sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Para a Menina.

Ah, menina, uma hora dessas quem sabe lês isso. Provavelmente irá gargalhar espalhafatosa com toda tua imponência, visível mesmo sem a tua presença. Vais rir por minutos sem mostrar os dentes; ainda não sei como são teus dentes e, nem de longe, sou do tipo que é dado a imaginar coisas impossíveis e que, muito provavelmente, nunca existirão. Farás apenas uma meia-lua gigante com teus lindos lábios rosados.

Sentirás vontade de me bater também: aquelas tapinhas sem força feitas de carinho, porque o que vou dizer talvez te deixe um pouco sem graça, um tanto quanto constrangida. Espero, sinceramente, que um dia eu esteja do teu lado para que tu me espanques até eu não conseguir sentir mais nada. Não, não descobriste agora que sou sadomasô. É que para mim seria uma honra inenarrável ter contato com tuas brancas, cálidas, pueris, singelas e delicadas mãos mesmo que isso me custasse à invalidez de algum membro.

Sei que a ironia já começou a escorrer, mas não posso evitar, ela vem direto da fonte: minha contradição combinada à consciência de que estou sendo ridículo. Vontade de escrever sinto constantemente, às vezes não sei sobre o que falar nem como direcionar isso sem parecer idiota, mas eu juro por tudo que é mais profano, que não fiz essa colocação para justificar coisa nenhuma: não estou escrevendo a ti por falta de opção melhor, ou de criatividade, ou boa-vontade, ou escassez de histórias, ou ausência de sentimentos , ou qualquer outra coisa relacionada às anteriores.

Escrevo a ti por um motivo infinitamente mais nobre e importante: és bonitinha, e coisas bonitinhas me inspiram. Possuis também minhas doces palavras porque tu roubaste meus pensamentos, menina - depois de uma dessa e uns três litros de álcool até eu casaria comigo. Não posso te explicar como isto funciona, teria que recorrer a cálculos físicos complicadíssimos e a filosofias de banheiro complexas demais para ti.

Não, não acho que sejas incapaz, muito pelo contrário: no meu julgamento dispensável e totalmente baseado em preconceitos bestas e impressões superficiais, eu percebi que tens lá os teus lapsos de lucidez intercalados entre uma expressão estúpida e a adesão de uma modinha idiota.

Aliás, deverias procurar um jeito melhor de expor tua imaculada personalidade. O que fazes além de ser nitidamente exagerado é um tanto quanto forçado. És diferente, não é necessário se igualar aos outros para ser o que já és. Não precisas provar coisa nenhuma a ninguém, menina. Parecer rebelde e descolada são atitudes típicas de pré-adolescentes imaturas que sofrem, sem perceber, crises de identidade enquanto idolatram a bandinha da vez e tentam encher o perfil do Orkut, quando não estão a entupir-se com umas besteirinhas recém-descobertas.

Vou te contar um segredo: uma grande parte do mundo é só um conjunto de incoerências temperado com pingos de hipocrisia & egocentrismo; as pessoas estão ocupadas demais satisfazendo sua ânsia por diversão barata e tentando promover elas mesma; distraídas com os próprios narizes não tem como olhar para o teu, por mais lindinho e empinado que ele seja.

Tua beleza é realmente radiante. Mais que isso: ela é inspiradora, e graças a ela escrevo palavras tão ternas e carinhosas a ti. Não mais me valerei de metáforas para te descrever, serei claro como tua casta pele: teus traços europeus misturados a tua aura mágica de ‘‘estou bêbada, sempre’’ te deixam incrivelmente bela. A aura de ‘‘estou bêbada, sempre’’ é tua maior graça, menina.

Tenho gosto exótico, eu sei. Mas sem ele eu não teria amor próprio.

Admiro-te atentamente tentando respirar tua beleza e quase sempre tenho a impressão de que estás num estado etílico ligeiramente elevado. Acho até que senti o cheiro forte do uísque vindo de ti e da tua garrafa enquanto tentava respirar a beleza numa foto tua.

Ah, escreves bem... Escreves mesmo. Vai ver é isso que te deixa bonitinha a ponto de me comover e escrever coisas tão açucaradas. A capacidade de expressão verbal é uma das coisas que mais aprecio em alguém: revela um conteúdo nosso que é oculto, de certa forma, é meio complicado chegar nele quando estamos no meio de todos. Revela uma consciência reprimida; gostei da tua consciência reprimida, menina. Ela não parece bêbada, tem um charme maior ainda: é ligeiramente perturbada. Não me entende mal, não falo pejorativamente, gosto da anormalidade: acho que aumentam teu sex-appeal esses leves desvios psiconeuróticos.

Acho-te encantadora, menina: inteligente, linda, sexy, agitada e bêbada.

Espero, de verdade, que uma hora dessas leias o que eu escrevi com tanto afeto; eu acho difícil, mas enfim. Não importa muito saber que é teu, só queria que captasses toda poesia transbordada de ti e moldada por mim.

Falaram-me uma vez que a tia Esperança é a última que morre e a primeira que ressuscita. E eu tenho muita fé de que algum conhecido em comum cruze nossos destinos e te mostre as tuas palavras; e é só, apenas e unicamente por isto, que compartilho com o mundo o que era para ser somente teu.

Ficou maior do que eu pensei que ficaria. Talvez eu continue mais tarde. Preciso te dizer de novo: Possuis também minhas doces palavras porque tu roubaste meus pensamentos. Eu pensei melhor em ti; percebi que nosso casamento não é coisa tão remota, o mais difícil é tu leres a frase.



Beijo na boca, Menina.

7 comentários:

Mariana disse...

Ownn!! que bonitinho!! hhehehe

Tomara que ela venha te ler e saiba que as palavras 'açucaradas' são para ela.

beijos

Filipe Garcia disse...

E aí meu caro Tiago,

ando atrasado com as leituras do seu blog, mas eu prefiro passar aqui com calma e digerir cada linha a fazer uma leitura sumária sem absorver a poesia toda que você carrega nos seus textos. E toda vez que leio um texto seu, percebo esse tom poético, às vezes escondido, às vezes explícito, é como se você quisesse e não quisesse poetizar seus sentimentos. E isso é bacana. A mistura da racionalidade, da embriaguez, da poesia, tudo misturado, faz da leitura de seus textos algo lúdico, prazeroso.

Sobre a carta, gostei do lado irônico, do romantismo pendendo pro lado sexual, das declarações por vezes vazias, mas sinceras. Somos tolos quando apaixonados, rs.

"és bonitinha, e coisas bonitinhas me inspiram" - essa frase foi hilária!

Abraço, meu caro. E tomara que a menina leia suas letras.

Vendaval disse...

"Possuis também minhas doces palavras porque tu roubaste meus pensamentos, menina".
Essa habilidade é maior do que ser bonitinha, apesar de bonitinha ser bonitinho.

Bonito.

.Ná. disse...

E olha só quem é que foi me falar de exagero! ahahaha
eu adoro teus escritos, por mais que sejam exagerados como eu.
Beijos

Narradora disse...

Irônico e romântico, açucarado e amargo, gostei.
Bjs

michelle Kalif Maia disse...

E ela te achou?

michelle Kalif Maia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.