quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Capítulo 1 - Parte 3 - Izabel

Agora eu gasto as horas do início da noite me sentindo um completo escroto.

Até a semana passada eu preenchia o intervalo entre as sete e as dez lendo. No fim do expediente, às seis e meia, tomava o café sem graça da garrafinha térmica esquecida ao lado da estante de livros infantis. Eu pegava algo interessante no almoxarifado e lia até ser surpreendido pelo desaparecimento das letras, as dez, quando o Luiz desliga as luzes dos corredores. Uma noite dessas, eu estava tão distraído com as memórias das putas do García Marquez que, quando a penumbra apareceu, eu continuei a leitura usando a iluminação do celular. O Luiz, a Rose e o Carlos pensaram que eu já tinha saído, fecharam a loja e eu fui obrigado a dormir na sessão de auto-ajuda, jogado em cima da poltrona desconfortável que nunca é agraciada pelas nádegas de nenhum cliente. Eu sonhei com anjos, acordei com torcicolo e com medo no outro dia. Isso, lógico, antes da Izabel.

Claro, a possibilidade ter centenas de livros ao meu alcance (e de graça, óbvio) foi o que mais pesou na hora de eu decidir que meu emprego fixo seria numa livraria. Além do quê, o trabalho é fácil e não sou pressionado. Basta um sorriso no rosto, um pouco de educação, atenção e interpretação que a pessoa sai feliz e satisfeita da loja, carregando algo que vai ler e depois, de tudo que leu, só lembrará o título e fará um resumo porco a quem perguntar sobre o livro. O Carlos disse que sou um bom vendedor e, se eu continuar assim, eu posso até ser promovido a supervisor em uns meses: ele falou isso de um jeito tão pomposo, com um sorriso tão grande e transpassando tanto estímulo... Era como se soubesse que desde menino já fantasiava com isso, meu maior e único e sonho, minha realização profissional, a chave que abriria a porta do quarto onde está trancada minha felicidade gigantesca: eu me tornar um admirável e todo-poderoso Supervisor de alguma porra. Eu terei até um crachá?

Merda. Eu encaro o livro, corro os olhos pelas letras, junto dois períodos e perco a linha da narrativa. Melhor seria ler uma coleção de poemas de amor. Aí sim, eu justificaria a pieguice com mais pieguice... Eu enrolo falando de mim porque sou egocêntrico, e, agora, eu sou a única coisa maior que a Izabel. Até agora. As palavras da Izabel, os risos, os trejeitos, o olhar, os sons... Fico repassando tudo, como se não houvesse mais nada para pensar que não seja ela.

Jovem advogada bem sucedida; mora sozinha num apartamento duplex (próximo à livraria, aliás); acredita em E.T’s; não acredita em deus; sonha em dar a volta ao mundo; tem medo de grilos; não tem medo de baratas; conta ter visto o papai Noel voando em seu trenó; gosta de vermelho-puta (tom que ela mesma inventou); gosta de vestidos floridos, por ser muito irônico usá-los; tem um sexy ar de drogada; disfarça brilhantemente sarcasmo com simpatia; é encantada pelo cheiro de jasmim; gosta de soverte de cupuaçu; odeia ter que acordar cedo; odeia ter que dormir cedo; odeia abacate; odeia salto alto; odeia a dona Joana; odeia carne de porco; odeia pessoas efusivas; odeia não poder beber a hora que quiser; odeia lugares lotados; odeia gente vazia; odeia discussões estúpidas; aleijou um gato quando era criança porque ele arranhou sua bochecha (justifica-se dizendo que não queria nada mais que assustá-lo); quebrou o dedo de um ex-namorado porque ele lhe apontou o dedo e ela estava porre (acha justificável); acha casamento coisa brega; acha filhos perda de tempo; acha os pais obsoletos; acha que a humanidade está condenada a pagar por todos os seus erros e que, no máximo, em um século a vida será extinta por catástrofes naturais e só sobreviverão as baratas; me acha jeitosinho; não se importa muito com o futuro da raça humana; se importa um pouco comigo; precisa trocar a fechadura da porta do banheiro de visitas; não aceitou minha ajuda quando me ofereci para trocar a fechadura da porta do banheiro de visitas, assegurando ainda, que não precisa de mim; perdeu a virgindade com treze anos; diz ser sensível e passional (nisso eu não acredito); já se relacionou com um cliente que era réu confesso; já se relacionou com a melhor amiga; fala que eu sou estranho; se considera estranha; não sabe nadar; desaprendeu a andar de bicicleta; queria morrer afogada, só pra ver como é; já levou um tiro no braço porque se recusou a dar o relógio de ouro ao assaltante; prometeu morte ao assaltante que lhe deu um tiro no braço e depois o perdoou, quando soube que ele foi assassinado; afirma já ter provado todos os destilados existentes (nisso eu acredito); guarda garrafas de absinto com teor alcoólico de 74% na dispensa (ela diz que são ilegais); encomendou três garrafas de arake à prima que foi a São Paulo; jura que vai parar de beber, pois a bebida está deixando sua pele horrível; já caiu em coma alcoólico duas vezes e meia; compra pipoca apenas para alimentar os pombos; não gosta de pombos; diverte-se com o jeito dos pombos se mexerem; queria ter um pombo de estimação; tem um vibrador de estimação; adora se olhar no espelho nua; tem o ego maior do que ela; é meio psicótica; é totalmente neurótica; confessa ter características típicas de psicopatas; pensa que a maioria das pessoas não passam de um bom passatempo; me elogia dizendo que eu sou um passatempo interessante; venera o Saramago; ama o Chico; curte dançar rock; ainda sabe tocar um pouco de piano; quebrou o seu piano; paga as contas em dia (menos o condomínio, de propósito, apenas para chatear a síndica-idiota); não se incomoda em ter somente três amigos; é a favor da reforma agrária, da igualdade sexual, da legalização aborto e do sexo casual; me dá medo; me provoca calafrios; me surpreende a cada fala; faz eu me sentir feliz por estar vivo; faz eu sentir vergonha de mim mesmo; instalou-se na minha cabeça e vaga feito fantasma, mesmo nos pensamentos que não são dela... Não eram.

A Izabel é uma droga. Como as drogas, ela resume minha existência a si. Ela faz inconscientemente, eu, mesmo consciente, não consigo escapar... Sabe, as drogas também matam, e eu decidi que não quero morrer ainda. Tenho razões magníficas para gostar da Izabel, mas as razões para deixar de gostar dela são melhores. Sou racional demais para ser um simples amigo de uma Izabel.

Não. Tenho que concordar: deixar de gostar é meio difícil... Vou dividir o que eu sinto pela Izabel. É! Vou fatiar o sentimento. Meu coração é uma pizza que será divido por oito ou mais mulheres. É, é assim que vai ser... É assim que era antes. Quem sabe não recupero minha individualidade? Paradoxal, mas foda-se. Argh. Acabou.

Merda... Seis paradas... Quero apagar... Não, quero a Izabel.

- Boa noite. Novecentos e dois. Diga que é o Eduardo.

6 comentários:

Marina disse...
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Tiago Júlio disse...

"Vontade de gritar, nada pra dizer."

Anônimo disse...

Gostaria de ver a Izabel no BBB
hahahahahah
Ti

felipe lima disse...

difícil, a izabel.

Zaynad disse...

"Tenho razões magníficas para gostar da Izabel, mas as razões para deixar de gostar dela são melhores."

e mesmo assim é difícil. mas eu entendo o eduardo. depois que eu olho os dois lados e finjo que acabou, eu me descuido da minha racionalidade e olho as razões magníficas com lente de aumento. e repito tudo de novo.

beijos!

Jaya disse...

Tiago,

Maneira mais intensa de nos apresentar Izabel, não haveria. A maneira como ela se expôs aos olhos de Eduardo, e o delinear que ele fez dela, pra gente, foi exato. O texto parece ter sido escrito numa disritmia deliciosa.

Me encantei por Izabel. Diante das minúcias ela se materializou, do lado de cá. Já montei as personalidades e ações dela, em mim. [E cara, a gente se encaixa (eu e ela) em muitas bizarrices]. Haha.

O texto acabou rápido. Vou pra próxima parte, agora. Não entendo ainda como pude demorar tanto pra chegar até aqui. ¬¬

Té mais!

P.S.: As memórias das putas de García Márquez não chegaram a me distrair em bom tamanho.