terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Coisas que saíram de moda.

Hoje conheci uma pessoa muito especial, conhecer é modo de dizer, não é simples conhecer alguém, mas disso falo outra hora.
O ônibus parou e um grupo grande de pessoas se posicionou próximo à porta de entrada, a maioria era idosa, então eu, e as outras pessoas que viveram menos, esperamos pacientemente nossa vez de subir.
Não foi fácil chegar até a roleta. Na parte da frente, alguns ocupavam os assentos preferenciais e tiveram que se levantar pra dar lugar a quem que tem direito de usá-los. Isso gerou um pequeno tumulto, mas foi uma confusão irrelevante comparada a que fez uma senhora que estava na minha frente tentando pagar sua passagem.
Devia ter uns cinqüenta anos, talvez um pouco mais, sua mão esquerda estava enfaixada, quebrada, eu acho. Estava bem vestida, provavelmente sairá da igreja, sei, porque vi dentro de sua sacola um jornal (ou seja lá o que for) com os dizeres ‘’Igreja Universal’’.
Ela jogou uma pequena bolsa de moedas na frente do cobrador, que não deu muito importância e continuou a receber das outras pessoas que estavam atrás (e não eram poucas).
A pequena senhora começou a ficar vermelha, falou algumas coisas num tom de voz mais alto, passou pela roleta, e sentou no assento bem ao lado do cobrador. As outras pessoas (e isso me inclui) passaram, fiquei de pé ao lado da dona, mas o cobrador recusava-se a tirar o dinheiro da bolsinha verde.
A discussão ia longe, a mulher, visivelmente alterada, já soltava ‘’porras’’ e estava a ponto de xingar (se é que não xingou) o cobrador que inconformado, mas impotente diante da situação, só pedia respeito. As atenções e os comentários estavam todos voltados a eles, a polêmica estava formada.
Eu poderia continuar falando da mulher mal-humorada, da falta de bom senso e respeito, de hipócritas moralistas, de pessoas que compram esperança de plástico e andam por aí pregando bons valores esquecendo-se de vivê-los, que classificam quase tudo como imoral e pensam pequeno, ou não pensam. Isso pode esperar.
Eis que do fundo do ônibus escuto: ‘’Olha o picolê, geladinho, dê tudos os sabôres’’. Olhei pra trás e vi um senhor com um isopor de 20 litros no colo, o adesivo colado numa das laterais mostrava o cardápio dos picolés. Devia ter a mesma idade da senhora estressada. Usava roupas bem castigadas. Uma camisa branca encardida, uma calça jeans surrada, e um chapéu de cowboy marrom desbotado. Não me esqueço mais da fisionomia indescritível daquele senhor. Tinha as bochechas grandes, os olhos próximos ao nariz e o nariz do queixo, e tudo próximo da boca. Não foi fácil perceber que ele esteve sorrindo o tempo todo. Soltou outra: ‘’Num vô saí daqui não, tá muito sôl lá fôra’’, tentando, em vão, descontrair o ambiente depois da tensão que havia se formado. Mas, não foi o fato dele falar errado que me impressionou. Ele falava como um bêbado (e talvez estivesse mesmo), enrolado, mas era compreensível, quase cantava. Onomatopéia nenhuma chega perto de demonstrar a maneira única daquele homem se expressar.
Fiquei sorrindo. Admirando sozinho aquele senhor ignorado, que sempre rindo com sua cara estranha e simpática ao mesmo tempo, fazia a propaganda de seus picolés, indiferente à discussão que prosseguia mais à frente.
Escutando o locutor de rádio dos anos 50 de voz grave e melódica que saiu de moda, tive a impressão de que a coisa mais importante e divertida do mundo é vender picolés.
Continuei sorrindo.

4 comentários:

Por Gerson Ribeiro disse...

Cara muito bom gostei muito lembrou até os textos do Noblat, claro que cada um ao seu modo mas enfim achei muito bom...
abra brother continue assim vai longe.

LuenaBarros disse...

que bom que ainda existem!

Bernard disse...

Poxa interesante, escreves bem, não somente pelo fato das coisas mas realmente do que retrata, e esse texto interpreta as coisas que pouca gente consegue persebe no seu dia a dia.
Fique com até logo, blz!!

Agnes :D disse...

nossa adorei seu jeito de escrever *-*