou Em Escorpião.
Caio Fernando Abreu.

8 comentários:

Blau disse...

tamanha decepção no final saber que a garota já tinha alguém;
mas a vida é assim não é?

encantei-me com seu conto!

Beijos

Vendaval disse...

Bonito.(só uso o 'bonito' porque acho tal adjetivo infinitamente mais bonito que o 'lindo', mas pense no elogio no sentido de lindo).

Tiago Júlio disse...

Talvez a maioria já conheça, mas de qualquer forma:

http://semamorsoaloucura.blogspot.com

Nesse blog há quase todos os textos do Caio Fernando, incluindo os contos de "Morangos Mofados".

Mariana disse...

Tiago.. desde que conheci seu blog eu fico vidrada nas coisas que vc escreve.

Eu gosto de textos que nao te deixa perder uma só linha, se sente necessário saber o final e quando acaba acha ruim pois chegou ao fim...

Gostei.

Ah, e quando aos seu comentário no meu blog: quando escrevo minhas palavras ou quando falo alguma coisa direcionada para alguém, é que para mim ela é merecedora de ouví-las/lê-las!

Beijos carinhosos!

Jessica disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jessica disse...

Isso foi uma crônica escrita em terceira pessoa? Pelo menos em parte, vai?

É engraçado, eu costumava imaginar esse tipo de situação o tempo todo... Uma vez quase aconteceu, num consultório dermatológico. Só não tive coragem de puxar assunto. Mas, felizmente, o Acaso é um senhor deus mesmo...

Não vou elogiar, já tás te achando demais. Ora bolas.

E vê se não some (se bem que esse semestre acho que eu que vou estar meio sumida).

Inté, menino.

Filipe Garcia disse...

E aí Tiago,

descrição impecável do seu conto. Como já comentaram aí em cima: difícil desvencilhar os olhos de qualquer linha. Sua escrita suga a atenção e dá ao leitor algo que eu acho essencial: o prazer de ler.

O final também foge de qualquer clichê. A quebra de expectativa também ajuda nessa conquista ao leitor. Tudo o que é óbvio é chato, rs.

Abraço.

Sidereus Nuncius disse...

nem terminei de ler pq já sei como a estória continua e termina...
como diria um carinha do desenho do pica-pau: "e láááá vaaaaamos nóóóós"